RELATO DE VIAGEM REALIZADA AO DESERTO DE ATACAMA COM DESTINO AO PASO SAN FRANCISCO – OUTUBRO DE 2006 – 15 DIAS – 7.500 Kms.

 
 

Em agosto de 2006 comecei a planejar uma nova viagem. Dispunha de apenas 15 dias livres para executar um roteiro. Onde ir? O que conhecer? Partindo do fato de que aprecio demais o visual de montanhas, lá me ia novamente para a Cordilheira dos Andes.

As travessias da cordilheira, da Argentina para o Chile ou em sentido contrário, são feitas, como já mencionamos neste site em outras viagens, pelos chamados Pasos Fronteirizos Internacionais. Há vários deles que interligam os dois países e obrigatoriamente cruzam a cordilheira. Uns são mais fáceis, com estrutura de apoio, asfaltados por completo, etc. Já outros não têm essas características, sendo ainda pouco utilizados e em conseqüência são compostos por longos trechos de estradas de terra, rípio, gelo, neve, etc. Já conhecemos vários mas ainda faltam outros tantos. Todos têm sua beleza própria mas normalmente alcançam grandes altitudes, acima dos 3.000 metros, e são isolados, cercados por montanhas nevadas, lagunas coloridas, vegetação característica de desertos ou arborizadas como na Patagônia e impressionantes visuais que atraem viajantes como eu.

Assim, após cuidadosa seleção do Paso a ser conquistado, elegi o Paso San Francisco. Na verdade a primeira escolha foi o Paso Águas Negras, mas após contatos com autoridades rodoviárias no Chile concluí que outubro não é um mês indicado para este Paso. Ele normalmente só está aberto nos meses de verão, por conta da grande precipitação de neve durante o resto do ano. Paso San Francisco, esse foi o destino escolhido.

O Paso San Francisco une as cidades de Copiapó – Chile – com Fiambalá – Argentina. São 470 Km sem abastecimento. Destes, 270 Km são de terra ou rípio. Tenho procurado, cada vez mais, incluir roteiros off-road em minhas viagens – gosto particular. O Paso San Francisco também tem outro atrativo: a altitude, que chega a 4.726 metros em seu ponto máximo.

Realizados os estudos preliminares e elencados o ponto mais importante da viagem, surgiu um amigo motociclista disposto a me acompanhar. Conhecido por Pardal, o Rogério é motociclista experiente e, já que estava com tempo livre e muita disposição, colocou-se como parceiro. Adquiriu também uma moto nova, igual a minha.

Partimos dia 12 de outubro de 2006 e, como de praxe, o primeiro dia foi de muita chuva e frio, na estrada que nos leva até o planalto serrano catarinense. Os primeiros dias da viagem estavam planejados de forma a avançar o máximo possível para a Argentina. Apenas rodamos muito no interior de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, até a chegada em São Borja, na fronteira com a Argentina. Neste dia tive a feliz oportunidade de encontrar o Leonardo, em Santo Ângelo, e uma turma de amigos motociclistas. O Leonardo foi o comprador da minha Yamaha TDM 850, companheira de muitas viagens e ótimos momentos. Esperava reencontrar a moto mas já havia sido revendida...

No dia seguinte partimos de São Borja em direção à Pres. Roque Saenz Pena, porta de entrada da região do Chaco. Neste percurso encontramos três motociclistas de Brasília – Kaiser, Eliu e Ivo – rodando com suas XT 660 nos arredores de Ita Ibaté, 200 Km antes de Corrientes. Ao pararmos no mesmo posto acabaram por me reconhecer. Tive a grata surpresa de todos serem leitores do livro. Abraços, fotos e muita alegria pela feliz coincidência. Combinamos de nos encontrar em Roque Saenz Pena e tomar algumas cervejas com um bom papo sobre motociclismo e viagens. Foi o que fizemos. Um agradável noite em uma cidade nem tão agradável assim, mas foi fácil com tão boa companhia.

Dia seguinte seguimos viagem, deixando os amigos de Brasília ainda dormindo. Seguimos pela RN 16, a famigerada estrada reta e calorenta do Chaco. Pelo menos as autoridades haviam realizado um trabalho de manutenção da rodovia e os buracos enormes de antes já não estavam mais por lá. Continuam os animais soltos, o calor e a infinidade de insetos. Normal para quem, como eu, já passou por ali outras três vezes.

Pernoitamos em San Salvador de Jujuy, porta de entrada para a região das Quebradas de Humahuaca e da região da Puna. A partir desta cidade a viagem iria realmente começar. Das outras vezes que passamos por esta região, deixamos de conhecer as cidades de Tilcara e Humahuaca, que ficam ao norte de Jujuy, seguindo pela Ruta 9. É um trajeto muito bonito, com vales e quebradas das montanhas por todo o percurso. Bom asfalto, um belo passeio de moto em direção à Bolívia.

