Atacama e Carretera Austral 2013
 

RELATO DE VIAGEM REALIZADA AO DESERTO DO ATACAMA E À CARRETERA AUSTRAL EM JANEIRO DE 2013, 11.600 KM, 29 DIAS, MOTO YAMAHA SUPER TENERE XT1200Z.

 
 

A idéia era juntar, em uma só viagem, o deserto e a patagônia. Assim, o roteiro previa subir ao Deserto do Atacama, descer toda a Panamericana, ingressar na Carretera Austral desde Puerto Montt, percorrer seus quilômetros de rípio e retornar ao Brasil.

Foi a sexta vez que estive no Atacama e a terceira vez na Carretera Austral.
Na Carretera Austral o diferente foi a forma de ingresso, pois em 2006 eu entrei direto em Chaitén, vindo de transbordador desde Castro (Ilha Chiloé), e em 2008 o ingresso se deu pelo Paso Futaleufú. Desta vez eu queria fazer desde o início em Puerto Montt, pegando todas as balsas que levam a Hornopirén, Caleta Gonzalo, etc. Mais rípio, mais balsas (viagem à patagônia sem balsa não é completa), mais emoção.
Dos 29 dias de viagem tive um pouco de tudo, pois houve momentos de companhias distintas: os primeiros 11 dias foram em companhia de 2 amigos. Depois, tive 8 dias de viagem solo (trecho da Carretera Austral) e na parte final minha esposa Michelle estava presente.

Vou simplificar este relato pois o Deserto do Atacama já foi visitado outras vezes, nas viagens que podem ser lidas neste site: ATACAMA 2003, PERU 2004/2005, PASO SAN FRANCISCO 2006, ATACAMA 2010 e PASO AGUA NEGRA E INTEROCEANICA 2011. Já a Carretera Austral foi relatada nas viagens CARRETERA AUSTRAL 2006 e USHUAIA 2008.
Com relação à moto o único diferencial foi com relação aos pneus: na parte inicial da viagem eu estava com um Continental TKC 80 na dianteira e um Michellin Anakee 2 meia vida na traseira, um dos pneus que ficam estocados lá em casa. O plano era trocar o traseiro por um TKC 80 novo em Santiago e então seguir para a Carretera Austral com estes pneus off-road.
O Continental TKC80 dianteiro, passados os 11.600 Km, ainda demonstra condições de rodar bastante, pelo menos mais 7.000 Km. Já o traseiro, que rodou 6.400 Km desde Santiago, tem fôlego para uns 2.000 adicionais em minha opinião.

O consumo da moto ficou em média na casa dos 18 Km/l, o que acho bastante razoável. Além da troca do pneu, apenas uma troca de óleo foi realizada, também em Santiago. Nenhuma outra intervenção na motocicleta foi necessária. Outras observações sobre a Super Ténéré podem ser lidas na viagem TORRES DEL PAINE E USHUAIA 2012, já que  foi a primeira longa viagem realizada com esta moto. Mais uma vez ela se mostrou excelente para viagens, tanto no asfalto como no off-road.

Quando ao GPS os mapas gratuitos do Proyecto Mapear para Paraguay, Chile, Argentina e Uruguay não decepcionaram e me deram todas as informações necessárias (www.proyectomapear.com.ar).
Quanto aos custos é importante salientar o aumento dos preços gerais na Argentina. Arrisco-me a dizer que está tão ou mais caro que o Chile. Em valores aproximados, no período em que a viagem foi realizada, é possível fazer o seguinte cálculo para 2 pessoas com 1 moto:
Combustível: US$ 1,50 por litro - considerando a média de consumo da sua motocicleta e a quilometragem total a ser percorrida, é possível chegar a uma valor bem aproximado do custo neste item que é incontrolável, não há como escapar deste valor.
Hospedagem: US$ 60,00 por dia – é possível, em alguns locais, encontrar hospedagens mais baratas. Depende da força de vontade e paciência para procurar, ou acampar, o que seria uma opção extremamente econômica.

