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RELATO DE VIAGEM REALIZADA AO PARQUE NACIONAL TORRES DEL PAINE E CIDADE DE USHUAIA EM FEVEREIRO DE 2012, 11.032 KM, 23 DIAS, MOTO YAMAHA SUPER TENERE XT1200Z.

 
 

A Ushuaia de novo? Sim, Ushuaia de novo... Por quê? Por que é longe, emocionante, desafiador, encantador e sofrido em alguns momentos...

Decidimos ir pela terceira vez a Ushuaia. Decidimos ir pela segunda vez a Torres del Paine.
Torres del Paine é o lugar mais bonito que já visitamos. Desta vez iríamos passar 4 dias por lá. Ushuaia é o lugar mais distante que se pode ir ao sul na América, de moto. Desta vez iríamos passar 3 dias por lá.

Um mês antes da partida para esta nova viagem, surgiu a oportunidade da troca da moto. Foi difícil a despedida da companheira V-Strom que nos acompanhou por 5 grandes viagens. Mas era hora de passar o prazer de pilotar aquela V-Strom para outro.

Troquei por uma Yamaha Super Tenere XT1200Z, modelo 2012. Bela moto. Porte invocado. Performance excepcional na terra, confiabilidade da Yamaha (lembranças da TDM), odômetro zerado. Excelente conforto para a garupa. Tecnologia de bordo que alimenta o piloto com informações importantes como consumo atual, média de consumo, temperatura ambiente, etc. Controle de tração...e, CARDÃ! Nunca mais ter a preocupação com a manutenção da corrente, lubrificação, tensão. Errei na compra das malas originais da Yamaha. Pouca litragem, 32 litros nas laterais e 30 litros no traseiro (saudades do Givi E41). No bauleto traseiro não cabe nem o capacete. Mas OK, nos adaptamos à nova capacidade de carga, ajudada pelo uso de uma bolsa estanque de 30 litros presa em cima do bauleto traseiro.

O peso anunciado de 261 Kg desaparece na pilotagem e mesmo em manobras de estacionamento.
As rodas raiadas transmitem mais suavidade nos pisos irregulares e nas pilotagens off-road. A posição das pernas é mais confortável pois o joelho não fica tão dobrado como na V-Strom.
Como acessórios coloquei placa protetora de motor, protetor de motor, protetor de farol, os bauletos com as malas internas (até aqui acessórios Yamaha), expansão de apoio lateral e suporte para GPS no guidão (estes da Touratech). Depois desta viagem à Ushuaia eu coloquei o pára-brisa mais alto da Givi e também defletores laterais de vento, pois a proteção aerodinâmica original da moto não é suficiente para pessoas com mais de 1,80 metros, em minha opinião.
O consumo médio durante a viagem ficou em 16 km/l. Houve momentos em que chegou a 20 km/l e em contrapartida outros em que chegou a 10 km/l – contra o vento, na Patagônia, por exemplo.

DIA 01 – 27/01/2012 - Florianópolis a Pantano Grande RS – 605 Km
Na sexta-feira, após o final do expediente e quando as férias haviam oficialmente chegado, partimos com intenção de adiantar alguns quilômetros. Afinal, não íamos conseguir dormir bem naquela noite, na expectativa de partir somente no dia seguinte, manhã de sábado.

Dessa forma saímos de Florianópolis na hora do rush, enfrentamos muitos quilômetros de congestionamento, a ventoinha da moto ligava a todo momento. Avançamos lentamente até nos livrarmos dos piores trechos e quando chegamos à free-way no Rio Grande do Sul já acelerávamos bem. No horário de verão ainda pegamos o sol brilhando direto em nossos rostos ali naquela rodovia do RS. Muitos argentinos seguiam no sentido contrário, na tentativa desesperada de alcançar alguma praia gaúcha ou mesmo no litoral catarinense.

Chegamos a Pantano Grande e tivemos dificuldade de hospedagem. Tudo ocupado por argentinos em escala por ali. Acabamos dormindo num hotel muito ruim, Hotel Cidade Nova, por R$ 70,00. A janta foi no restaurante do posto de gasolina. Estávamos exaustos porém felizes demais por termos, em nossa frente, 23 dias para simplesmente andar de moto, curtir as paisagens, ter paciência nos dias difíceis, conversar, comer, beber, seguir viagem. Como sempre, os telefones celulares ficaram em casa, desligados. Até hoje nunca levamos celulares em nossas viagens.

