RELATO DE VIAGEM DE MOTOCICLETA REALIZADA DE FLORIANÓPOLIS SC, AO SUL DO CHILE, PASSANDO POR ARGENTINA E URUGUAY FEVEREIRO DE 2002. COM DURAÇÃO DE 21 DIAS, 8.400 KM RODADOS UTILIZANDO UMA MOTOCICLETA HONDA SHADOW VT 600, ANO 2000

Era primavera de 2001 quando decidimos embarcar em uma viagem de moto que fosse realmente uma aventura. Já havíamos rodado uma boa quilometragem em solo brasileiro, mas dessa vez desejávamos romper fronteiras internacionais.

Após longas pesquisas na internet decidimos que o nosso destino seria o Chile, passando pela Argentina e Uruguay.

Escolhemos o mês de fevereiro de 2002 para a realização da aventura, haja vista que é um período seco e sem neve em todo o cone sul, o que favorece uma viagem mais segura.

A moto que possuía na época era uma Honda Shadow 600. Revisão completa realizada, roteiros, dicas de viagem e alforjes cheios, partimos em 26.01, cheios de expectativas e muita vontade de seguir em frente.

Nossa rota iniciou-se pela BR 282, em direção a Lages SC, de onde rumamos ao sul pela BR 116 até chegar em Vacaria RS, para seguir até Passo Fundo RS, onde seria nossa primeira pernoite. Muita chuva no dia seguinte nos fez estrear as roupas impermeáveis, o que dificultou bastante o nosso percurso até Uruguaiana RS, por onde chegaríamos à Argentina, via Paso de Los Libres. Passada a aduana, com um dia maravilhoso de muito sol (que nos acompanharia por todos os demais 18 dias de viagem), pudemos enfim começar a curtir nosso trecho estrangeiro.

Retões intermináveis nos levavam a cortar o interior da Argentina, em direção à cidade de Santa Fé, na Província de Santa Fé. O sol queimava forte e ao chegarmos em Santa Fé por volta das 14:00 hs, em plena "siesta", encontramos uma cidade deserta, onde nem os postos de gasolina estavam abertos. A "siesta" termina apenas as 16:30 hs, quando então aquela grande cidade argentina volta a viver intensamente até a madrugada, com muita gente nas ruas, bares e restaurantes.

No dia seguinte zarpamos cedo para a cidade de Córdoba, distante 370 Km a oeste de Santa Fé. Grande cidade industrial, histórica, com arquitetura européia e grandes rodovias de acesso. Gastamos o resto da tarde e da noite conhecendo Córdoba, e no dia seguinte rumamos em direção à Mendoza, cidade da pré-cordilheira andina, famosa por seus vinhos, e pela proximidade com o Aconcágua. O percurso de 708 Km entre Córdoba e Mendoza foram vencidos através da Ruta 07, que corta de leste a oeste a Argentina, pista dupla e muito bem conservada, mas com poucos postos de abastecimento. A autonomia de parcos 180 Km da Shadow nos deixaria na mão em três ocasiões durante essa viagem.

Mas tudo bem, tudo faz parte da aventura. Nas proximidades de Mendoza podíamos sentir os cheiros diversos dos parreirais que se estendem ao longo da Ruta 07. A cidade de Mendoza mereceu que ficássemos por 02 dias conhecendo todos os seus encantos, parques, monumentos, restaurantes, vinhos, e a visão da Cordilheira dos Andes, que já pode ser vista bem próxima. Mendoza é bastante arborizada, com ruas largas e completamente cobertas pelas copas das árvores, que são irrigadas com águas provenientes do degelo dos Andes, que correm ao longo das calçadas.

Depois de aproveitarmos bem a cidade, partimos bem cedo para o principal objetivo de toda essa viagem: atravessar a Cordilheira dos Andes, linda, desafiadora e imponente, com suas montanhas cobertas de gelo perene nos cumes, tendo como principal pico o Aconcágua, destino de muitos aventureiros que escalam as suas faces em busca do ponto mais alto das Américas. Próximo ao Parque Provincial do Aconcágua está o Cemitério dos Andinistas, com as lápides daqueles que não conseguiram transpor a grande montanha.

A Cordilheira dos Andes é destino obrigatório de todo aventureiro. É uma experiência espiritual poder atravessá-la, quando o único barulho que se ouve é o do ronco de sua moto cruzando os vales e rios secos, que voltam com suas corredeiras no fim do inverno, em consequência do degelo de sua neve. Poder parar e tirar umas boas fotos é uma lembrança que o viajante carrega para toda a vida. Impressionante também é o número de viajantes solitários que encontramos, a pé ou de bicicleta, enfim, pessoas das mais diversas nacionalidades buscando superar limites.

O trajeto Mendoza, na Argentina, até Viña del Mar, no Chile, é vencido rapidamente, pois são pouco mais de 300 Km. Passamos por Valparaíso, primeira capital chilena e principal porto do país, seguindo para a Capital Santiago. Encravada no meio da Cordilheira, é uma grande cidade que, ao chegar, lembra um pouco São Paulo pelo movimento intenso no trânsito. A cordialidade da polícia chilena nos faz encontrar rapidamente acomodação. Santiago também merece um dia inteiro, pelo menos, para conhecê-la. Fomos ao Cerro de San Cristobal onde curtimos um pouco o agito noturno da cidade, pois naquela região os bares se aglomeram, numa mistura de cardápios e ritmos musicais. Vale também uma visita ao Mercado Municipal para conhecer e saborear uma grande variedade de pratos elaborados com frutos do mar.