Alimentação: US$ 50,00 por dia - este item de custo permite um maior controle e isso pode se reduzir bastante, dependendo do nível de exigência do viajante.
Considerando um deslocamento diário de 500 Km e uma motocicleta com consumo de 15 Km/l, o custo diário será de US$ 160,00/dia.
Com relação aos documentos, nos quatro países visitados – Paraguay, Argentina, Chile e Uruguay, são necessários passaporte ou carteira de identidade (preferível passaporte), documento de propriedade da motocicleta (em nome do condutor, sem restrição), seguro Carta-Verde Mercosul.

DIA 01 – 11/01/2013 - Florianópolis – Curitiba – 340 Km
Nesta sexta-feira fiz um deslocamento interno até Curitiba para me juntar aos outros 2 participantes da primeira parte da viagem: meu cunhado Roger (parceiro de outras 2 viagens, Carretera Austral 2006 e Alaska 2009) com uma BMW R1200 GSA e o Clóvis, em sua primeira viagem internacional, com sua Suzuki DL650 V-Strom.
A expectativa era grande para o dia seguinte, o início oficial da viagem 2013. Um churrasquinho na casa do Clóvis foi o ambiente para discutirmos alguns detalhes da viagem e relaxar um pouco.

DIA 2 – 12/01/2013 – Curitiba – Foz do Iguaçu – 670 Km
Saímos cedo de Curitiba e o trecho de 9 pedágios até Foz do Iguaçu não apresentou novidades. Fazia muito calor, muito movimento na estrada.
Em Foz do Iguaçu já tínhamos hospedagem garantida na casa de amigos indianos do Roger. Jantar típico indiano delicioso.

DIA 3 – 13/01/2013 – Foz do Iguaçu – Asunción Paraguay – 360 Km
A passagem pela ponte que liga Brasil a Paraguay é tranquila e os trâmites de imigração também. Eu e Clóvis ficamos do lado de fora da aduana paraguaia com as motos enquanto o Roger, com os três passaportes, em apenas 2 minutos entrou, carimbou e voltou sorrindo.
A estrada do interior do Paraguay é tranquila. Apesar de ter pedágios e com preço estipulado para moto, a indicação dos empregados do pedágio era para passarmos direto. Eu indico este caminho para quem quer ir ao noroeste da Argentina, ao deserto do Atacama. É a segunda vez que cruzo o Paraguay de moto e não vi qualquer problema. Povo hospitaleiro, vários pontos de parada, postos de gasolina, vendinhas na beira da estrada para aquele líquido refrescante.
Em Asunción fomos recebidos a 40 graus para um churrasco na casa do Helio, meu amigo de trabalho que está há 2 anos na agência do Banco do Brasil na capital paraguaia.
Hospedamo-nos no Hotel Bavária (não recordo o valor pago pois foi cortesia do Roger), mas o hotel é simples, bem localizado, com piscina (que aproveitamos), estacionamento para as motos, etc.
Fomos dormir cedo; a pegada do dia seguinte seria bem puxada.

DIA 4 – 14/01/2013 – Asunción - Purmamarca – 1.155 Km
Partimos as 05:30hs da manhã para cumprir a maior quilometragem diária desta viagem, 1.155 Km. Os trâmites de fronteira foram realizados rapidamente tanto na aduana paraguaia como na argentina. Seguimos pela Ruta 86 e depois pela Ruta 81, cruzando o chaco argentino sob um calor muito forte, longas retas, estradas vazias e animais ao logo da via. Este dia é para queimar pneu e gasolina, nada mais em minha opinião. Chegamos a Purmamarca às 19:00hs, um grande alívio; ali começa a parte interessante, com visuais belíssimos, montanhas, vilarejos pitorescos e comida típica. Se tivéssemos mais tempo levaria os amigos para conhecer Tilcara e Humauaca, mas o cansaço era grande e a miragem de uma cerveja gelada já incomodava a visão quase noturna.
Uma informação importante deste trecho é que o posto de gasolina de Volcán, onde eu costumava sempre abastecer, não funciona mais. Só o espectro da bomba ainda está lá, ereto. Então, se você chegou ali perto de Purmamarca sem gasolina suficiente para seguir no outro dia, a única saída é ir até Tilcara, distante 27 Km, o que fizemos no dia seguinte.
O Roger e o Clóvis, marinheiros de primeira viagem, já mascavam folhas de coca que podem ser compradas em diversos locais naquela região.
Hospedamo-nos no Hostal La Posta de Purmamarca, no alto da cidade, pelo equivalente no dia a US$ 130,00 para os três e à noite já tomávamos uma cerveja pela cidade, em botecos diferentes. No final da noite compramos cerveja em um kiosko e fomos bater papo na varanda do nosso quarto na pousada, com as motos estacionadas bem ali. É uma sensação muito boa. Caía uma chuva fina refrescante...