DIA 2 – 28/01/2012 – Pantano Grande – Colon AR – 749 Km
Partimos cedo de Pantano Grande e seguimos a Santana do Livramento, entramos no Uruguay e fomos almoçar em Tacuarembó. A estrada entre Tacuarembó e Paysandu estava em péssimas condições. Nosso destino era Colon, primeira cidade da Argentina após a fronteira. Ao nos aproximarmos da aduana havia uma fila de mais de 3 Kms para realizar os trâmites. Eram automóveis de argentinos em quase sua totalidade. Momento de pensar no que fazer. Esperar seria péssimo pois o sol a pino nos queimava dentro das roupas. Por mais de meia hora eu e Michelle conversamos a respeito e pensamos inclusive em voltar a Paysandu para passar a noite por lá e voltar à aduana no dia seguinte. Porém resolvi arriscar. Coloquei a moto no acostamento e fui passando. Se algum motorista reclamasse, eu voltaria, essa foi a regra que determinei. Mas fui passando, passando, ninguém reclamou, cheguei a 3 carros da aduana e parei por ali. Aguardei alguns minutos ainda de capacete e não houve protestos. Coloquei a moto no descanso e aguardei minha vez... Não sei o que houve, se foi o fato de estarmos de moto, mas acabamos fazendo os trâmites muito rápido e brevemente chegamos a Colon, onde no centro de turismo nos indicaram a Hosteria de David (P$ 320,00 – US$ 74,00). Boa localização, quarto limpo, dono simpático, moto na calçada. Saímos de trajes de banho e mergulhamos no Rio Uruguay. Nós e milhares de argentinos. Banho de rio, muito bom e refrescante. Jantar no Resto Pub Brown 38 – boa cerveja.

DIA 3 – 29/01/2012 – Colon AR a Azul AR – 611 Km
Este trecho é um pouco chato pois tem muito movimento de caminhões, as estradas apresentam imperfeições e sempre faz muito calor. E tem a possibilidade de sermos parados por policiais que pedem alguma grana. Respeitamos todas as regras de trânsito e novamente passamos ilesos. Plantações de girassóis quebram um pouco a monotonia do trecho. Já entramos na Ruta 3 que nos levaria até o extremo sul. Em Azul ficamos no já conhecido Hotel Roma (P$ 200,00 – US$ 46,00).

DIA 4 – 30/01/2012 – Azul AR a Viedma AR – 690 Km
Seguimos pela Ruta 3 e em Tres Arroyos os ventos vieram nos saudar. O vento era forte e lateral, mas nada comparado ao que já sabíamos que iríamos enfrentar lá embaixo. Tudo tranqüilo, é isso aí mesmo, a questão dos ventos já foi objeto de várias linhas neste site e no nosso livro de 2005 (lá se passaram 7 anos desde o lançamento do livro!). Calor e uma pequena chuva faziam parte do clima do dia. O entroncamento de Bahia Blanca sempre é muito ruim. Uma bagunça típica de cidade portuária. Almoço no posto Petrobrás e seguimos até Carmen de Patagones onde tentamos hospedagem mas não deu. Poucas e péssimas opções. Passamos a ponte e nos hospedamos em Viedma no Hotel Peumayen (P$ 330,00 – US$ 76,00).

DIA 5 – 31/01/2012 – Viedma AR a Trelew AR – 470 km
De Viedma seguimos para Trelew, passando por San Antonio Oeste, onde, no entroncamento da
Ruta 3 e Ruta 251, nos postos de gasolina, havia falta de combustível. Uma longa fila de formava no YPF e o Shell estava lacrado, aguardando pelo líquido precioso, com previsão de chegada para mais 2 horas. Porém sabíamos que aproximadamente 30 Km seguindo pela Ruta 3 havia um posto genérico e resolvemos arriscar. Foi bom, pois o posto estava vazio de clientes porém cheio de nafta.
Neste trecho o vento começa a aumentar e o pescoço já reclama. Este intervalo da Ruta 3 até Viedma há também posto de gasolina em Sierra Grande, o que dá tranqüilidade ao viajante.
Antes de chegar a Trelew entramos em Puerto Madryn e almoçamos na avenida da praia, com um sol maravilhoso e o Oceano Atlântico calmo, azul e cristalino. Seguimos viagem e resolvemos tentar um pernoite em Rawson, porém gastamos quilometragem à toa pois consideramos que não há nada para se fazer em Rawson e apesar de muita insistência de nossa parte não encontramos hospedagem. Retornamos os 25 km para Trelew e ficamos em uma espelunca chamada Hotel City (P$ 250,00 – US$ 58,00). O ideal seria seguir viagem ao sul de Trelew mas o que se tem pela frente é um grande vazio. Só vale a pena passar de Trelew se for possível ainda chegar a Comodoro Rivadávia, mas aí seria muito chão pela frente, sem atrativos e com vento forte. O roteiro sempre dá uma quebrada em Trelew, se estamos indo ao sul pela Ruta 3. Pelo menos tomamos umas cervejas no Boru Irish Pub.

