RELATO VIAGEM DE MOTOCICLETA À USHUAIA - TERRA DO FOGO - FIM DO MUNDO, COM DURAÇÃO DE 28 DIAS, 13.110 KM RODADOS. MOTOCICLETA UTILIZADA: YAMAHA TDM 850
 

Nos seis meses de planejamento que antecederam a tão esperada partida rumo ao "fim do mundo", houve bombardeios de informações vindas de várias fontes que, se levadas realmente em consideração, fariam qualquer um desistir da empreitada. Acho que foi isso que nos motivou, eu e Mikka, a querer ainda mais alcançar aquela parte do globo terrestre a bordo de uma motocicleta. Tornou-se uma questão de honra.

Dentre as citadas condições desfavoráveis podemos destacar o frio, a chuva e o vento. Gostaria de rapidamente discorrer sobre eles. Vamos ao frio: sim, é frio, porém um bom equipamento fará com que você não sofra desnecessariamente. Encontramos pelo caminho vários desistentes, inclusive brasileiros, que viajavam com suas roupas de couro. Como opinião pessoal e também técnica, considero o couro muito bonito e que tem tudo a ver com motocicletas, mas ele não protege do frio. O mercado nacional hoje já oferece boas opções de roupas próprias para climas frios, a preços razoáveis (inclusive luvas). A melhor época para se viajar a Ushuaia é o período compreendido entre os meses de dezembro e janeiro, pois fora disso o frio torna-se massacrante e a neve começa a bloquear estradas.

Quanto a chuva: é uma região chuvosa, mas para nós, brasileiros, nada de anormal, e aqui vale também a questão do equipamento - dispense o couro, procure componentes feitos a base de cordura, gore-tex, térmicos e impermeáveis. Para garantir, leve na bagagem sua velha roupa de chuva. Agora vamos ao vento: esse sim, um inimigo à altura. Mas ele vai te envolvendo aos poucos, como que sutilmente tentando te impedir de prosseguir. Essa estratégia do vento está equivocada pois permite que você vá se acostumando a pilotar moto em condições até engraçadas, que pode chegar às vezes chegar a inclinações que desafiam as leis da física. Na Província de Santa Cruz e na Terra do Fogo o vento ataca pra valer, mas aí você já está perito no assunto e o único conselho é ficar "sempre alerta".

Deixando de lado os inimigos naturais dessa aventura maravilhosa, vamos falar de coisa boa. Ushuaia, capital da Província da Terra do Fogo, Argentina, cidade que vende a si mesma como o "fim do mundo". Destino sonhado por muitos, alcançado por alguns. Devo dizer que o fim do mundo é lindo, e a sensação de estar lá, tendo rodado mais de 5.000 Km sobre duas rodas, é incrível. Há um grande trecho que resolvemos chamar de "pedágio", que é a confusão e a truculência de se rodar na província de Buenos Aires, até as proximidades da cidade de Bahia Blanca, pois não há quase nada interessante. Mas a partir daí as coisas melhoram e você já passa a se sentir um aventureiro, pois estará rodando pelas longas planícies desérticas da Patagônia Argentina, com suas retas intermináveis, rara vegetação de estepe, guanacos (animais semelhantes a llama e a vicunha) à beira da estrada, o Oceano Atlântico à sua esquerda, pequenos salares e passando por cidades que parecem esquecidas por ali há muito tempo, como é o caso de Sierra Grande ou Tres Cerros.

O percurso que escolhemos para atingir Ushuaia foi o da Ruta 03, rodovia argentina que tem mais de 3.000 Km e vai de Buenos Aires até a Bahia Lapataia, 30 km depois de Ushuaia, onde há a famosa placa que sinaliza seu fim. Para quebrar a monotonia que às vezes nos assolava devido as suas grandes retas em meio ao Deserto da Patagônia, fizemos algumas escapadas estratégicas que consideramos imperdíveis, como a Península Valdez (não deixe de mergulhar em suas águas, na localidade de Puerto Piramides), a Loberia de Viedma, com milhares de lobos marinhos preguiçosamente se amontoando nas pedras à beira-mar, protegidos por imensas falésias que ainda abrigam uma grande variedade de pássaros, e as colônias de pinguins de Punta Tombo e de San Julian.