DIA 5 – 15/01/2013 – Purmamarca – San Pedro de Atacama – 481 Km
Acordamos cedo e depois do café da manhã saímos para uma caminhada na cidade. Sempre vale a pensa visitar a feira de artesanato na praça e encontrar os mochileiros, viajantes de vários países, vários idiomas diferentes sendo ouvidos por todos os lados. Para os outros 2 membros da viagem aquela região adjacente ao Atacama era novidade. Assim, foi muito bom vê-los extasiados e felizes. Eu só dizia para segurarem a emoção, pois o dia seria de muitas surpresas para eles.
Preparamos o equipamento, fomos a Tilcara abastecer as motos, voltamos a Purmamarca e seguimos viagem para o Atacama.
Este trecho entre Purmamarca e San Pedro é especial, muitos contrastes, muitas coisas belas a ver, pilotagem deliciosa.
Subimos a Cuesta del Lipán curtindo cada curva. Lá no alto uma chuva caiu por alguns minutos. Percebi que minha nova roupa de viagem (conjunto Durban da Alpinestar) não é lá estas coisas: se não estiver usando o forro, a água passa direto para o seu corpo. É no forro, e somente lá, que está o goretex. Naquele momento senti saudades da minha jaqueta genérica. Ao descer a Cuesta del Lipán a chuva foi diminuindo até desaparecer totalmente e o céu azul, presença constante no deserto, voltou a ser o nosso teto. Numa parada para fotos eu troquei a luva molhada por uma sequinha: deliciosa sensação de conforto. Tenho viajado levando 3 pares de luvas, justamente para estas ocasiões.
Logo se chega às Salinas Grandes. Ao contrário de outras vezes que ali estive, desta vez o acesso ao salar estava fechado, pois havia uma camada de água de uns 5 cm. Água salgadíssima, claro. Porém  um pouco mais à frente achamos uma entrada e descemos ao salar, pelo menos para registrar algumas fotos com as motos em cima daquela imensidão branca.
Pouco mais à frente avistamos um conjunto de cactus gigantes, distantes cerca de 200 metros da estrada asfaltada. O Clóvis logo foi entrando com sua V-Strom, balançando, derrapando, acelerando por entre os pequenos arbustos e na areia fofa. Chegou aos cactus e acenou para que nos juntássemos a ele. Aproveitei que ali estava com outros 2 amigos – que poderiam rebocar a minha moto se necessário - e fui até lá, num off-road muito bom. Das outras vezes que passei por ali não me arriscava a ficar atolado lá no meio do deserto, sozinho sem ter alguém pra me ajudar a sair dali. O Clóvis, quase um profissional de enduro, nos ajudou a colocar as motos de volta na estrada.
No posto de gasolina de Susques, novamente não havia gasolina. É comum isto acontecer. Felizmente estávamos bem abastecidos e aquilo não foi um problema.
Na aduana os trâmites de saída da Argentina demoraram um pouco, mas vela a pena mencionar novamente que a estrutura do Paso de Jama melhorou muito. Agora tem posto de gasolina, hospedagem, etc. quando passei pela primeira vez em 2003 era somente um casebre de pedra e mais nada de apoio ao viajante. Ali fizemos um lanche no YPF e seguimos para o Chile. A aduana chilena é localizada em San Pedro de Atacama e é somente lá que temos que fazer os trâmites de entrada no Chile.
A viagem segue ainda muito emocionante, com boas estradas, a imensidão do deserto dos dois lados da via. Paramos no Salar de Tara e entramos uns 400 metros na areia do deserto para ir até uma pedra muito alta e estreita, que aponta para o céu e se destaca na paisagem. Após tirarmos algumas fotos junto à pedra, aproveitamos o terreno e realizamos algumas manobras com a moto como um treinamento off-road... 3 crianças brincando com suas motos.
A descida até San Pedro, com o vulcão Licancábur à direita, também foi um show, com o sol batendo de frente já se pondo no horizonte.
O trâmite de imigração e aduana em São Pedro é tranqüilo, mas normalmente tem fila por ali e o funcionário da aduana sempre quer dar uma olhada na sua bagagem à procura de alimentos ou outras mercadorias proibidas.
Ingressamos em San Pedro com um sentimento muito bom. Ficaríamos na cidade por 3 noites curtindo tudo o que ela oferece, e não é pouca coisa. O Roger e o Clóvis, primeira vez em San Pedro, demoraram a entender como a cidade funciona e se espantaram com o tipo de construção de adobe que predomina. Seguimos direto para o Residencial Don Raul e pelo equivalente a US$ 60,00 pegamos uma acomodação para os três, com banho privado e, pedido especial meu, com as motos estacionadas na porta. Ficamos no quarto número 5; este é muito legal pois além das motos estacionadas na porta, tínhamos uma mesa na rua praticamente só pra nós. Ali tomamos nossas cervejas, conversamos no final da noite e usarmos wi-fi, etc.
Nesta primeira noite fomos jantar no Adobe Café, sempre agradável com a fogueira no centro do pátio.
Nos restaurantes a cerveja long neck custa em média 2.500 pesos chilenos, o que equivale, arredondando, a US$ 5,00. Em uma das mercearias autorizadas a comercializar bebidas alcoólicas (nem todas são), há várias marcas boas de cerveja por 1.000 a garrafa. Dessa forma é claro que comprávamos a cerveja ali e íamos para nossa mesa particular no Don Raul para desfrutar tranquilamente.