DIA 6 – 01/02/2012 – Trelew AR a Puerto San Julian Ar – 810 Km
Sem saudades de Trelew partimos pela Ruta 3 e o vento nos bateu durante todo o dia. Muito cansativo e chato. Moto inclinada, pescoço doendo. O pneu começa a mostrar desgaste de apenas um lado. Postos de gasolina existem em Uzcudum e próximo a Garyalde.

Passamos rápido por Comodoro Rivadávia, abastecemos, o mesmo fizemos em Caleta Olívia. O vento impedia de pararmos para fotos. Em Fitz Roy o posto de gasolina abre dependendo da vontade da senhora que atende na lanchonete. De uma hora pra outra ela pode simplesmente decidir fechar. Por sorte chegamos a tempo de sermos o último cliente das 15:00hs... depois de nos atender simplesmente fechou e não deixou aviso de reabertura. Vimos carros parados ali, sem ter o que fazer. Sorte nossa, aceleramos novamente na Ruta 3 até Puerto San Julian.

Boas lembranças de Puerto San Julian, de nossa primeira passagem por ali juntos, em dezembro de 2003. Hospedamo-nos na Posada Drake (P$ 310,00 – US$ 72,00). Uma ótima janta no restaurante Naos, depois da visita à réplica da nau Victoria, uma das embarcações de Fernando de Magalhães, que ficou ancorada ali por vários meses no século XVI, na maravilhosa viagem do navegador.

DIA 7 – 02/02/2012 – Puerto San Julian AR a Parque Nacional Torres del Paine CH – 690 Km
Partimos muito animados com a possibilidade de, naquela noite, já estarmos no Chile, dentro do Parque Nacional Torres del Paine. Descemos a Ruta 3 bem rápido pois milagrosamente não pegamos vento até o trevo de Rio Gallegos. Abastecemos em Comandante Luis Piedra Buena e apreciamos o visual da cidade (uma pena nunca termos parado para dormir por ali).
Ao dobrarmos à direita no trevo de Rio Gallegos, passamos a sentir o vento contra bem de frente. Não estava muito forte mas já era o suficiente para me certificar que o pára-brisa original da Tenere precisa ser trocado urgentemente pois não oferece proteção adequada para mim (1,86 cm). Deveria ter verificado isso no Brasil, antes da partida, mas não o fiz.

Paramos no posto em Esperanza. Já paramos naquele posto diversas outras vezes e sempre tem algo acontecendo ali. Dessa vez era um caminhão alemão, gigante, com adesivos que avisavam que estavam em uma volta ao mundo. O site dos caras é kamuka.com. Tinhas também um americano e a namorada que estavam viajando por toda a América do Sul de carona. Um bom papo com aquele gringo e seguimos viagem pela Ruta 7 e depois pela Ruta 40 em direção ao Paso Rio Don Guillermo, em Cancha Carrera. Na saída da Ruta 40 já começa o rípio, que estava um pouco solto e, com o vento que soprava, fomos com cuidado. Na aduana argentina, enquanto eu fazia o trabalho da papelada junto aos gendarmes, a Michelle ficou lá fora segurando a moto pra não ser levada pelo vento. Um pouco mais de rípio e chegamos a Cerro Castillo, na aduana chilena. Feitos os trâmites, fomos matar a fome no restaurante El Ovejero. Moto parada estrategicamente para não cair com o vento, ficamos aproximadamente 01 hora por ali comendo sossegados. Tinha que abastecer pois para chegar ao Parque ainda havia uns 120 Km de rípio. Não há abastecimento em posto de gasolina em Cerro Castillo. O que se deve fazer é perguntar pela Sra. Maritza Prieto, que vende gasolina no seu quintal, umas 4 quadras distante do El Ovejero. A gasolina sai de tonéis e escorrega para o tanque via funil adaptado, e com ágio de aproximadamente 20% em relação ao preço do posto. Tudo bem, o importante é sentir o tanque cheio.

