RELATO DE VIAGEM A USHUAIA, JANEIRO DE 2008, PASSANDO POR CARRETERA AUSTRAL, GLACIAR PERITO MORENO, PARQUE NACIONAL TORRES DEL PAINE E EL CHALTEN – FITZ ROY. 31 DIAS, 14.060 KM

 
 

A viagem realizada em 2004 a Ushuaia foi maravilhosa, o que nos levou a realizar nova visita àquela cidade, desta vez utilizando um roteiro de ida diferente.

O trajeto incluiu nova passagem pela Carretera Austral e Glaciar Perito Moreno e teve como novidade o Parque Nacional Torres del Paine e alguns trechos da Ruta 40.

Definido o período de realização da viagem, fechamos o grupo com o parceiro da viagem aos Países Andinos 2007, André Doemer e minha irmã Ana Paula Rauen. Seriam duas motos V-Strom e dois casais, já que esta viagem marcou o retorno da Michelle (minha esposa) para a garupa de nossa moto, depois de ficar de fora de 3 grandes roteiros.

A partida foi marcada para 28/12/2007. Eu e Michelle saímos neste dia e íamos encontrar André e Ana já na Argentina, na cidade de Trevelin, fronteira com o Chile, na entrada para a Carretera Austral.

Em três dias e meios de viagem chegamos a San Martin de los Andes para a comemoração do Reveillon e por lá ficamos por mais dois dias descansando dos longos dias de viagem que tivemos logo no início, pois o objetivo era passar a virada do ano novo em uma cidade decente e não no meio das planícies argentinas. A cidade de San Martin de los Andes, a propósito, merece uma estadia mais demorada pois é muito gostosa, bonita e repleta de bons restaurantes, bares etc.

No dia 03 de janeiro de 2008 viajamos de San Martin de los Andes até a cidade de Trevelin. No trajeto estavam 51 km de rípio muito ruim, justamente na estrada que passa pelos Sete Lagos, em direção a Villa la Angostura, cidade vizinha a Bariloche. Chegamos em Travelin após 9 horas de viagem, passando por Bariloche, El Bolsón e Esquel, cumprindo 539 km. Este trajeto é muito bonito e torna-se um belo passeio de moto pelas montanhas da cordilheira da Patagônia Argentina, em um trecho onde há bosques com árvores e flores, coisa rara na Patagônia.

Conforme combinado encontramos com o André e minha irmã em Trevelin e aí começou realmente a viagem. Já estavam devidamente instalados em uma cabana completamente equipada para 4 pessoas. Uma ida ao mercado nos trouxe cerveja e comida para prepararmos na cabana e colocar a conversa em dia, além de preparar as coisas finais para o dia seguinte, quando iríamos ingressar na Carretera Austral. Esta é a primeira viagem que realizamos em que, por estarmos em 4 pessoas, a opção de hospedagem em cabanas acabou sendo um grande negócio. Além do preço, que fica bem acessível, o fato de poder preparar sua própria comida e ficar completamente à vontade foi demais. Passamos a nos hospedar em cabanas em lugares fantásticos.

No dia seguinte, 05 de janeiro de 2008, partimos para os percursos de rípio em direção à Carretera Austral. Através do Paso Internacional Futaleufu entramos no Chile e seguimos até La Junta. Foram 209 km de rípio com muitas e longas paradas para apreciar os maravilhosos visuais da Carretera Austral. Oito horas e meia na estrada. Lagos, montanhas nevadas, bosques, rios e muita poeira foram os parceiros desta viagem daquele ponto em diante. Em La Junta procuramos novamente uma cabana, na Cabañas La Cascada – Doble AA (US$ 70,00 para quatro pessoas), onde as cabanas tem nomes próprios, ficamos na chamada Sofia Paz. A proprietária das cabanas, senhora Sonia, é uma simpatia e nos deixou completamente à vontade. Da varanda de nossa cabana tínhamos a Carretera bem à frente, onde ficamos por horas batendo papo e vendo passar as incontáveis pick-ups 4X4 de todas as partes do mundo. Do manejo do fogão saiu um jantar completo e com custo altamente vantajoso para quem tem uma viagem de 30 dias para fazer. La Junta tem um pequeno mercado onde pode se encontrar um pouco de tudo e também uma carnicería (açougue) onde cortes de carne são uma verd4adeira pechincha.

