Patagônia Moto Camping
 

RELATO DE VIAGEM SOLO REALIZADA À PATAGÔNIA EM JANEIRO DE 2015, 12.174 KM, 20 DIAS, MOTO YAMAHA SUPER TENERE XT1200Z. DESTAQUE PARA USHUAIA, TORRES DEL PAINE, RUTA 40 E CANION DO RIO ATUEL.

 
 

A viagem realizada em janeiro de 2015 com destino à Patagônia (chilena e argentina) teve como objetivo principal o uso de camping como meio de hospedagem. A idéia era sair da tradicional receita de hotéis/pousadas e procurar acampar sempre que possível.

Esta foi a quarta vez que fui a Ushuaia de moto, a terceira a Torres del Paine, etc. Dessa forma o tempero diferente foi o camping.

O objetivo foi alcançado pois acampei na maior parte da viagem. Armei acampamento em San Miguel del Monte, Rio Colorado, Puerto Madryn, Cmdte Luis Piedrabuena, Ushuaia, Torres del Paine, El Calafate, Bajo Caracoles, Chos Malal e no Cânion do Rio Atuel.

O equipamento básico de camping foi composto de:

- barraca Azteq Nepal 2 (aguenta muita chuva - coluna d água de 6.000 mm - e ventos fortes)

- isolante térmico Nautika

- colchonete auto-inflável Quechua A200

- Saco de dormir Trilhas e Rumos Super Pluma Gelo – temperatura de conforto 0º e extremo -15º

- banqueta Nautika

- Lampião Quechua a pilha

- fogareiro Nautika Júpiter

- cartuchos de gás butano/propano Tekgas Nautika

- suporte para o cartucho de gás e corta vento metálico Oneroad (Deal Extreme)

- jogo de panelas/frigideira super compacto 6 peças (Deal Extreme)

- caneca inox

- kit talheres/abridor/saca-rolha

- lanterna de cabeça (indispensável) e lanterna de mão

- toalha de secagem rápida Quechua

- estojo para 2 ovos

- travesseiros infláveis Nautika

- material de limpeza para a louça (detergente, esponja e panos de prato)

 
Equipamentos de camping
 

Com relação à motocicleta, utilizei a mesma SUPER TENERE das últimas três viagens. Usei um pneu off-road na dianteira (Continental TKC80) e um de uso misto na traseira (Mitas E-07), o que se mostrou um conjunto muito bom.

 
Moto pronta para a Patagônia
 

Pneu Continental TKC80 Pneu Mitas E-07

Quanto ao GPS, os mapas gratuitos do Proyecto Mapear para Paraguay, Chile, Argentina e Uruguay não decepcionaram e me deram todas as informações necessárias (www.proyectomapear.com.ar). Obs: apesar de contar com o GPS, sempre levo mapas impressos dos locais por onde viajarei.

A comunicação com o Brasil foi feita exclusivamente através da internet, via Wi-fi. Não levei rastreadores ou telefone celular habilitado. Quase que diariamente foi possível atualizar informações através da página Rauen Moto Viagem no Facebook. Ligações "telefônicas" foram realizadas pelo Skype sem problemas, o necessário para tranquilizar a família no Brasil.

Com relação aos documentos, considerando os países a serem visitados (Uruguai, Argentina e Chile), levei:

- passaporte

- documento de propriedade da motocicleta

- seguro Carta-Verde MERCOSUL

- seguro SOAPEX para o Chile (emita facilmente este seguro em www.magallanes.cl).

Os seguros mencionados não são normalmente requeridos nas fronteiras, mas podem ser solicitados pela polícia nas estradas; não deixe de contratá-los. Vale mencionar que nesta viagem percorri os mais de 12.000 km e não fui parado pela polícia sequer uma vez. Em nenhum momento foram solicitados os seguros, inclusive nos 14 trâmites aduaneiros que tive que cumprir.

Abaixo segue relato dia a dia.

1º DIA – 31/12/2014 – Florianópolis SC – Pantano Grande RS – 605 Km

Após o almoço do último dia do ano resolvi adiantar o trecho inicial e fui de Florianópolis até Pantano Grande, próximo a Porto Alegre.

Viagem tranquila já que o fluxo intenso de veículos se dava no sentido contrário. As emoções já começaram em Torres RS onde fiquei sem gasolina, coisa de principiante. A virada do ano foi dormindo na Pousada Killian, da Dª Rosane, com hospedagem a R$ 60,00. A "ceia" foi na rodoviária...