Começamos o trecho de rípio em direção ao Parque Nacional Torres del Paine pelo rípio, às vezes solto, às vezes bem firme, porém sempre com vento lateral (isso é questão de sorte, da outra vez que estivemos naquela estrada não pegamos qualquer vento). Aqui fica uma dica para rodar bem no rípio (além de tantas outras): baixar a pressão dos pneus. No nosso caso baixei o dianteiro para aproximadamente 25 libras e o traseiro para 27. Isso é fundamental pois acaba completamente com a trepidação exagerada da moto, o agarre aumenta bem como a segurança na pilotagem e também protege o pneu. Dessa forma foi um grande passeio de moto andar naquele rípio e já avistando as Torres. Chegamos à portaria do parque e pagamos a entrada (PCH 15.000 cada – UD$ 30,00). Ali me informaram que a pousada que tínhamos reservado ficava na outra ponta do parque, ao sul, o que nos surpreendeu pois isso significava andar mais 50 Km de rípio naquela hora, depois de tantos Kms. Mas tudo bem, dessa forma já íamos cortar todo o parque e apreciar toda a sua beleza já na chegada. Fui filmando todo o trecho na GoPro em cima do capacete. Para quem vai a Torres del Paine deixamos 2 dicas: 01) se for na alta temporada é bom reservar a hospedagem com antecedência. 02) verificar a localização da pousada reservada e escolher melhor a entrada, pois no nosso caso podíamos ter poupado 50 Km de rípio.

Ficamos hospedados na Hosteria Tyndall (US$ 196,00 – isso mesmo...). Torres del Paine é caro. Aqui vai uma terceira dica: comprem o que for possível de comida antes de entrar no parque pois lá dentro você fica dependente dos hotéis que dispõem de restaurantes. Tudo lá dentro é mais caro que o normal.

DIA 8 – 03/02/2012 – Torres del Paine CH
Neste dia fomos de moto até a Hosteria Grey e de lá embarcamos para um passeio no Lago Grey e Glaciar Grey. Uma maravilha, programa obrigatório pra quem visita o parque. Custa PCH 40.000 por pessoa (US$ 80,00). Leva três horas e é muito legal. O resto do dia passamos na varanda do nosso quarto na hosteria, lendo.

DIA 9 – 04/02/2012 – Torres del Paine CH
Manhã fria e cinzenta. Compramos gasolina na casa do Sr. Astorga (300 metros da Hosteria Tyndall) e voltamos para o interior do parque. Fomos até a Hosteria las Torres e caminhamos um pouco dentro do circuito W. Fizemos 120 Km de rípio que foi pura diversão.

DIA 10 – 05/02/2012 – Torres del Paine CH
Chovendo muito, tempo fechado, sem visibilidade das torres ou dos cornos. Dia para descanso, leitura, bebida, comida... Resolvemos não jantar na hosteria aquela noite e fomos ao restaurante Colonos del Sur (200 metros da Hosteria Tyndall). Únicos clientes, fomos atendidos perfeitamente pelo cozinheiro Nicolás. Cordeiro, vinho, cerveja, conversa.

DIA 11 – 06/02/2012 – Torres del Paine CH a Cerro Sombrero CH – 450 Km
Acordei aquela manhã com a sensação de que faltava uma foto, aquela foto... revisei a máquina fotográfica e não encontrei uma foto que fosse memorável, apesar das dezenas que tínhamos tirados dentro do parque. Minha insistência com a Michelle a convenceu de entrarmos novamente no parque, 30 km adentro, de rípio novamente. Um percurso que já havíamos feito umas 3 vezes nos dias anteriores.

Como era data de nossa saída de Torres del Paine, ingressamos no parque já com todo o equipamento preparado, bauletos cheios, etc. Chegamos a um local onde consideramos bom para sacar algumas fotos. Ao pararmos a moto e principalmente ao posicioná-la corretamente, percebemos, ao virarmos no sentido contrário ao que vínhamos rodando, que o vento era forte. Com muita dificuldade conseguimos algumas fotos, nenhuma boa, pois o vento impedia a montagem do tripé, por exemplo. Falei pra Michelle para irmos voltando em direção à saída do parque e no caminho irmos escolhendo bons lugares para fotografia.