DIA 6 e DIA 7 – 16/01/2013 e 17/01/2013 – San Pedro de Atacama – 285 Km
Nos dois dias que se seguiram ficamos em San Pedro e arredores. Fomos de moto às maravilhosas Lagunas Miscanti e Miñiques e no retorno almoçamos em Socaire. Também de moto, no retorno de Socaire, desviamos e fomos direto ao Valle de la Luna. Todo este percurso soma uns 285 Km sendo que aproximadamente 60 Km são de estradas de terra ou rípio.
Contratamos o passeio aos Gêiseres del Tatio e lá me fui pela quinta vez àquele campo maravilhoso, acordando às 4 da manhã para embarcar na van. Naquela tarde fomos à Laguna Cejar, de moto, 60 Km ida e volta. Esta laguna é tão salgada (e fria) que o corpo não afunda, e essa é a curtição do local.
Em San Pedro agora tem um caixa automático bancário fixo (cajero automático) e fica fácil sacar dinheiro de sua conta no Brasil com seu cartão. Na Calle Toconao estão as casas de câmbio e também o único posto de gasolina da cidade.
Visitamos a feira permanente de artesanato, caminhamos muito pela cidade – apesar da poeira – e comemos em diferentes restaurantes. Tem pra todos os gostos e bolsos.

DIA 8 – 18/01/2013 – San Pedro de Atacama – Antofagasta – 450 Km
Partimos tranquilamente de San Pedro, seguimos até Chuquicamata para algumas fotos da mina e fomos até Tocopilla, viajando pelas imensas retas do deserto. Apesar de acrescentar alguns quilômetros a mais, eu sempre gosto de fazer este caminho (pela Ruta 24 e depois pela Ruta 1) para chegar a Antofagasta pois uma boa parte é feita beirando o Oceano Pacífico. Há outro caminho (Ruta 25), que fiz em 2003, mas é puro deserto até Antofagasta.
Almoçamos em um restaurante na beira da estrada que cruza Tocopilla, na frente do posto Shell. É onde almoça o povo local, então é o nosso lugar.
Pela Ruta 1 fomos apreciando o Oceano Pacífico até a La Portada (uma pedra imensa no mar com um furo no centro). Paramos ali para algumas fotos e logo chegamos a Antofagasta, onde nos hospedamos no Hotel Ibis pelo equivalente a US$ 120,00 para os três. Em Antofagasta, aproveitando se tratar de uma cidade grande, o Clóvis trocou o óleo da V-Strom.