As cidades de Tilcara e Humahuaca também valem a visita. A cultura indígena do local está presente nas ruas, praças e edificações. Feiras de artesanato acontecem com freqüência. O sol costuma brilhar sempre por ali. Tilcara está a 2.495 metros sobre o nível do mar (m.s.n.m.) e é considerada a capital arqueológica da província de Jujuy. Humahuaca está a 2.939 m.s.n.m., tem como característica as ruas de pedra e casas de adobe. As duas cidades têm estrutura para pernoite, sem luxo, é claro, valendo a pena esticar um pouco mais a estadia por aqui, principalmente por conta do panorama das montanhas coloridas.

Neste mesmo dia retornamos pela Ruta 9 e seguimos por Purmamarca até Susques. Este trajeto já detalhamos em outras viagens, porém vale relembrar que continua muito belo. Ótimo asfalto, cactos gigantes e estradas que escalam as montanhas na região da Cuesta de Lipán. Desta vez entrei com a moto no salar Salinas Grandes e acelerei tudo que tinha em cima do piso de sal pra lá de branco, uma experiência diferente.

Após garantirmos hospedagem no Hotel Unquillar, fomos abastecer as motos para adiantar o serviço do dia seguinte. No posto de gasolina, que fica aproximadamente 2 Km após Susques (há outro “posto” dentro da cidade), encontramos 14 motociclistas de um grupo de Videira SC, chamado Águias do Vinhedo. Ficamos sabendo de um fato muito triste, pois vinham acompanhados de um motor-home e a esposa do proprietário do veículo, que prestava apoio aos motociclistas, por um descuido acabou sendo jogada para fora do ônibus em movimento, machucando-se seriamente. O grupo estava desolado e ainda decidindo se seguiriam viagem ou não. Mais tarde soubemos que a acidentada recebeu cuidados médicos em Jujuy e após um período de observação retornou de avião ao Brasil. Os motociclistas continuou sua viagem rumo ao Peru – não tenho informações se chegaram lá.

De Susques viajamos até San Pedro de Atacama, no Chile. Foi a primeira vez que fiz este percurso todo asfaltado. Agora é possível conhecer a região do deserto com qualquer tipo de motocicleta, sem problemas, pois não há mais rípio.

Em San Pedro resolvermos ficar por 2 dias. Além da cidade ser de um astral formidável, com seus restaurantes e turistas de todo o mundo, ainda há coisas a conhecer nos arredores que ficaram para trás nas outras oportunidades que estivemos na região. Fomos conhecer as Lagunas Miscanti e Miñiques, que ficam distantes de San Pedro aproximadamente 100 Km, no trajeto do Paso de Sico. A excursão vale a pena. As lagunas são belíssimas, naquele visual que combina montanhas nevadas e água esverdeada. Ainda está incluído no roteiro o Salar de Atacama, Laguna Chaxa, e um almoço com comida típica na casa de habitantes do povoado de Socaire. É de se esbaldar. Também passamos por Toconao e Quebrada de Jere, um legítimo oásis.

Fomos conhecer também a mina de cobre da Codelco (Corporación del Cobre). É a maior mina a céu aberto do mundo. Realmente impressionante o tamanho das máquinas, caminhões e da cratera de onde extraem o cobre. A visita é gratuita, sendo necessário apenas apresentar-se com anterioridade no escritório da empresa que fica na praça da cidade e reservar seu espaço na excursão. Pode-se também

Partimos de San Pedro em direção à Tocopilla e de lá, nas margens do Pacífico, prosseguimos pela Ruta Panamericana em direção a Antofagasta. Um pouco antes de Chañaral deixamos a Panamericana e ingressamos no Parque Nacional Pan de Azucar. Foram 55 Km de estradas de terra, um pouco de rípio, que nos levou a uma praia onde avistamos pelicanos e é possível visitar uma ilha onde há pingüins e lobos marinhos contratando uma lancha. Almoçamos ali, bem perto de uma pedra que serve de toilete para um bando de pelicanos. Chegando em Antofagasta passamos pelo monumento natural La Portada, um rochedo no meio do oceano, com um buraco circular no centro, que é o símbolo da cidade. Dois dias parados em Antofagasta para descansar os ossos e iniciar a preparação para o Paso San Francisco valeram a pena para recarregar as baterias.

Copiapó estava a 570 Km de distância, trecho que percorremos sem problemas pelas estradas desertas e de retas muito longas. Neste percurso, a 70 Km sul de Antofagasta, paramos novamente na Mão do Deserto para registrar nossa passagem por ali com fotos e vídeo.

Copiapó nos serviria apenas como ponto de partida para o Paso San Francisco. Jantamos no centro da cidade e preparamos as motos para o maior desafio da nossa viagem.

Como o Paso é longo e sem pontos de abastecimento (seja de combustível ou alimentação), compramos mantimentos e gasolina (10 litros cada um), que foi acomodada nos bauletos laterais. As motos ficam super-pesadas nestas condições. Quando estamos realizando viagens como essa as condições de pilotagem são as piores possíveis. A moto está pesada, as roupas são sufocantes e nossos movimentos ficam restritos, a altitude tira nossa consciência por vezes, ou seja, o percurso já é difícil, mas tudo fica ainda pior por conta do equipamento que temos que usar ou carregar.