Ingressamos novamente na estradinha do parque, rípio solto. Uns 150 metros adiante tinha uma leve subida e uma curva à esquerda. Tudo bem, tudo sob controle, até a Michelle sentir um pouco mais de medo e me assustar agarrando minha barriga. Aí foi o grande erro daquele dia que nos custou muito. Com o susto, acabei parando a moto em plena curva, em subida, e o vento soprava forte, como nunca havia experimentado antes. Ficamos os dois em cima da moto parada, bem inclinada para a esquerda. Eu segurava a moto com todas as minhas forças e a direcionava para o  chão para fazer frente contra o vento. Ficamos naquela situação por aproximadamente 3 minutos. Não conseguíamos nos mover, estava impossível movimentar a moto e íamos perdendo as forças. A Michelle me perguntou, pelo intercomunicador, se ela deveria descer da moto. Respondi que não, ia ser pior, pois com o corpo dela mais exposto a força do vendo nos derrubaria. Nem consegui acabar de dizer estas palavras e veio uma rajada fulminante e surpreendente de vento. Num piscar de olhos estávamos no chão. A Tenere deitou no rípio, apagou o motor e ficou ali. Eu e Michelle brigávamos com o vento para ficarmos de pé. Não era fácil. Não tínhamos o que fazer. Jamais conseguiríamos levantar a moto com todo o equipamento e ainda contra o vento. Esperamos chegar alguém. Parou um carro com turistas alemães, média de idade da turma era 60 anos. Ofereceram-se para ajudar. O vento quase levava embora o mais magrinho. Levantamos a moto e, no meio daquele barulho todo da ventania conseguimos combinar para onde levar a moto, uns 15 metros adiante. O esforço daqueles senhores foi monumental. Pela posição da moto e pela inclinação que tínhamos que manter, meu pé foi atropelado pela roda traseira várias vezes. Paramos a moto em um local onde o vento a pegava no lado direito, dessa forma, acreditava eu, o descanso lateral tomaria conta dela. Ledo engano, mesmo com o descanso lateral eu tinha que ficar fazendo a escora caso contrário ela tombaria por cima do descanso. Despedimo-nos dos senhores com um breve aceno (não poderíamos nos abraçar ou cumprimentar senão a moto iria ao chão novamente). Eu fiquei no lado esquerdo da moto, fazendo força e com os pés enfiados no rípio como estacas. A Michelle se agarrou no protetor de motor do lado direito e ficou praticamente pendurada nela, fazendo força contrária ao vento. Voavam pedrinhas que batiam no capacete e deixavam a atmosfera bastante desanimadora. Não imaginávamos como sair dali. Cronometrado no relógio, ficamos juntos ali por 55 minutos, apenas segurando a moto. Combinei com a Michelle que ela pegaria uma carona até o camping Pehoe e me esperaria por lá. Eu sabia que o que tinha que fazer era ter uma oportunidade de montar na moto e dar a primeira acelerada, depois disso tudo estaria bem. Só que para montar na moto estava muito difícil, impossível eu diria, sem cair novamente. Também cronometrado no relógio fiquei ali sozinho, fazendo uma força danada, por mais 01 hora. Que situação ridícula. O problema todo foi causado pela parada. Jamais podia ter parado a moto. No rípio, com vento, tente nunca parar completamente a sua moto. O dia começou a complicar pois nosso plano era chegar a Cerro Sombrero ainda naquela tarde. Tínhamos perdido mais de 2 horas por causa daquela situação. Já era quase 1 hora da tarde. Decidi que ia ligar a moto e aguardar pacientemente uma leve baixa na força do vento. Comecei a cronometrar quanto tempo cada desacelerada do vento durava. 05 segundos, no máximo. Decidi que seria na próxima. Respirei fundo, subi na moto, engatei a primeira e acelerei forte. A roda dianteira foi carregando todo o rípio que encontrava pela frente (como deve ser) e em poucos segundos consegui voltar à estrada, entrar no trilho e, mesmo com o vento ainda soprando forte, senti que estava livre. Acelerei bem e aproveitei que a Michelle não estava na garupa e fiz um rally de aproximadamente 15 km até o camping Pehoe, onde a encontrei. Ela estava um pouco nervosa com minha demora mas, enfim, tudo bem. Vamos seguir para Cerro Sombrero! Um detalhe interessante: conversando com os carabineros soubemos que aquela curva onde tudo aconteceu se chama “curva muerta”. Conversamos também com o responsável pelo Camping Pehoe (campingpehoe.com) e decidimos que a próxima visita a TDP será com camping, pois o custo é muito baixo se comparado aos hotéis e a estrutura é muito boa. O camping fornece a barraca, sacos de dormir, colchão isolante, etc.