De La Junta o destino era Coihaique, 291 km à frente, sendo 129 km de rípio até Villa Amengual. A partir dali tem 25 km de asfalto e depois mais 10 de rípio para então seguir por asfalto até Coihaique. Como já realizamos viagens para roteiros semelhantes, estes dados sobre as quilometragens de rípio e a qualidade da estrada são pontuais, ou seja, valem para aquela época, já que as obras de asfaltamento sempre progridem um pouco, como podemos perceber já em comparação com a viagem realizada à Carretera Austral em 2006. Na parada para o almoço em Villa Amengual, fomos na Cafeteria Michay, onde comemos um cordeiro ensopado preparado na hora por sua proprietária e suas filhas.

Continuaram os visuais maravilhosos da Carretera, o que nos fez ficar na estrada por 10 horas até chegar em Coihaique e achar hospedagem nas Cabanas da Calle 12 de Octubre (US$ 70,00 para quatro pessoas). Este dia estava nublado e com um pouco de frio, na casa dos 12°C, o que nos fez colocar todos os forros das roupas de pilotagem.

Em 06 de janeiro de 2008 viajamos 232 km, sendo 130 de rípio, até Puerto Tranqüilo. Este trecho é muito interessante pois o rípio é de boa qualidade, com exceção dos 20 km iniciais a partir de Cerro Castillo, que estão muito ruins e são ainda afetados por um forte vento lateral. Depois de um almoço na Cocina da Sole (o ônibus-restaurante de Cerro Castillo) fomos passando pela Laguna Verde, Bosque Muerto e Lago General Carrera até nos hospedarmos na Cabaña Maureira, logo na entrada da cidade, propriedade da senhora Eduviges, uma pessoa maravilhosa. O custo de US$ 70,00 para quatro pessoas se repetiu e ficamos hospedamos na margem do Lago General Carrera, um visual digno das revistas mais requintadas de turismo. Puerto Tranqüilo dispõe de mini-mercados onde também se pode comprar de tudo para um jantar delicioso. Foi o que fizemos, regado a cerveja gelada e seguido por uma rodada de truco para descontrair. A própria senhora Eduviges agencia o passeio de barco para visitar as Capillas de Mármol (Capelas de Mármore) a US$ 50,00 para 4 pessoas. Foi o que fizemos na manhã seguinte, apesar da chuva e das águas revoltas do lago. Até o piloto do barco parecia assustado com as condições do tempo e do lago, mas seguimos em frente assim mesmo, já que o tempo muda muito rapidamente por aqueles lados. E assim foi, abriu o sol, choveu, formou-se um arco-íris nas montanhas atrás do lago, etc.

Voltamos para a cabana e montamos tudo na moto. Deixamos Puerto Tranqüilo debaixo de muita chuva. Fomos avançando no rípio encharcado porém muito bom. Aos poucos ficamos completamente imundos. Passei a imaginar se os donos de pousadas pela frente iriam aceitar maltrapilhos como nós...

O trecho previsto para aquele dia foi de Puerto Tranqüilo até Cochrane, ainda na Carretera Austral. Em 4 horas de viagem cumprimos os 120 km de rípio que separam as duas cidades.
No entroncamento da Carretera Austral com a estrada que leva para Chile Chico (El Maitén) encontramos dois alemães, um com uma KTM 950 Adventure e outro de Suzuki Freewind. Paramos para conversar e começaram com relatos muito engraçados sobre suas façanhas para conseguir controlar a moto na Ruta 40 devido ao vento e também sobre o crônico problema de falta de gasolina naquela região. Como não falavam inglês, a conversa se dava com muita mímica, engraçado demais. Por fim, nos fizeram entender que os ventos estavam fortíssimos e que ficaram 5 dias na Ruta 40 aguardando por gasolina, que conseguiam através da bondade de moradores da região, e assim iam prosseguindo o quanto podiam. Essa notícia nos fez começar a pensar em um melhor planejamento a respeito da Ruta 40, afinal, nós estávamos com duas motos completamente lotadas de equipamentos e ainda com nossas esposas na garupa. Até aquele ponto tudo estava tranqüilo, as estradas de rípio foram percorridas sem problemas, porém na Carretera Austral não há a incidência dos fortes ventos patagônicos e há gasolina tranquilamente.