Após atravessar o Estreito de Magalhães de balsa, em uma viagem que dura 20 minutos, e entrar definitivamente na "Grande Isla de Tierra del Fuego", a paisagem muda completamente, a vegetação gradativamente volta à cena, grandes rebanhos de ovelhas na beira da estrada, guanacos continuam andando soltos, montanhas nevadas começam a reaparecer - as últimas representantes da Cordilheira dos Andes, que morre em Ushuaia. As composições visuais que encontramos por lá são dignas dos mais belos filmes, "coisas de cinema" como costumamos dizer no Brasil. Entre Rio Gallegos e Ushuaia há exatamente 229 Km de estradas de "rípio" (terra com areia e pedras), intercaladas com trechos pavimentados, que consideramos bem transitáveis, nos permitindo desenvolver boas velocidades, não se configurando, em nenhum momento, motivo de preocupação para completar a aventura. Muitos motociclistas deixam de visitar Ushuaia por conta desse trecho, o que é uma pena.

Ushuaia nos surpreendeu pelo seu tamanho e estrutura, porém não mais que por sua beleza. Os Andes deitam suas últimas montanhas bem atrás da cidade, compondo um visual incrível. Essas montanhas eu e Mikka resolvemos apelidá-las de "Montanhas Panda", pois são negras e manchadas por faixas de gelo de um branco fantástico. A maior destas montanhas é o Monte Olívia, com 1.500 metros sobre o nível do mar.

A cidade possui toda a estrutura para bem receber os viajantes, vários campings e hotéis de várias categorias, e ainda charmosos cafés e ótimos restaurantes. Como sugestão gastronômica, vá a um restaurante típico e peça "cordeiro fueguino", assado ao modo patagônico.

Há vários passeios para se fazer ao redor da cidade, seja de barco pelo Canal de Beagle, uma escalada até o Glacial Le Martial ou um "trekking" no Parque Nacional Tierra del Fuego. No centro da cidade há um escritório de informações turísticas com atendimento de primeiro mundo. Ficamos em Ushuaia por 03 dias e foi lá que passamos o Reveillon 2003/2004.

No retorno, ao deixarmos a Terra do Fogo, rumamos para oeste para visitar o Glacial Perito Moreno, na cidade de El Calafate. Beleza natural de tirar o fôlego, maior bloco de gelo fora dos continentes gelados, vestígio claro da era glacial de 2 milhões de anos atrás. Estou me esforçando mas não encontro adjetivos à altura deste patrimônio natural da humanidade, título conferido pela Unesco. Vá lá e veja você mesmo.

De El Calafate retornamos para Comodoro Rivadávia e de lá para as cidades de Esquel, El Bolson e por fim Bariloche. Este percurso é um enorme prazer fazer de motocicleta, pois são estradas que vão acompanhando a linha das grandes montanhas com neve dos Andes, e uma vegetação multi-colorida e variada. Estas três cidades têm seu charme especial pela sua posição geográfica, especialmente Bariloche, que nas suas cercanias nos presenteia a cada curva com belas e inusitadas paisagens, lagos incríveis e altas montanhas.

Para retorno ao Brasil, desde Ushuaia, há várias opções. Nós escolhemos esta para conhecer uma parte diferente da América do Sul e para passar novamente pela região dos Sete Lagos e pelos vulcões chilenos, em Osorno e Villarrica (tínhamos estado lá em 2002, também de moto). De Bariloche ingressamos no Chile, até Santiago, e de lá de volta pra casa, em Florianópolis, Santa Catarina.

Foram maravilhosos 28 dias, tempo em que rodamos exatos 13.110 Km, sendo produzidas mais de 400 fotografias, 03 horas de filmagens e vários "souvenirs" que ficarão como lembranças eternas dessa já saudosa grande aventura. Deixamos a receita para o sucesso nesse tipo de viagem: faça uma revisão geral em sua moto, seja ela qual for, pois não importa a cilindrada para se chegar lá. Coloque pneus e relação novos, invista em boas roupas, principalmente nas luvas, garanta uma autonomia de sua moto de pelo menos 300 Km, faça um bom planejamento e, por fim, seja feliz!