Saímos de Torres del Paine pela saída sul e seguimos aproximadamente 90 Km de rípio (bem firme) até Puerto Natales. Tempo fechado, cinzento, frio, em Puerto Natales apenas abastecemos a moto, tomamos uma coca-cola e zarpamos para a balsa de Punta Delgada. Nossa idéia inicial era via Punta Arenas – Porvenir, porém naquele dia não havia balsa desse trajeto em horário que nos cabia (vejam os horários das balsas em www.tabsa.cl). Ali em Punta Delgada a balsa é bate e volta. Tem a todo momento. Fizemos de Puerto Natales até dentro da balsa em uma pegada única, sem parar, sem botar o pé no chão, com ventos muito fortes nos açoitando pela lateral direita, 310 Km. Dentro da balsa já tínhamos esquecido os acontecimentos do dia e só pensávamos em chegar à pousada em Cerro Sombrero e comer alguma coisa, pois o almoço não havia acontecido. Da balsa até Cerro Sombrero são aproximadamente 50 Km pavimentados. Hospedamo-nos no Hotel Tunkelen (US$ 99,00) e comemos no restaurante do hotel, um excelente PF a custo muito bom (US$ 10,00).

DIA 12 – 07/02/2012 – Cerro Sombrero CH a Ushuaia AR – 430 Km
Café da manhã no hotel, dia limpo, dia de chegar a Ushuaia, coisa maravilhosa. Partimos em direção a Onaisin e dali para San Sebastian. São aqueles mesmos 130 Km de rípio já conhecidos. Não apresentam perigo, é só seguir com cuidado e não querer dar uma de piloto de provas. Algumas obras de pavimentação estão acontecendo ali e então há alguns desvios que são piores que a estrada. Quem quer ainda curtir o rípio da Terra do Fogo deve se apressar pois penso que em poucos anos haverá asfaltamento completo, pelo menos naquele caminho, pois há vários dentro da Terra do Fogo para se chegar a San Sebastian, que é passagem obrigatória pois ali ficam as aduanas, tanto a argentina como a chilena. Paramos para almoço e abastecimento em Rio Grande, seguimos um pouco mais, passamos pelo Lago Escondido e Lago Fagnano, subimos o Paso Garibaldi, avistamos o Monte Olívia e ao descermos já estávamos no portal de Ushuaia, que foi palco de várias fotos e de comemoração. Foi a terceira vez que chegamos a Ushuaia e a emoção foi a mesma, muito grande, forte, maravilhosa. Entramos na cidade, cruzamos todo o centro, lembramos dos restaurantes, bares, lojas, e fomos para o Aires del Beagle Apart Hotel (US$ 125,00) onde ficamos por 3 noites. Para comemorar, naquela primeira noite em Ushuaia, comemos cordeiro fueguino no restaurante Mostachio (P$ 75,00 – US$ 17,00).

DIA 13 – 08/02/2012 – Ushuaia AR
Naquela manhã seguimos para o Parque Nacional Terra del Fuego e para a Bahia Lapataia. Compramos uma refeição para um pic-nic (no Supermercado Anonima compramos pedaços de frango assado e uma salada). O parque é realmente muito bonito e a estrada de rípio que corre por dentro dele é pura diversão, muito firme, tranqüilo para qualquer tipo de moto. O trajeto desde a entrada do parque até a placa famosa da Bahia Lapataia eu filmei com a GoPro no capacete. Fotos, filmagens na placa, conversa com turistas do mundo inteiro, curiosos para saber sobre a moto, sobre nós, etc. Isso foi o que fizemos nas horas que ficamos ali junto a placa. Seguimos no caminho de volta e paramos para o nosso pic-nic na margem de um dos riachos que correm por ali, junto ao Camping Lago Roca. Momento inesquecível.
O retorno ao centro de Ushuaia foi no final da tarde. Aproveitamos o fato de estarmos em um apart hotel e compramos variedades de frios e 2 garrafas de vinho. Comemos no apart e fomos dormir, satisfeitos por um dia sensacional.

DIA 14 – 09/02/2012 – Ushuaia AR
Fomos ao Glaciar El Martial de moto. É bonito, barato, vale a pena.
Almoçamos no apart hotel, uma deliciosa macarronada preparada pela Michelle e seguida por um sono profundo.
No jantar fomos comer a famosa centolla – o grande caranguejo (restaurante Tia Elvira). Naquele dia estávamos comemorando 11 anos de namoro.