Muito frio, chuva e buracos na estrada próximo a Cochrane. Margeando o Rio Baker andamos por vários quilômetros, um rio de águas muito verdes que constrastava com as montanhas e o céu cinzento. Margeamos também o Lago Beltrand e o Rio Cochrane até chegar na cidade. Cochrane é um povoado pequeno, deve ter uns 1000 habitantes. Fica entre o nada e o coisa alguma. Pouco comércio, mas o suficiente para abastecermos a geladeira da nossa cabana alugada (Cabaña Choike Aike – US$ 60,00 para 4 pessoas). O jantar foi cordeiro assado no forno, arroz branco e salada de tomate e alface. Tudo preparado pos nós mesmos.

Após a janta fizemos uma reunião para avaliar as informações obtidas com os alemães. Decidimos seguir com nossos planos iniciais, ou seja, no dia seguinte ir até Bajo Caracoles, via Paso Roballos. Em Bajo Caracoles avaliaríamos melhor a situação.

E assim fizemos. Partimos cedo para o Paso Roballos. As informações dos alemães davam conta que o próprio paso estava difícil de transitar. Era um exagero por parte deles. Seguimos devagar, passamos por alguns alagados (por vezes passamos a moto primeiro e depois voltávamos para buscar as mulheres agarradas às nossas costas, hehehe). Fizemos os trâmites aduaneiros chilenos e argentinos. Encontramos um casal de São Paulo viajando em uma Toyota Bandeirante. Relataram coisas semelhantes às dos alemães: falta de gasolina e ventos fortíssimos, que quase botaram a Toyota pra fora da estrada. Opa, se está empurrando uma Toyota, o que fará com nossas míseras motocicletas? Ainda, com as garupas e bagagem cheias, como iríamos levar mais uns 15 quilos em gasolina reserva? Decidimos seguir em frente, porém fomos até Lago Posadas, que, conforme informações dos policiais da aduana, é um povoado mais bem organizado que Bajo Caracoles.

Cumprimos naquele dia 165 km de rípio através do Paso Roballos, desde Cochrane até Lago Posadas. A cidade tem 200 habitantes, pouca oferta de hospedagem e nenhuma gasolina. Estávamos ilhados naquele fim de mundo. Depois de muita procura achamos onde dormir, na Posada Los Pioneros (US$ 30 para 2 pessoas). O proprietário do local, Sr. Vitor, voltou a confirmar a condição de gasolina e as péssimas condições da estrada, além dos ventos, que estavam mais fortes que o normal para aquela época do ano.

O dono do único mercado de Lago Posadas conseguiu gasolina para enchermos os tanques.
A operação de abastecimento foi no escuro, em meio ao mato atrás de uma pousada. Um problema a menos para resolver.

Seguimos para Bajo Caracoles, que é não mais que um ponto de cruzamento de estradas de rípio em plena Ruta 40. Tem uma bomba de gasolina (que não tinha gasolina), uma pousada, uma lanchonete... Eu havia acelerado um pouco mais forte na estrada entre Lago Posadas e Bajo Caracoles. Em minutos chega o André com o pneu traseiro furado, que foi consertado sem problemas. Ao entrar na “cidade”, encontramos um americano com uma KTM 950 Adventure. Contou-nos que estava parado ali há dois dias à espera de gasolina. Essa informação nos fez desistir definitivamente de seguir nosso trajeto original, que era descer a Ruta 40 até El Chaltén no dia seguinte.

Nosso trajeto passou a ser: subir de Bajo Caracoles até Perito Moreno (125 km, sendo 75 de rípio com vento). De Perito Moreno seguir até o Atlântico e pernoitar em Caleta Olívia e descer pela Ruta 3, chegando a El Calafate pelo asfalto.