2º DIA – 01/01/2015 – Pantano Grande RS – San Miguel del Monte ARG – 1.136 Km

Parti cedo de Pantano Grande e fui direto para a fronteira com o Uruguai em Santana do Livramento / Rivera. Pouco antes de São Gabriel RS fui atingido por um pássaro que pegou em cheio na Gopro fixada no capacete. Pedaços da câmera e da caixa estanque ficaram espalhados pela rodovia.  A câmera foi possível recuperar, com arranhões; já a caixa estanque sumiu definitivamente. Importante comentar que a peça de fixação com adesivo da 3M no capacete não se rompeu, isto é, o que quebrou foi a pequena haste que sustenta a caixa estanque. Faço este comentário pois já vi pessoas fazendo algumas gambiarras por terem receio do poder de fixação daquela peça. Pelo impacto que sofri, penso que foi uma bela prova que é mesmo muito resistente.

Trâmites muito rápidos em Rivera; era primeiro dia do ano então estava eu sozinho por ali, toda a estrutura burocrática aduaneira só pra mim. O trecho no interior do Uruguai até a fronteira com a Argentina em Paysandu / Colón foi tranquilo, apesar da Ruta 26 muito deteriorada entre Tacuarembó e Paysandu e também pelo clima de chuva e vento.

Serviço de aduana também tranquilo em Paysandu / Colón. Desci pela Ruta 14, passei por Zarate e contornei Buenos Aires, tocando até San Miguel del Monte, onde armei o primeiro camping da viagem no Camping San Miguel ao custo de US$ 8,00. Camping tranquilo, com mercearia e pequena lanchonete, bom sinal de wi-fi na sede. Estrutura de banheiros razoável.

 
Camping em San Miguel del Monte
 

3º DIA – 02/01/2015 – San Miguel del Monte ARG – Rio Colorado ARG – 767 Km

Pela Ruta 3 segui até Bahia Blanca com bastante vento lateral e posteriormente até Rio Colorado pela Ruta 22. Normalmente esta região é de bastante calor mas, naquele dia, estava bastante frio, o que me fez utilizar os forros da roupa de pilotagem antes do previsto.

Em Rio Colorado montei acampamento no Camping Rio Colorado ao custo de US$ 6,00. Ótimo camping, bem arborizado, bom serviço de banheiros e uma lanchonete anexa, na beira do Rio Colorado. Ponto negativo é que este não tem wi-fi.

 
Camping em Rio Colorado
 

4º DIA – 03/01/2015 – Rio Colorado – Puerto Madryn - 500 Kms

Iniciando a descida para o sul pela Ruta 251, parti de Rio Colorado disposto a cumprir apenas 500 Kms até Puerto Madryn. O vento começou a soprar um pouco mais forte a partir de General Conesa. Em San Antonio Oeste as filas nos postos de gasolina já apareceram com força, cerca de 200 veículos aguardavam abastecimento nos 2 postos no entroncamento da rodovia. Como já conheço a região, não parei naqueles postos de San Antonio Oeste e fui abastecer no posto que fica alguns kms adiante na Ruta 3, que estava vazio.

Viagem tranquila pela Ruta 3 até Puerto Madryn, apenas um pouco de vento lateral para dar emoção. Em Puerto Madryn almocei à beira-mar e depois montei acampamento no Complejo Turístico Punta Cuevas (www.acamadryn.com.ar) ao custo de US$ 8,50. Bom local pra camping, com lanchonete e mercearia, boa estrutura de banheiros.

   

Camping em Puerto Madryn

Lanchinho no camping em Puerto Madryn

   

5º DIA – 04/01/2015 – Puerto Madryn - Cmdte Luis Piedrabuena - 996 Km

Seguindo pela Ruta 3, passei direto por Comodoro Rivadávia, Caleta Olívia, Fitz Roy, Puerto San Julian e fui até Cmdte Luis Piedrabuena. Aproveitei que o vento não estava tão forte naquele dia e deixei pra trás quase 1.000 km da Ruta 3. Dia ensolarado, boa tocada.