DIA 9 – 19/01/2013 – Antofagasta – La Serena – 920 Km
Partimos para visitar a escultura Mano del Desierto, uma escultura gigante que sai da areia do deserto às margens da Ruta 5 – Panamericana. Tiradas as fotos e tendo já aproveitado o local, o Clóvis pegou sua V-Strom e resolveu subir no pico mais alto que fica atrás da escultura. Foi tão longe que ficou apenas um ponto preto na lente da filmadora. Eu e o Roger resolvemos não arriscar com nossos 300 quilos de equipamento. Depois nos arrependemos.
Pela Ruta 5, saindo da Mano del Desierto, retornamos ao norte por 18 Km, em direção a Antofagasta, para seguir pela Ruta Semicostanera, que é um caminho alternativo à Ruta 5 para ir ao sul. Prefiro este caminho pois é de pouquíssimo movimento e também tem o visual do oceano em Paposo, espetacular. Seguir pela Ruta 5 é puro deserto, muitos caminhões, etc.
Passamos por Paposo e abastecemos as motos em Taltal. Por onde passávamos as pessoas nos perguntavam se estávamos competindo no Rally Dakar, pois a competição estava apenas 1 dia à nossa frente, bem naquela região. É ingenuidade das pessoas achar que com aqueles trambolhos de moto nós estaríamos competindo, mas dávamos boas risadas com a situação.
Abastecemos novamente em Chañaral, almoçamos em Copiapó e aceleramos forte na Ruta 5... o resultado foi que fui parado pelos Carabineros de Chile. Os outros 2 estavam na minha frente e devem ter passado tão rápido pelos guardas que eles não conseguiram pará-los, então sobrou pra mim. Pelo GPS eu estava a 150 Km/h (no velocímetro isso é quase 170Km/h). O guarda me parou e foi logo dizendo que eu vinha a 136 Km/h e que, como aquela região era de trânsito a uma máxima de 100 Km/h, minha infração daria multa e apreensão da minha habilitação. Nem tirei o capacete, pedi desculpas e fiquei ali, por uns misericordiosos 30 segundos, em silêncio. Após conferir minha documentação e tomar ciência que se tratava de um brasileiro querendo testar a potência da moto em local impróprio, o guarda trocou algumas palavras com seu parceiro e decidiu me liberar. Minha conclusão é que o cara ficou com preguiça de lidar comigo, me levar pra central, preencher uma papelada, ingressar numa burocracia enorme, tudo isso com o brazuca azucrinando seus ouvidos pra ser liberado. Então, como num passe de mágica, voltei livre, leve e solto para a rodovia e em mais uns 20 Kms, na entrada de Vallenar, encontrei com os outros 2 que estavam apreensivos mas dando risada depois que me viram na curva ao longe...
Em La Serena eu havia reservado hospedagem no Hostal Acrópolis (Avenida Francisco de Aguirre 312). Fiz isso pois La Serena é uma cidade cara ainda mais na alta temporada. O Hostal Acrópolis é um ótimo lugar para pernoitar (já tinha me hospedado ali em 2010 com a Michelle), tem quartos amplos para até 4 pessoas, com cozinha, frigobar, microondas, banheiro privado, estacionamento para as motos na porta do quarto. Custou o equivalente a US$ 90,00 para os três, sem café da manhã. Eu indico este lugar para motociclistas mas, aviso, o mau humor do senhor que é dono do local é um desafio. Claramente me parece que o cara está nos fazendo um favor ao nos “deixar” dormir ali. Então fica a dica, quanto menos contato com o proprietário, melhor. Fiquei solitariamente feliz no dia seguinte pois nossas motos deixaram fortes marcas de pneu no piso recém pintado do pátio. Não é um pensamento nobre, mas o cara merece. Vou deixar aqui os dados de contato com a Acrópolis: Sr. Luis Guillermo Rodriguez, e-mail memorodrigueza@gmail.com, site do hostal www.
Em La Serena, à noite, fomos a um bar na Avenida Costanera, direção de Coquimbo, de táxi, e comemos e bebemos à vontade. Gente jovem na rua, pleno verão...