Partimos de Bajo Caracoles com muitos malabarismos para manter a moto de pé. O André seguiu na frente e logo sumiu de minha visão. E lá íamos nós, contando os quilômetros e negociando com o vento nosso bem estar. Faltando 25 km para alcançar o asfalto próximo a Perito Moreno, descuidei da pilotagem, saí do trilho dos carros e enterrei a roda dianteira no rípio fofo da beira da estrada. Tentei ainda consertar dando uma acelerada mas já era tarde. Estávamos muito devagar, a moto simplesmente parou no rípio fofo e tombou para a esquerda. Estávamos eu, Michelle e a moto deitados em plena Ruta 40. Nós ainda com as pernas embaixo da moto. A Michelle dá o alarme que seu pé esquerdo está trancado entre o bauleto lateral e a moto. Após conseguir soltar o pé, reerguemos a moto e nos recuperamos do susto por uns 10 minutos, sentados na beira da estrada.

Montamos na moto e continuamos nossa peregrinação naquele deserto patagônico ventoso e empoeirado. Alcançamos o asfalto e tocamos direto para Perito Moreno e no fim da tarde estávamos em Caleta Olívia.

De Caleta Olívia seguimos para Rio Gallegos e passamos o dia todo com muito frio e com ventos laterais de muita força, mas muita força mesmo. O esforço da moto era tão grande para vencer o vento que chegou a consumir 1 litro de gasolina a cada 9 km rodados.

A história se repetiu: encontramos alguns brasileiros de moto que estavam desistindo de prosseguir devido ao vento e ao frio. Novamente, dando uma rápida analisada em seus equipamentos, ficou fácil descobrir o porquê das desistências. Um deles ainda levava um grande extintor de incêndio amarado na bagagem (se tivesse consultado este site antes de viajar, não estaria carregando aquele peso morto em sua moto – ver seção DICAS). No dia seguinte fomos para El Calafate, onde novamente nos hospedamos em uma cabana (Cabanas El Puente, US$ 65,00 para 4 pessoas). Ficamos em El Calafate por duas noites. Visitamos o Glaciar Perito Moreno novamente e desta vez pagamos (US$ 85,00 cada um) para fazer um trekking sobre o glacial, uma experiência realmente inesquecível. Caminhamos por mais de uma hora sobre aquela imensidão de gelo, equipados com garras acopladas na sola de nossas botas. No final do trekking a empresa proporciona uma rodada de whisky com gelo do glacial. Um brinde a um dos lugares mais bonitos do mundo.

Nosso próximo destino era o Parque Nacional Torres del Paine. Este parque nós queríamos ter visitado em nossa viagem a Ushuaia de 2004, mas por falta de tempo não foi possível. Desta vez não ia escapar. De El Calafate voltamos a La Esperanza e dali seguimos a oeste por uma rodovia toda asfaltada até a fronteira com o Chile, em Cancha Carrera – Paso Don Guillermo.

Feitos os trâmites e 16 km de rípio adiante, chegamos ao povoado de Cerro Castillo, onde há gasolina (uma bomba) e um bom ponto de parada para almoço (El Ovejero).

A partir de Cerro Castillo são 92 km de rípio firme até o centro administrativo do Parque Nacional Torres del Paine (50 km de rípio até a entrada do parque). Neste trajeto já é possível se avistar, com nitidez, os maravilhosos picos do Cerro Paine e das Torres Paine. Simplesmente inesquecível. Fomos nos aproximando do parque e as montanhas iam ficando maiores e o Lago Sarmiento foi aparecendo, com um azul incrível. Muitas fotografias já foram tiradas a partir dali. Na entrada do parque (ingresso a US$ 30,00 por pessoa) há uma relação das hospedagens disponíveis com os respectivos preços. O guarda-parque contatou a mais barata através de rádio-comunicador e efetuou nossas reservas na Pousada Serrano (US$ 80,00 para 2 pessoas). Ingressamos no parque já tranqüilos com relação à hospedagem. Então fomos passeando, desviando dos guanacos, lebres e raposas que existem aos montes no loção. Paradas para fotografia foram várias. No parque você pode circular com a moto por vários quilômetros de estradas de rípio com uma aproximação muito boa das montanhas. O clima estava perfeito, tínhamos uma visão clara e completa das torres, dos mais diversos ângulos.