Em Piedrabuena, após abastecimento no posto da margem da Ruta 3, passei a ponte e à direita fui para o Complejo Turístico Isla Pavón. Acampei ali pelo custo de US$ 11,50. Boa estrutura, com mercearia e banheiros, porém, as duchas funcionam somente até as 18:00 hs... sem banho naquele dia.

 
Camping em Cmdte Luis Piedrabuena
 

6º e 7º dias – 05 e 06/01/2015 – Cmdte Luis Piedrabuena - Ushuaia – 830 Km

Preparei novamente meu café da manhã junto à barraca (café, pão, ovos mexidos, biscoitos; melhor que o "desayuno" da maioria dos hotéis argentinos).

Viajei com muito frio pela manhã e o vento um pouco mais forte no trecho até Rio Gallegos. Apenas abasteci a moto em Rio Gallegos e segui para a fronteira Argentina/Chile e logo após realizados os trâmites segui para Punta Delgada onde há a balsa que atravessa o Estreito de Magalhães. Uma espera de pouco mais de 1 hora pela balsa, com muito frio e o tempo nublado, ventoso, melancólico. Desembarquei tranqüilo na Tierra del Fuego e toquei pelo asfalto até Cerro Sombrero, onde abasteci novamente a moto. Segui para San Sebastián pelo rípio via Onaisin. O serviço de pavimentação segue avançando bem, creio que até San Sebastián havia apenas 70 Kms de rípio.

Os trâmites na aduana Chile / Argentina foram demorados, mas logo estava de volta à Argentina e ao asfalto. O vento soprava muito, mas muito forte naquela hora, dessa forma o trajeto até Rio Grande foi com a moto bastante inclinada e segurando o pescoço nas rajadas mais agressivas. Passei pelos Lagos Fagnano e Escondido, subi ao Paso Garibaldi e desci, chegando a Ushuaia por volta das 20:00 hs. É sempre uma emoção chegar a Ushuaia, mesmo sendo a 4ª vez. Até ali tinha então rodado por 6 dias, 4.865 Kms desde Florianópolis.

Como em Ushuaia e região anoitece por volta das 22:30 hs durante o verão, após circular um pouco pelo centro da cidade fui até a placa de "Fin del Mundo" que fica na margem do Canal de Beagle, junto ao porto, e já registrei minha passagem por ali. Em seguida toquei para o Parque Nacional Tierra del Fuego, até o final da Ruta 3 e por volta das 21:30 hs registrei minha chegada novamente ao final da linha. Retornei aproximadamente 5 kms e fui ao Camping Lago Roca porém tudo já estava encerrado e eu contava com a mercearia que tem ali para abastecimento de "víveres", hehe. Assim não foi possível ficar no camping. Retornei a Ushuaia e fui para um hotel, contrariado.

No dia seguinte fui ao supermercado e abasteci com bastante comida e bebida e passei pela oficina Moto Pablo (Calle Intendente Olmos 898) para troca de óleo. Feito o serviço voltei ao Parque Nacional e montei acampamento no Camping Lago Roca por US$ 5,00. Local maravilhoso. Fiquei apreciando o anoitecer na margem do lago, comendo, tomando um vinho, ouvindo música, relax total. Camping nota dez. Alerta fica para os campistas neste camping, referente ao solo, que é muito úmido e extremamente frio. É imprescindível o uso de um bom isolante térmico assim como um bom saco de dormir. Pela manhã a temperatura no camping marcava 2º C.

Placa final da Ruta 3 – Bahia Lapataia - Ushuaia

Camping Lago Roca - Ushuaia

8º DIA – 07/01/2015 – Ushuaia – Punta Arenas – 620 Km

A umidade do Parque Nacional Tierra del Fuego é forte. A barraca, muito úmida, foi dobrada e colocada na bagagem sob chuva fina que me acompanhou até Rio Grande, no percurso de retorno. Já dava para perceber, somando o frio, o vento e o céu fechado e cinzento, que o dia seria pesado e cansativo. O vento maltratava bastante. Após Rio Grande apertou ainda mais. Feitos os trâmites nas aduanas em San Sebastián, cumpri o trecho de rípio com cuidado por causa do vento lateral que insistia em me jogar pra fora da estrada. Abasteci em Cerro Sombrero e fui para a balsa. Após o desembarque, já no continente, meu destino era originalmente Puerto Natales. Porém o vento estava tão forte e eu tão cansado de brigar com ele que, ao chegar no entroncamento da Ruta 255 com a Ruta 9, optei por descer para Punta Arenas, distante cerca de 50 kms dali. Acabei hospedado no Residencial Bulnes, fora da cidade. 