DIA 15 – 10/02/2012 – Ushuaia AR a Le Marchand AR – 740 Km
Nos despedimos de Ushuaia com muito frio cedo pela manhã e fizemos todo o percurso de retorno até Rio Gallegos. Ali a Michelle decidiu que íamos andar um pouco mais e dormir em Le Marchand. Esse é o nome do parador, não sei ao certo o nome daquela localidade, mas fica a aproximadamente 120 Km de Rio Gallegos, na margem da Ruta 3. Foi um dia cansativo pois teve rípio, 2 aduanas, balsa, asfalto e vento. Parecia que nunca íamos chegar a Le Marchand. É bom ficar ali para o pernoite. É simples, tem comida, está fora da cidade, enfim, é um bom ponto de parada (P$ 280,00 – US$ 65,00).

DIA 16 – 11/02/2012 – Le Marchand AR a Comodoro Rivadávia AR – 620 Km
Subimos a Ruta 3 enfrentando um leve vento. Abastecimento em Piedra Buena e Puerto San Julian, em Fitz Roy desta vez fomos os sorteados com o posto fechado. Comida e gasolina em Caleta Olívia e enfim Comodoro Rivadávia, uma das cidades mais antipáticas (e caras) que conhecemos. Hospedagem no Comodoro Hotel por falta de outra opção (P$ 450,00 – US$ 104,00).

DIA 17 – 12/02/2012 – Comodoro Rivadávia AR a Puerto Piramides AR – 560 Km
Frio em Comodoro, vontade de cair na estrada. Tanque quase vazio. Sempre abasteço logo na chegada a uma nova cidade, para que na manhã seguinte possa partir sem ter que procurar posto de gasolina. Mas naquela noite anterior não fiz isso. O resultado foi que percorremos quase todos os postos de Comodoro e não encontramos gasolina. A informação dos frentistas era que, em se tratando de um domingo, nenhum posto receberia abastecimento. Rodamos até fora da cidade, cerca de 10 Km, e todos os postos estavam fechados com fitas, cones, etc. Retornamos a Comodoro desolados, inconformados com a possibilidade de ter que ficar mais um dia por ali. Logo em Comodoro Rivadávia. Bom, em último caso iria parar um argentino e oferecer uma boa grana pra ele tirar gasolina do tanque e vender pra mim. Mas resolvi seguir em sentido contrário, direção sul, e acabei encontrando gasolina no posto Petrobras quase na saída para Caleta Olívia. Fica a dica, vá dormir com a moto abastecida.
Saímos aliviados de Comodoro e pegamos a Ruta 3. Fomos sem vento até a entrada da Península Valdez. Na verdade o vento estava forte mas nos pegava pela lateral e por trás, dessa forma não o sentíamos. Em Garyalde, no posto de gasolina, encontramos um grupo de motociclistas brasileiros de Mias Gerais. Alguns conheciam o nosso livro e o site. Eram mais ou menos uns 10, alguns casais, algumas V-Strom, BMW GS, Yamaha Tenere. Seguiam ao sul. Trocamos algumas idéias sobre o roteiro e nos despedimos. Quando viramos à direita para ingressar na Península, percebemos que a coisa estava difícil. O vento era muito forte, jogava a moto para fora da estrada com facilidade. Pilotagem fazendo muita força, guidão torcido, moto inclinada, capacete querendo saltar de nossas cabeças. Assim fomos avançando dentro da Península, pois nosso objetivo era dormir em Puerto Piramides e não era um vento que iria nos fazer desistir (apesar do conselho do centro de turismo para que fôssemos embora já que acreditavam que, por se tratar de semana de carnaval, tudo estava lotado. Bom, não demos atenção ao conselho e chegamos a Puerto Piramides. Em 20 minutos estávamos instalados na Hospedaje Puerto Palos (P$ 430,00 – US$ 100,00), cerca de 50 metros do mar, logo na primeira rua à direita chegando em Puerto Piramides. Maravilha. Estamos bem.
Em Puerto Piramides descobrimos um restaurante chamado La Estacion Bar. Tem uma decoração de rock alternativo anos 80 (pôsteres de Joy Division, Bauhaus, This Mortal Coil !!!) e comida boa e barata. Vale a pena conhecer.
Nosso plano era ficar mais um dia em Puerto Piramides e fazer o circuito de rípio para conhecer a costa, a colônia de pingüins e lobos marinhos. Porém o vento era muito forte, concluímos que não valeria a pena andar naquele rípio solto com vento forte. Masoquismo não. Na manhã seguinte partiríamos, decidimos.