A Pousada Serrano, apesar do preço muito caro para nossos padrões, nada mais é que um quarto com um beliche, mais nada. Banheiro de uso comum entre os hóspedes. A pousada corta o fornecimento de energia elétrica às 11:30 hs e só retoma às 08:30 do dia seguinte. Por isso a vela deixada pronta para uso na mesa junto à cama. Esse é o preço que se paga por estar num dos locais mais exclusivos da América do Sul.

Passeamos muito pelo parque, fizemos caminhadas, visitamos o Lago Grey e seu glacial. Fizemos amizade com os funcionários da pousada e curtimos um happy-hour muito descontraído no final do dia seguinte. Estava hospedado na pousada um brasileiro, Nicolas, com sua KTM 950 Adventure. O André já tinha encontrado com ele em Pucón (Chile) e também em El Calafate. Conversamos um pouco e demos boas risadas com as histórias do Nicolas, uma figura muito divertida.

No dia da partida do parque ainda rodamos um bocado pelas estradas, procurando novos ângulos para registrar as torres e demais lagos. Despedimo-nos daquele paraíso certos de que éramos privilegiados de estarmos ali por alguns dias...

Regressamos os 92 km de rípio até Cerro Castillo e depois mais 14 km para chegar ao asfalto que nos levaria até Puerto Natales e depois a Punta Arenas, onde dormiríamos. O vento entre Puerto Natales e Punta Arenas estava fortíssimo, uma viagem bem desagradável com alto consumo de paciência e gasolina.

Em Punta Arenas procuramos informações sobre a balsa para atravessar o Estreito de Magalhães e nos levar até Porvenir, na Terra do Fogo. Ela parte as 09:00 hs da manhã e custa o equivalente a US$ 15,00 para a moto e piloto. Para o garupa custa US$ 9,00. É um percurso de 2 horas e meia em um mar muito mexido. O ferry-boat balança muito, o que nos fez ficar ao lado da moto o tempo todo, cuidando para que não caíssem. As mulheres foram para a cabine do barco e procuraram métodos para não vomitar. Eu e o André também sentimos forte vontade de devolver o café da manhã, mas resistimos bravamente, hehehe.

Um almoço em Porvenir e por volta das 13:30 hs partirmos para os 156 km de rípio que vão margeando a Bahia Inútil até San Sebastian, local de fronteira entre Chile e Argentina. É um rípio bom e firme, apesar da poeira e dos ventos. Conseguíamos rodar com boa velocidade por ali (80 a 100 km/h nas melhores retas).

Nas aduanas o serviço foi lento e alguém tinha que ficar cuidando as motos para que o vento não as derrubasse. Na aduana da Argentina há um posto de gasolina.

Chegamos no asfalto e seguimos para Rio Grande e logo depois Ushuaia, perfazendo neste dia, desde Punta Arenas até Ushuaia, 460 km, sendo 156 de rípio, em 13 horas de viagem total, incluído o percurso de ferry-boat. O trecho de rípio que existia entre Rio Grande e Ushuaia já não está mais lá, tudo asfaltado.

A chegada a Ushuaia, mesmo para quem vai pela segunda vez, é muito emocionante. Tiramos as fotos na entrada da cidade e fomos procurar, com muita dificuldade, hospedagem. Tudo lotado nas ruas principais da cidade. Fomos subindo o morro da cidade e nos afastando do centro até que encontramos onde dormir. Já eram quase 23:00 hs quando descarregamos a moto.

Ushuaia tem várias coisas pra se fazer. Ficamos parados ali por 4 noites. Visitamos o Parque Nacional Tierra del Fuego (fotos na famosa placa do final da Ruta 3). Passeamos de barco pelo Canal de Beagle para avistar aves, lobos marinhos e pingüins. Freqüentamos vários restaurantes, cafés e pubs da cidade. Ficamos embriagados uma noite. Enfim, foram dias para curtir a cidade e pensar no retorno, que seria em separado. Devido a datas diferentes que cada parte tinha que estar no Brasil, o retorno se deu assim: André e Ana Paula partiram no dia 19 de janeiro, pois tinham compromissos profissionais no Brasil a partir do dia 28. A Michelle viajou no dia 20 de janeiro de avião de volta a Florianópolis, chegando no dia 21 para começar a trabalhar no dia 22. Eu fiquei sozinho em Ushuaia, pois minhas férias iriam até depois do carnaval. Dessa forma, deixei a Michelle no aeroporto de Ushuaia, voltei para a pousada, preparei a moto e às 13:30 hs do dia 20 de janeiro de 2008 já partia com destino a Rio Gallegos.