9º e 10º DIAS – 08 e 09/01/2015 – Punta Arenas – Torres del Paine – 355 Km

Amanheceu um bonito dia de sol, sem vento. Maravilha, segui pela Ruta 9 para o Parque Nacional Torres del Paine. Parei em Puerto Natales e comprei muitos mantimentos no supermercado Unimarc, comida e bebida, pois em Torres del Paine, se encontrar alguma coisa, tudo é muito caro e escasso. Pouco depois de Puerto Natales virei à esquerda no caminho que passa pela Cueva del Milodón e segui pelo rípio tranquilamente até a entrada sul do parque, via Pueblito Serrano.

Pela 3ª vez de moto em minhas viagens, entrei no Parque Nacional Torres del Paine, já curtindo todo o lindo visual, e fui montar acampamento no Camping Pehoe (www.campingpehoe.com), local muito bonito e privilegiado, com excelente vista dos cuernos Paine. Fiquei acampado ali por 2 noites, curtindo o visual e o clima do local, conversando com quem por ali passava, turistas do mundo todo. No segundo dia saí para uma caminhada e encontrei 3 brasileiros muito gente boa (Marcus Gubert e Fabrício, ambos de Curitiba, e Marcelo, de Minas Gerais), todos de BMW F800GS também acampados um pouco mais adiante, próximo a Hosteria Pehoe. Acabamos nos encontrando também posteriormente em El Calafate.

Camping Pehoe – Torres del Paine

Vista dos Cornos Paine e Lago Pehoe

11º DIA – 10/01/2015 – Torres del Paine – El Calafate – 380 Km

Levantei acampamento logo cedo e parti, ainda chuviscando, percorrendo calmamente as belíssimas paisagens do parque na direção da Porteria Sarmiento.

Muito vento logo na saída do parque e foi ficando mais forte no decorrer do dia. Nas aduanas de Paso Don Guillmermo / Cancha Carrera teve que ser no sistema "um olho no peixe e outro no gato", pois enquanto esperava nas filas de imigração e aduana, era necessário vigiar a moto que balançava nas rajadas de vento.

Fortíssimos ventos, então, durante o trajeto. Em La Esperanza um motociclista argentino me aconselhou, fortemente, a não usar a Ruta 40 para meu trajeto a norte depois de Tres Lagos, pois ele mesmo havia passado por lá e tinha sido um "infierno". Bom, deixa que eu mesmo vou verificar isso, pois Ruta 40, eu vou, estou aqui pra isso e não vou recuar.

Cheguei a El Calafate, cruzei a cidade e fui direto para o Glaciar Perito Moreno, no que seria a minha terceira visita àquela maravilhosa obra da natureza. Muito frio, chuva forte, nuvens negras. É, o clima não estava nada convidativo, mas lá fui eu. A chuva não deu trégua durante a minha visita à geleira, tirei apenas uma foto e no resto do tempo fiquei apreciando o monstro de gelo quieto, abrigado da chuva, porém já estava completamente molhado e congelado. Encontrei ali novamente os mesmos brasileiros lá de Torres del Paine. Mais tarde, durante a noite, nos encontramos em El Calafate e tomamos umas geladas no Borges Y Alvarez Libro Bar, um lugar recomendadíssimo para relaxar, tomar uns drinques, comida de pub, música, gente bonita e descolada.

El Calafate estava lotada de turistas. Hotéis, restaurantes, bares... todos cheios, principalmente por turistas europeus.

Montei acampamento no Camping El Ovejero (www.campingelovejero.com.ar) que fica em posição privilegiada, a 2 quadras da avenida principal de El Calafate, com bom sistema de banheiros, duchas, wi-fi, supermercado próximo, etc. Custo de US$ 7,50.

   

Camping El Ovejero – El Calafate

Glaciar Perito Moreno

   

12 º DIA – 11/01/2015 – El Calafate – El Chaltén – 225 Km

Fui pra El Chaltén sob forte vento e na Ruta 23 a coisa piorou, com vento ainda mais forte e muita chuva, gelada. Cheguei a El Chaltén em estado lastimável apesar dos míseros 225 Kms percorridos. Daquele jeito minha presença quase foi reprovada na cafeteria em que entrei para me esquentar e comer alguma coisa.