Passamos a nos dirigir ao sul do país através da Ruta 05, cortando as cidades de Talca, Chillan, Temuco e Villarrica, já na região dos Lagos Chilenos, onde pudemos apreciar nosso primeiro vulcão, o Villarrica, belíssimo, coberto de neve. A composição dos lagos e do vulcão resulta em um maravilhoso panorama. No inverno a cidade de Pucón, no pé do vulcão, lota de turistas de todas as partes do mundo que aproveitam toda a estrutura da cidade para esportes radicais, principalmente o ski na neve.

Dormimos em Valdívia, cidade litorânea que foi abalada por um terremoto em 1960, que a deixou literalmente torta. Percebe-se as casas inclinadas e as avenidas rachadas até hoje. Outro vulcão da região, o Osorno, fica na cidade de mesmo nome, um pouco mais ao sul . A cidade de Puerto Montt marca o nosso destino mais ao sul da aventura. Temos que registrar que em todos os momentos, em todas as paradas, postos de abastecimento e hotéis, fomos sempre muito bem recebidos. O fato de você viajar de moto o torna diferente aos olhos das pessoas, que querem lhe atender e conversar com você.

Em Puerto Montt esta hospitalidade com os motociclistas ultrapassou os limites: no Hotel Montt, onde pernoitamos, não havia garagem para a motocicleta, motivo pelo qual não iríamos nos hospedar lá. Pois o gerente fez questão de nossa presença, tanto que me fez estacionar a moto literalmente dentro do hotel, passando pela recepção, no meio dos demais hóspedes. Para transpor um degrau no saguão do hotel, tive que forçar um pouco mais a máquina, o que acabou deixando uma marca no carpet, que o gerente disse não haver problema por ser a lembrança que ele guardaria de nós.

A partir de Puerto Montt começamos nosso trajeto de volta, desta vez cruzando a região norte da Patagônia Argentina. Cruzamos o território argentino através da Ruta 22 em dois dias, passando por cidades como San Martin de Los Andes (charmosa e aconchegante), Neuquem, Rio Colorado, Bahia Blanca, Necochea e resolvemos passar dois dias em Mar del Plata, pois eu e Michelle estávamos comemorando um ano de namoro. Vale relatar que esta rota de cruzamento do território argentino é exuberante. Passamos por paisagens áridas, com vegetação característica de desertos, e por quilômetros não avistamos nada no horizonte. Quando a motocicleta apela para a reserva de gasolina, eis que surge um posto de abastecimento salvador. Retas intermináveis, de aproximadamente 300 Km, fizeram com que a Michelle por vezes cochilasse na garupa da moto.

Mar del Plata, balneário argentino semelhante ao nosso Balneário Camboriú, em Santa Catarina, fervia com o verão. Pela Ruta 2 chegamos depois de 450 km de viagem a Buenos. A chegada à Capital Argentina é fantástica, rodovias perfeitas com correta sinalização jogam você no coração da cidade, na Avenida 09 de Julho. Dois dias para conhecermos a cidade, com direito a show de tango e tudo mais. Quem pensa que viajar de moto significa passar necessidades em termos de roupas, está muito enganado. Quando a gente quer, consegue organizar tudo de uma maneira que não falta nada. Pudemos, desta forma, curtir o show de tango vestidos de acordo com o ambiente. Estávamos em Buenos Aires na época quente dos conflitos político-sociais, em virtude do "corralito", e presenciamos algumas manifestações populares.

De ferry-boat cruzamos o Rio de La Plata e aportamos no Uruguay, na cidade de Colonia del Sacramento, seguindo para Montevideo e indo pernoitar em Punta del Este, sofisticado balneário uruguaio. Vizinha a Punta Del Este está Punta Ballenas, onde existe uma parada obrigatória para viajantes: a Casa Pueblo, residência-escultura gigante do artista plástico uruguaio Carlos Paes Vilaró. Há decadas ele vem construindo essa "casa", que hoje é também hotel e guarda grande acervo de suas obras. A casa é muito visitada, cobra-se uma entrada simbólica. Ao pôr do sol, no horizonte do Rio de La Plata, o artista declama, em gravação, o Poema ao Sol, onde ele se despede do seu "amigo" sol, dizendo esperar encontrá-lo lindo novamente no dia seguinte. Tudo sincronizado com o momento em que o sol some no horizonte. É emocionante.

Saímos de Punta del Este sem arriscar um tostão nas roletas dos cassinos e viajamos de volta ao Brasil, chegando em Florianópolis em dois dias, depois de passar por Pelotas e Porto Alegre. Com uma calorosa recepção dos familiares e amigos, saboreamos um ótimo churrasco e pudemos narrar todos os momentos maravilhosos dessa emocionante aventura. Indicamos este percurso que realizamos para todos os que tenham alma aventureira, por tratar-se de um trajeto seguro, de boas estradas e povo cordial e hospitaleiro.

Ao todo contabilizamos 21 dias de viagem, 8.400 Km percorridos, uma média de 400 deliciosos quilômetros por dia.