De Ushuaia a Rio Gallegos viajei rápido. Foram 610 km, com 139 de rípio ruim, 4 aduanas para enfrentar e ainda a balsa da Bahia Azul – Primera Angostura. Isso tudo foi concluído em quase 8 horas de viagem. Cheguei em Rio Gallegos por volta de 21:00 hs.

Aquela noite fiquei pensando no meu caminho de retorno ao Brasil. Só que havia uma coisa que estava me deixando desconfortável: ao optar não pegar o trecho maior da Ruta 40, a cidade de El Chaltén tinha ficado para trás, e eu queria conhecer aquele local e ter a vista do Cerro Fitz-Roy. Assim, no dia seguinte, resolvi sair completamente da rota e rodar os 470 km (45 de rípio) até El Chaltén, apesar do já visível desgaste da motocicleta, em especial a corrente de transmissão e principalmente o pneu traseiro, já careca...

Para se chegar a El Chaltén é necessário seguir o mesmo caminho a El Calafate e entrar na Ruta 40 norte e depois Ruta 23 oeste. Desde La Esperanza não há postos de gasolina até El Chaltén, isto significa 350 km sem abastecimento. Em La Esperanza providenciei mais 8 litros de combustível para ter certeza que não iria ficar na estrada. O mesmo foi feito na volta.

Cheguei a El Chaltén em 7 horas de viagem e hospedei-me na primeira pousada que vi. Atrás dela estava o imponente Fitz-Roy. El Chaltén se autodenomina “capital nacional do trekking”. Eu acho que deveria se chamar “capital nacional do mochileiro”, dada a quantidade enorme de viajantes daquele estilo na cidade. Barracas se contavam às centenas ao redor da cidade.

Em Ushuaia eu havia comprado um livro (Crônicas de la Patagônia e Tierras del Sur – Desde el descubrimiento hasta la colonización) para os meus momentos de solidão. Após contratar a excursão que no dia seguinte me levaria até o Lago del Desierto (US$ 17,00), procurei um boteco razoável e viajei nas histórias do livro até não agüentar mais tomar cerveja – isso demorou um pouco, hehehe.

O Lago del Desierto é um passeio interessante a se fazer, se você não vai se aventuras nas dezenas de caminhos de trekking que a cidade oferece. São apenas 37 km até o lago, que, pensei por um momento, posso fazer de moto, mas decidi dar um descanso para os pneus da motoca e ir em uma van. Foi uma decisão acertada. A estrada é péssima. Para se ter uma idéia a van levou 2 horas para percorrer os tais 37 km, mesmo com o motorista bom de braço.

No Lago del Desierto é possível ter uma visão espetacular do Fitz-Roy.

Ao retornar para a cidade, voltei a minha leitura e as cervejinhas, já que fazia um sol muito forte, coisa incomum para aquela região, diziam os nativos.

Tendo conhecido El Chaltén e ficado por lá duas noites, e dadas as condições da moto, decidi que iniciaria no dia seguinte o caminho de volta ao Brasil, viajando o quanto desse durante o dia, tranquilamente. E assim foi, saí de Chaltén pela manhã e aproximadamente as 13:00 hs estava no trevo que leva para Rio Gallegos ou sobe para a Ruta 3. Parei ali a moto e, como já havia rodado 450 km, pensei por um momento em ficar em Rio Gallegos e começar o efetivo retorno pela Ruta 3 somente no dia seguinte. Porém, como o dia estava bom e com poucos ventos, liguei a moto e comecei imediatamente a percorrer a Ruta 3 em direção a Piedra Buena, onde faria meu primeiro abastecimento. Estava cheio de gasolina dentro dos bauletos, o que me dava autonomia suficiente para rodar os quase 340 km desde Esperanza até Piedra Buena sem abastecer.