DIA 18 – 13/02/2012 – Puerto Piramides AR a Rio Colorado AR – 573 Km
Retornamos à Ruta 3 na mesma condição de vento. O que mudou foi o lado para o qual a moto tinha que ficar inclinada e qual o conjunto de músculos do pescoço doía mais.
Em San Antonio del Este abastecemos e resolvemos tomar a Ruta 251 em direção norte. Aqueles retões já conhecidos, muito calor. Encontramos naquele trecho uma dupla de motociclistas brasileiros de Brasília, Gustavo (BMW GS) e Fabrício (TDM 900). Ambos estavam retornando também de uma boa viagem, Ruta 40, Ushuaia, etc. Chegamos a bater um bom papo em Rio Colorado. Seguiram viagem, nós ficamos ali.
Em Rio Colorado nos hospedamos no Hotel Grand Sasso (P$ 300,00 – US$ 69,00). Rio Colorado é uma cidade agradável. Tem um simpático centro comercial, limpo, pitoresco. Restaurantes, bares. Bom ponto de parada, apesar do calor sufocante naquela época do ano.

DIA 19 – 14/02/2012 – Rio Colorado AR a Colonia del Sacramento UR – 898 Km
Tomamos a decisão de sair da Argentina naquele dia. Para isso teríamos que rodar bastante na província de Buenos Aires, o que significa estradas mais movimentadas, trechos mais lentos. Mas fomos bem. Passamos por Bahia Blanca, Tres Arroyos, Azul, entramos em Buenos Aires na hora do rush pelas autopistas e chegamos às 19:00 hs no local de embarque do Buquebus, o barco que nos levaria até Colonia del Sacramento, com saída prevista para as 20:00hs. O custo deste transporte é desanimador (custo para moto com dois passageiros = P$ 954,00 – US$ 221,00). Muito cansados, fizemos todos os trâmites de saída da Argentina e descansamos durante a 1 hora de viagem entre Buenos Aires e Colonia del Sacramento. Desembarcamos no Uruguay as 22:00hs (Uruguay está 01 hora a mais em relação à Argentina). Procuramos por hospedagem e acabamos parando no Hotel Romi (US$ 85,00). Ainda tivemos força para sair caminhando pelas ruas de Colonia e descobrimos uma cidade belíssima, limpa, histórica, com bares e restaurantes lotados, boa comida, bebida, gente simpática. Colonia del Sacramento vale a pena ser visitada.

DIA 20 – 15/02/2012 – Colonia del Sacramento UR a Punta del Este UR – 310 Km
Nosso destino, Punta del Este, ficava a apenas 310 Km. Então dormimos um pouco mais e saímos de Colonia no meio da manhã. As rodovias uruguaias naquela região são no geral boas. Nas proximidades de Montevideo cometi novamente o erro de duvidar do GPS. Acabamos entrando no subúrbio de Montevideo e para sair de lá circulamos por várias ruelas com tráfego intenso e um calor infernal. Retornando a rodovia, rápido chegamos a Punta del Este e paramos no Hotel Playa Brava (US$ 125,00). Punta del Este no verão é lotada, gente de várias partes, comércio. As praias valem a pena. Durante a noite, um boteco para refrescar.

DIA 21 – 16/02/2012 – Punta del Este UR
Ficamos em Punta del Este passeando de moto, visitamos novamente a Casa Pueblo na hora do pôr do sol, um evento imperdível.
Praia, mergulho, almoço de um bom churrasco uruguaio. Quase final de festa.

DIA 22 – 17/02/2012 Punta del Este UR a Osório RS – 826 Km
Partimos para o Brasil e em pouco tempo estávamos em Chui, sem novidades. Por sugestão de um casal de motociclistas de Florianópolis que encontramos a poucos Kms de Chui, decidimos trocar nosso roteiro, que era por Pelotas e Porto Alegre, e seguir por Rio Grande e Osório. Fizemos esse trecho mas concluímos que não vale a pena. Em Rio Grande se pega uma balsa em direção a São José do Norte, caindo aos pedaços e que demora demais. Depois, a estrada não tem nenhum atrativo e próximo a Mostardas fica plena de buracos, alguns muito perigosos, típica estrada brasileira. É a Estrado do Inferno, como era chamada antes de asfaltar. O asfalto não tirou seu apelido. Osório é uma tristeza. Oferece nada para um turista de passagem. Um taxista da cidade nos disse que realmente ali não é lugar para parar. O hotel que ficamos, Big Hotel (R$ 130,00) é uma lástima.

DIA 23 – 18/02/2012 – Osório RS a Florianópolis SC – 377 Km

O último dia de viagem foi o pior de todos. Sábado de carnaval, a estrada até Florianópolis parecia um único congestionamento. Calor. A chegada em casa foi comemorada com um banho de mangueira no quintal de casa. Entramos todos na água, eu, Michelle e a moto.