A cidade estava transbordando de mochileiros, todos os tipos de hospedagem estavam lotados (fui a praticamente todos eles), camping era impossível com a chuva que caía. No último hotel que consultei (Hotel Lunajuim) a recepcionista teve compaixão e me hospedou no quarto do gerente do hotel, que por sorte não estava na cidade.

Em 2008 eu já havia visitado El Chaltén. Sempre vale ir até lá. O monte Fitz Roy faz valer a pena. Recomendo também ir até o Lago del Desierto, um belo passeio se o clima estiver cooperando. 

13º DIA – 12/01/2015 – El Chaltén – Bajo Caracoles – 533 Kms

Amanheceu um belo dia de sol. Ainda muito frio, mas com um pouco de sol a coisa fica bem melhor. Já na largada fiquei 45 minutos na fila do posto de gasolina para abastecimento. A única "estación de servicio" de El Chaltén é um tipo container da YPF que fica na entrada da cidade e abre somente às 09:00hs, quando a fila já está enorme.

Segui pela Ruta 23, aproveitei a estrada deserta e saquei umas fotos com o visual das montanhas nevadas ao fundo e logo cheguei a Tres Lagos, onde acaba o asfalto e começa o trecho de rípio da Ruta 40.

 
Ruta 23 a El Chaltén

Este trecho é o que alguns consideram difícil e o evitam, preferindo dar a volta por asfalto lá por Rio Gallegos, no trajeto de retorno para o norte. Abasteci a moto no posto de Tres Lagos. Ali comprei água, biscoitos, etc. Tomei um energético e senti o vento. Não estava tão agressivo, muito bom. Segui pelo rípio solto por uns 10 kms e logo consegui subir para o asfalto novo, na obra em andamento. Rodei pelo asfalto aproximadamente uns 30 kms. Voltando ao rípio, este estava firme na maior parte. Às vezes bem solto, mas nada que uma boa acelerada não resolvesse. Como por ali não havia chovido nos últimos dias, os trechos em que normalmente se forma lama estavam bem secos e firmes. Algumas pedras maiores cravadas na terra com suas pontas aparentes exigiam um cuidado maior para evitar danos na moto. Mas, em resumo, foi bem tranquilo o trecho até o Lago Cardiel, somando no total aproximadamente 100 kms de rípio. Creio que tive sorte de estar naquele trecho, naquele dia, com 2 fatores a meu favor: o primeiro é que o vento estava moderado; rodar ali naquele isolamento com vento lateral forte em cima de rípio solto com uma moto e equipamento de mais de 300 quilos não é certamente uma delícia. O segundo fator é que todo o trecho estava seco; passei por diversas partes em que pude perceber claramente que, em caso de chuva recente, aqueles trechos se transformariam em um grande lamaçal. Por isso há viajantes motociclistas que contam grandes dificuldades ao passar por ali, com toda razão.

A partir do Lago Cardiel há a opção de seguir mais 70 kms de rípio até chegar ao asfalto novamente, indo em frente, ou ir até Gobernador Gregores por um asfalto novo. Optei por ir a Gobernador Gregores pois já estava com pouca gasolina e a fome apertava.

Em Gobernador Gregores abasteci, comi, tomei um energético, etc. Voltei para a estrada e, sempre por um asfalto de ótima qualidade cheguei a Bajo Caracoles. Por ali ventava bastante.

Em Bajo Caracoles completei o tanque na única bomba do vilarejo. Eram 17:00 hs e, apesar do meu plano ter como destino a cidade de Perito Moreno (distante uns 130 Kms dali), resolvi parar por ali e ter a experiência de acampar no meio daquele deserto de estepa patagônica. Em parte foi uma decisão acertada. Arrumei camping no terreno da casa do frentista do posto, abrigado do vento. Tomei banho na casa do cara. Porém, ao procurar por comida, decepção. A única lanchonete do vilarejo, junto ao pequeno hotel, me pediu o equivalente a US$ 15,00 por um sanduba muito fraco e ainda com um atendimento grosseiro por parte do dono do local. Decidi não aceitar o preço absurdo, tendo em vista que em El Chaltén uma super "hamburguesa doble" com "huevos" e "ensalada" saiu por US$ 6,00. Questão de honra. Jantei o que tinha na bagagem: torradas, uma lata de atum, suco de laranja, um pacote de bolacha recheada e, para esquentar a alma e evitar a azia provocada por essa mistura toda, uns goles de um whisky barato que tinha comprado em El Calafate.