Inacreditavelmente neste dia não havia ventos laterais ou contrários. Também não havia vento que me ajudasse, mas tudo bem. No MP3 um bom rock dava conta de animar a pilotagem (tava tocando, na maior parte do tempo, ZZ TOP, pra quem conhece – desculpe-me quem não gosta). Em Piedra Buena, enquanto aguardava a fila do posto de gasolina, empurrando a moto de metro em metro, aparece uma figura ímpar em uma moto custom de 200cc. Era o americano Don Burns e sua namorada costa-riquenha Gaby. O detalhe é que o Mr. Don tem 70 anos de idade enquanto a Gaby, 33. Ele viaja apenas com um sweter preto e calças jeans. Sem luvas e capacete aberto.No pescoço vai um colar de búzios. Na cabeça uma boina preta estilo Che. Ficou completamente eufórico quando eu disse que fala inglês e começou a contar toda a sua história. O cara mora em um barco no Panamá faz 25 anos. Seu barco-moradia é o FIONA, um veleiro construído em 1912 que leva o título de ser o barco mais velho ainda em atividade que deu duas voltas ao mundo. Ele tem um site na internet, visitem o www.tallshipfiona.com e confiram o astral do cara. Tem um link para sua viagem de moto. Feitas as despedidas e as promessas de praxe (“... um dia vou te visitar no Panamá e sairemos velejando...”) continuei minha viagem. Acabei rodando naquele dia, desde El Chaltén a Comodoro Rivadávia o total de 1.215 km, já que em Caleta Olívia não encontrei hospedagem. Aliás, está bem difícil de conseguir hospedagem naquelas cidades, Caleta Olívia e Comodoro Rivadávia, durante a alta temporada.

Meu pneu traseiro dava sinais de extremo desgaste. Não tinha o que fazer. No dia seguinte segui em frente e foram 890 Km até Viedma e no outro dia 645 até Azul (dica boa de hospedagem em Azul: Hotel Roma, no centro, com garagem para a moto por US$ 20,00).

Em 26 de janeiro de 2008 rodei os 970 km de Azul até Uruguaiana, passando pelo Uruguai (via Salto).

No dia 27 de janeiro completei os 1.115 km até Florianópolis, chegando em casa às 19:00 hs e reencontrar a Michelle.

A moto se comportou muito bem durante a viagem. Efetuei apenas uma troca de óleo em Ushuaia (no centro de lubrificação El Águila), já que uso óleo 100 sintético. O pneu Pirelli Scorpion MT90, que usei pela primeira vez, deixou um pouco a desejar pois rodados os 14.060 km desta viagem ele chegou com toda a lona aparecendo, creio que não agüentaria mais 100 km. O pneu dianteiro, como sempre, parece que está novo. A relação de transmissão (corrente Regina e coroa/pinhão Riffel) foi regulada 5 vezes e lubrificada todos os dias (Motul Chain Lube) e também sempre que chovia, mesmo assim chegou em estado de penúria. Estou começando a desconfiar deste lubrificante que, aliás, é um dos mais caros encontrados no mercado nacional.

O consumo da moto ficou dentro do esperado e não do desejado. Em boas estradas e rodando a uma média de 120 km/h como velocidade de cruzeiro, chegou a 13 ou 14 km/l. Nas estradas com ventos mais fortes da patagônia ficou em 9 a 10 km/l. O preço da gasolina, em janeiro de 2008, na Argentina, era o equivalente a R$ 1,50 sendo que na Patagônia, por conta de incentivos fiscais, o preço do litro fica em torno de R$ 0,90. No Chile o preço médio da gasolina girou em torno de R$ 2,70.

O custo da viagem ficou na casa dos US$ 140,00 diários, para eu e Michelle, incluindo tudo (hospedagem, alimentação, entradas de parques e passeios diversos, compras de lembranças, artesanato, etc...). Não está incluído neste custo o que foi gasto nos preparativos da moto no Brasil (revisão mecânica, troca de peças, pneus, relação de transmissão, etc...). Cabe salientar que os preços na Argentina tiveram, nos últimos anos, um aumento significativo. Hotéis e alimentação praticamente dobraram de preço. Isso tudo aliado a atual valorização do câmbio frente a nossa moeda, o Real, faz com que o custo diário, que nas demais viagens ficava em torno dos US$ 80,00 diários, agora atinja o valor mais elevado de US$ 140,00.

Foram rodados no total 14.060 km, sendo 1.763 de rípio, das mais variadas qualidades e condições.