O Paso San Francisco se revelou belo e nem tão difícil assim de cruzar como imaginávamos. São 270 Km de estradas de terra, sendo aproximadamente 50 Km de puro rípio, solto, traiçoeiro, mas com um pouco de paciência tudo corre bem.
Os primeiros 130 Km do trecho de terra são ótimos, permitindo desenvolver boas velocidades (até 120 Km/h). Aos poucos vamos subindo as montanhas por estradas sinuosas, onde se deve ter muito cuidado ao contornar as curvas. A vegetação dá lugar ao Atacama em sua forma mais rude. Ao longo da pista aparecem estacas de gelo conhecidas como “penitentes” por se assemelhares a devotos ajoelhados rezando. A mistura do céu azul, montanhas de terra seca e o gelo muito branco, resulta em um estranho cenário, quase extra-terrestre. Passar com a moto por ali é simplesmente magnífico.

Rodamos com tranqüilidade por aquele trecho. Após 130 Km a estrada de terra começa a ficar um pouco ruim, mas nada de assustar. Levantávamos poeira por onde passávamos. Nenhum carro cruzou por nós em sentido contrário. Chegando à aduana chilena, no Complexo Fronteiriço San Francisco, rapidamente fizemos os trâmites de saída do Chile e ali resolvemos retirar a gasolina dos bauletos e colocá-las no tanque. Fizemos isso com todo o silêncio que o deserto nos proporciona, nas margens do Salar de Maricunga.

Seguimos em direção à fronteira da Argentina, passando por lugares espetaculares como o Cerro Três Cruces (6.749 m.s.n.m.) e o Cerro Ojos del Salado (6.893 m.s.n.m.) e a impressionante Laguna Verde. Vejam as fotos da laguna no álbum de fotos para tirarem suas próprias conclusões, pois me faltam palavras para descrever aquele lugar.

Neste trecho próximo da Laguna Verde o rípio aparece e os cuidados na pilotagem devem ser redobrados. Por várias vezes tive a certeza que encontraria o chão, um tombo daqueles, mas a mão no acelerador e a alta rotação do motor – único remédio num caso desses – foram suficientes para que tudo não passasse de um grande susto. Chegamos na fronteira. Uma placa indicando o limite internacional foi nossa saudação. Estávamos a 4.726 m.s.n.m.) e felizes como crianças. O trecho perigoso e difícil já tinha passado sem que levássemos algum tombo. A partir dali é só ótimo asfalto até Fiambalá. Na aduana argentina fizemos os trâmites, deixei um adesivo do site na janela da pequena instalação dos policiais e seguimos viagem, ainda por lugares muito bonitos que nos forçavam a constantes paradas para fotografia.

Fiambalá é uma cidade muito pequena, com um único local para hospedagem (La Hosteria, bem na entrada da cidade). Há um complexo termal distante 15 Km do centro, porém estava lotado. Comemos na própria hosteria e a conversa girou em torno dos inimagináveis locais por onde havíamos passado naquele dia. As motos estavam perfeitas apesar da imundice. Nossos corpos estavam em frangalhos então fomos dormir cedo, nas precárias instalações do local mas que nos serviram como um profundo descanso daquele dia intenso.

A missão estava cumprida. Nosso maior interesse na viagem havia sido conquistado com sucesso. Começaríamos a retornar ao Brasil, porém passando por uma outra interessante região das Províncias de Catamarca e Tucumán. Viajarmos de Fiambalá a Tinogasta, depois Aimogasta (pela Ruta 60) e pela Ruta 38 subimos no norte até Tafi del Valle. Pernoitamos ali e seguimos viagem passando por Aimaichá del Valle (auto-denominada a cidade de melhor clima do mundo). Nesta cidade há um museu geológico chamado de Pacha-mama que merece uma visita por seu conteúdo cultural e educativo, além de sua construção que é bem interessante. Uns poucos quilômetros depois conhecemos as Ruínas de Quilmes, uma espécie de Machu-Picchu da região, guardadas as devidas proporções. São ruínas seculares da cidade dos índios Quilmes, rodeadas por cactos gigantescos. Esta estrada é de bom asfalto e é também pura diversão por conta de grandes ondulações nas pista.

Nos arredores de Cafayate avistamos muitos parreirais pois a cidade produz boa quantidade de vinhos. É uma cidade agradável e com boa estrutura para turistas. Abastecemos as motos ali e seguimos para Salta, passando pela região chamada de Quebradas de Cafayate onde avistamos, ao longo da pista, impressionantes formações de montanha, de todas as cores possíveis e de tamanhos amedrontadores. Muitas fotos por ali. Chegamos a Salta e fomos descansar. Considero que ali a viagem termina pois o retorno pra casa se dá em três dias de muito asfalto e calor, sem nada de interessante – pra quem já viu tanta coisa dias atrás.

Em resumo, para quem procura conhecer lugares que não fazem parte de roteiros tradicionais de viagens de moto (ou qualquer outro veículo), esta é uma ótima opção. Há que se saber pilotar no rípio e encarar longos trechos de solidão e sem apoio de qualquer espécie, porém um bom planejamento vai fazer a viagem realmente valer a pena.