Durante a noite o vento não soprou, calou-se por completo. O céu negro mostrava estrelas que brilhavam de forma impressionante. O horizonte patagônico quieto. Foi uma excelente noite.



Ruta 40 entre Tres Lagos e Lago Cardiel Ruta 40 – Lago Cardiel
   



Camping em Bajo Caracoles – Ruta 40 Jantar em Bajo Caracoles
   

14º DIA – 13/01/2015 – Bajo Caracoles – El Bolsón – 830 Kms

A Ruta 40 sentido norte a partir de Bajo Caracoles segue asfaltada e o visual é interessante. Rapidamente cheguei a Perito Moreno e ao posto de gasolina. Ali fiquei meditando sobre que percurso seguir. Tinha muita vontade de ir a oeste até Chile Chico e entrar na Carretera Austral. Porém, há menos de 2 anos tinha percorrido a Carretera Austral pela 3ª vez. A decisão demorou a chegar. Por fim optei por permanecer na Argentina e ir pela Ruta 40 até Rio Mayo.

Naquele trecho até Rio Mayo o serviço de asfaltamento está progredindo. Havia apenas uns 4 kms antes de Rio Mayo que ainda estão em obras e, por isso mesmo, com rípio muito solto, pedras e muita poeira. Em Rio Mayo abasteci a moto e fiz um bom lanche no posto de gasolina. Lembrei que foi naquele mesmo posto de Rio Mayo, naquela mesma lanchonete, que há quase 2 anos eu estava fazendo um lanche pela manhã cedo e na TV passava a notícia da tragédia da boate Kiss, em Santa Maria no RS; triste.

Toquei pela Ruta 40 e logo cheguei a 2 pontos de obra na pista. Em 2013 quando passei ali pela última vez, estava tudo asfaltado. Agora, haviam retirado todo o asfalto e o tráfego era forçado a 2 desvios de aproximadamente 15 Kms cada um, em péssimo estado. Apesar de ser um desvio largo, as pedras e o rípio estavam muito soltos e fundos, se bobeasse a roda dianteira enterrava. Muita poeira levantada pelos veículos em sentido contrário. Eu mirava o horizonte tentando enxergar o final daquele trecho mas, lá no fim, só via uma nuvem de poeira levantada por algum veículo, sinal de que ainda estava longe de me livrar daquilo. Bom, não havia o que fazer. Sempre de pé na moto, segunda ou terceira marcha, olhos à frente, aceleração firme e vamos indo. Estes desvios são feitos para que possam trabalhar na construção ou recuperação da pista; é um serviço que deve ser feito. É bom que o viajante saiba que, apesar da estrada ser pavimentada conforme consulta nos mapas e internet, ele pode ser surpreendido por estes detalhes de obras. Eu acho estes desvios piores que uma estrada "oficialmente" de rípio.

Na sequência da Ruta 40, vento forte foi surrando durante todo o trajeto. Moto sempre inclinada forçando o avanço, o que gera um rápido desgaste dos pneus, que ficam deformados. Em Gobernador Costa encarei quase 1 hora de fila no posto de gasolina, com sol forte, empurrando a moto metro a metro. Em Tecka parei para comer alguma coisa, tomar um energético e apreciar a enorme fila para abastecimento. Cheguei a El Bolsón no final da tarde e me hospedei no hostel Camorra, dividindo o quarto com mais 4 mochileiros, a US$ 11,00. 

15º DIA – 14/01/2015 – El Bolsón – San Martin de los Andes – 330 Kms

Um belo passeio de moto este trecho entre El Bolsón e San Martin de los Andes. Gosto muito dessa região, nem sei dizer quantas vezes já passei por ali.

Um agradável dia de sol durante todo o trecho. Passei por fora de Bariloche e fui almoçar em Villa La Angostura; uma truta no capricho no restaurante Los Troncos, bem no centrinho da Villa. Prosseguindo pela Ruta dos Siete Lagos em direção a San Martin, fui procurando por campings. Tudo lotado, impressionante. Fui a vários campings, inclusive no da ACA que fica na saída de San Martin e não encontrei lugar. Várias hospedagens tinham a placa de "lotado" na porta, evitando a aproximação de novos potenciais hóspedes. Finalmente encontrei uma cama no Hostel Las Coloradas, dividindo o quarto com mais 6 mochileiros, por US$ 20,00.

Gosto muito de San Martin de los Andes, desde a primeira vez que a visitei de moto em 2002. Já estive por lá diversas vezes e continua bela e agradável. Fiz uma visita ao meu amigo Nacho da Hosteria La Posta del Cazador (www.postadelcazador.com.ar) onde sempre me hospedo quando estou acompanhado. Indico sempre esta hosteria a quem me pede referência, pelo atendimento, pelo café da manhã, localização ótima, etc.

No centro de San Martin parei no Pub Dublin, onde tomei umas geladas e comi muito bem.

   



Ruta 40 Km 1971 clLago Nahuel Huapi - Bariloche
   

16º DIA – 15/01/2015 – San Martin de los Andes – Chos Malal – 460 Kms

Neste ponto da viagem o calor dominava e as roupas de pilotagem já estavam sem os forros, as ventilações abertas, enfim, tudo o que é possível para amenizar o forte calor já foi feito. Segui então até Zapala, apreciando a paisagem do Vulcão Lanin à esquerda. Em Zapala o sol queimava forte e não havia abrigo. No posto procurei abastecer a moto seguindo a fila e comer alguma coisa. Eu estava ansioso pois iria conhecer outra parte da Ruta 40 que seria novidade pra mim. Toquei então sentido norte, passando por Las Lajas e depois Chos Malal. Belo trecho, planícies, vales, vegetação rasteira, montanhas, rios. Até Chos Malal o trecho é todo asfaltado, de boa qualidade.

Cheguei em Chos Malal por volta das 16:00 hs. A intenção era seguir até Malargue mas, dado o forte calor, resolvi ficar por ali, principalmente pela informação de que havia um bom lugar para acampar. No posto de gasolina o frentista, sem que eu perguntasse, me alertava, com olhos arregalados, que o trecho da Ruta 40 após a divisa com a província de Mendoza estava péssimo, intransitável. Não gosto desse papo furado e procuro, na maioria das vezes, não dar ouvidos, pois as pessoas exageram demais e acabam influenciando nossas ideias. Posteriormente, já no camping, um turista argentino confirmou que realmente o trecho estava muito ruim, pois o Governo de Mendoza há muito não fazia qualquer trabalho de manutenção na Ruta 40. Bom, pensei, então o dia de amanhã será emocionante, pois eu não vou retornar.

Acampei no Camping Municipal Chos Malal pelo valor de US$ 5,00. Excelente lugar pra camping, arborizado, wi-fi na "sede". Claro que o serviço de banheiros deixa a desejar, mas isso é comum a todos os campings.

Após montado o equipamento, fui de moto ao mercadinho mais próximo e me abasteci: muita cerveja, muita água, uma garrafa de vinho e comida, que se resumia a arroz instantâneo e ovos, além de bolachas para o café da manhã no dia seguinte.

Aguardei a caída da noite ali, em volta da barraca, tomando alguma coisa por prazer e para dissipar o calor, ouvindo a música que saía do meu GPS. Excelentes momentos passei ali no camping em Chos Malal, momentos que eu não teria, de jeito nenhum, se estivesse hospedado em um hotel no centrinho da cidade. De vez em quando algum outro campista curioso se chegava, perguntava de onde eu vinha e para onde eu ia e, invariavelmente, pedia para sacar uma foto com a moto.

   



Camping em Chos Malal Camping em Chos Malal
   

17º DIA – 16/01/2015 – Chos Malal – Cânion do Rio Atuel – 552 Kms

Com o sol começando a aparecer por detrás das montanhas parti de Chos Malal, pela Ruta 40, em direção a Malargue. Trajeto muito bonito e tranquilo, asfaltado até Ranquil del Norte, onde começa o tal "trecho intransitável" divulgado pelo pessoal lá em Chos Malal.

Bom, é apenas um trecho de rípio de exatos 51 Kms. Às vezes muito bom e outras vezes ruim, mas nada de "intransitável", muito pelo contrário; para quem gosta de pilotar fora de estrada, que é o meu caso, isso dá um tempero bom ao dia de viagem. Não tive qualquer problema para passar o tal trecho. Após estes 51 Kms há diversos outros desvios por rípio, pois havia trechos da Ruta 40 em obras, principalmente nos arredores de Bardas Blancas.

Cheguei em Malargue precisando abastecer. O YPF que fica no centro da cidade estava sem combustível. Fui para o outro posto, Esso, que fica na saída norte de Malargue. A fila já somava uns 150 metros de carros, motos, etc. Ali foram aproximadamente 90 minutos enfrentando a fila, empurrando a moto metro a metro com um sol que fornecia um calor de 33º. Para coroar a situação, exatamente na minha vez de abastecer o posto fecha para troca de turno dos frentistas. Foram mais 30 minutos aguardando que fossem conferidas todas as bombas, o caixa, enfim, temos que ter paciência quando chega o momento de abastecer a moto nos postos de gasolina da Argentina. Incrível é ver a passividade com que o argentino encara esta situação; parece até que gosta daquele ritual, como se fosse um evento importante.

Encarei o sol forte e fui a El Sosneado e depois segui pela Ruta 144, posteriormente pegando o desvio à direita que vai a El Nihuil. O interesse nesse desvio era percorrer o Cânion do Rio Atuel. É um trecho que se inicia em Nihuil e segue em estradas de terra por aproximadamente 60 Kms. Um visual incrível com montanhas de pedra, o rio Atuel, estradas em zig-zag subindo e descendo encostas. Apesar do forte calor, da estrada ruim e da poeira, é um passeio que recomendo. No final do trecho, neste sentido a San Rafael, há boa estrutura de hospedagem, restaurantes e para a prática de esportes "radicais" como rafting, por exemplo. Achei ali o camping El Sauce (www.campingelsauce.com.ar), na margem do rio, um lugar muito bonito, boa estrutura de camping. Montei acampamento por US$ 12,00. No próprio camping há uma mercearia com tudo o que é necessário ao campista e muito barato. Com a barraca armada repeti o ritual: comprei comida e bebida na mercearia e fiquei apreciando o rio, as pessoas, o movimento do camping, aguardando o anoitecer. Preparei meu jantar, tomei umas geladas, música, etc. Momentos inesquecíveis passei ali, de contemplação, de meditação. Recomendo.



Rípio da Ruta 40 entre
Ranquil del Norte e Bardas Blancas
Cânion do Rio Atuel
   
   



Valle Grande – Cânion do Rio Atuel Camping Cânion do Rio Atuel

 

18º DIA – 17/01/2015 – Cânion do Rio Atuel – Zarate – 980 Kms

Pela Ruta 188 atravessei a Argentina oeste/leste. Trecho monótono de 980 Kms. Algumas filas nos postos de gasolina e um pneu furado quebraram o ritmo do dia. Com relação ao pneu furado, o conserto foi feito na beira da estrada, com o equipamento que eu sempre levo na bagagem: o kit "macarrão" e um mini compressor; tranquilo.

Em Zarate já era noite quando cheguei. Fiquei no Hotel Maral, no centro da cidade, por US$ 50,00 – recomendo. Este hotel tem garagem para a moto, bom café da manhã e fica localizado junto aos principais bares e restaurantes da cidade. 

19º DIA – 18/01/2015 – Zarate – Pantano Grande – 977 Kms

Pela Ruta 14 fui até a fronteira com o Uruguai, em Colón/Paysandu. O grande movimento de veículos me fez gastar mais de 2 horas para realizar os trâmites. Calor forte, sol a pino. Toquei até Tacuarembó pela esburacada e trepidante Ruta 26 uruguaia. Almocei na churrascaria junto ao posto de gasolina e novamente na estrada, Ruta 5 em direção a Rivera. Estava muito calor naquele dia. Foi sofrido percorrer os 977 Kms até o ponto final em Pantano Grande. Fiquei hospedado no hotel Cidade Nova por R$ 55,00. 

20ª DIA – 19/01/2015 – Pantano Grande – Florianópolis – 605 Kms.

Dia de chegar em casa e encerrar mais esta maravilhosa viagem.

Novamente nenhum tombo, nenhum susto, nenhuma pressão policial, nenhuma propina paga, nenhum problema com a moto, nenhum problema de saúde, só alegria. Dá pra dizer que a viagem foi um sucesso.