DIA 10 – 20/01/2013 – La Serena – Santiago – 475 Km
Viajamos de La Serena a Santiago fazendo rápidas paradas para comer (cachorro quente nos postos Copec). Entramos em Santiago e o GPS nos levou direto ao Hotel Riviera (Miraflores 106, Centro) onde ficamos por US$ 100,00 para os três. Este hotel tem boa localização, perto do metrô, tem garagem fechada para as motos à meia quadra de distância, enfim uma boa opção de hospedagem em Santiago.
Rapidamente tomamos um banho e fomos ver a cerimônia de encerramento do Rally Dakar, que estava acontecendo a apenas 3 quadras do hotel. Infelizmente não vimos o desfile das motos, mas ver os caminhões já valeu a pena. Compramos alguns produtos do Dakar (adesivos, camisetas) e fomos de metrô para o bairro Bella Vista para jantar e beber alguma coisa.
Santiago é fantástica, muito bonita e o bairro Bella Vista concentra dezenas de restaurantes e bares. Dessa forma penso que é um bom local para relaxar, ouvir música, beber, comer e ver gente de todo o mundo.

DIA 11 – 21/01/2013 – Santiago – Temuco – 680 Km
Eu havia agendado pela internet, desde setembro de 2012, o serviço de troca de pneu e óleo na Ubike Motos (Calle Lira 754 – www.ubikemotos.cl).
O comércio de Santiago só abre às 10:00hs, não adianta chegar mais cedo. Cheguei à frente da loja 10 minutos antes e fiquei esperando. Ao abrir falei com o chefe da oficina e o cara me disse que o serviço ficaria pronto às 18:00hs. Depois do susto, expliquei a ele que eu tinha que viajar ainda naquela manhã até Temuco e que esperar até às 18:00hs era impossível pra mim. Ele não estava dando nenhuma importância pra minha pressa e disse que não poderia passar meu serviço na frente dos outros que já estavam com as motos na oficina. Peguei as cópias do e-mail que eu havia trocado com eles e, praticamente esfregando na cara do sujeito, disse que, se era pra considerar fila, eu já estava nela desde setembro de 2012 pois já havia agendado o serviço, combinado inclusive o preço dos produtos e da mão de obra. Lá se foi o cara pra dentro da oficina e alguns minutos depois voltou e levou minha moto pra dentro. Apenas 1 hora depois minha moto estava com um Continental TKC 80 novinho na traseira e óleo trocado (Motul 5100). Enquanto isso o Roger foi trocar o óleo da BMW em outra oficina próxima dali (a Ubike Motos só atende motos Yamaha).
Fomos almoçar no Mercado Central de Santiago. Paramos as motos no estacionamento do supermercado que fica ao lado e entramos no universo de mil odores do mercado.
Comemos uma Centolla inteirinha (caranguejo gigante, king crab). Delicioso. Era a nossa despedida. Dali os meus 2 parceiros iriam tomar o rumo de volta pra casa. Minha viagem não estava nem na metade ainda. Despedimo-nos no estacionamento do supermercado. Claro que fica aquele gosto triste de despedida, a sensação de que poderíamos viajar mais juntos, seguir em frente. Tínhamos passado ótimos momentos e tudo havia dado certo. Nenhum desentendimento (coisa rara), muitas alegrias.
Fui rápido para a minha moto sem olhar pra trás e saí buzinando ao subir a rampa que dá acesso à rua. Essa foi a última visão que tive deles. Boa viagem pra todo mundo! Parti então para 8 dias de viagem solo, para a estrada mais bonita da América do Sul em minha opinião: a Carretera Austral !
Eram 2 horas da tarde e eu tinha 680 Km para rodar até Temuco. Demorou para me desvencilhar do trânsito de Santiago. Peguei a Panamericana e viajei tranquilamente, fazendo poucas paradas. O clima estava excelente. Cheguei a Temuco por volta das 19:00hs e já na entrada da cidade havia vários moradores em seus carros na beira da estrada com placas de “hospedaje”. Parei em um deles e em mais 5 minutos estava acomodado em uma casa de família, quarto bem simples mas amplo só pra mim, banheiro coletivo, por US$ 37,00. A dona da casa preparou um frango com arroz e salada por US$ 5,00. Uma coca-cola de cortesia completava o jantar. Fechei com ela também o café da manhã por US$ 3,00. Coloquei a internet em dia, li um pouco do livro que tinha levado (Uma confraria de tolos – John Kennedy Toole) e fui dormir.

DIA 12 – 22/01/2013 – Temuco – Hornopirén – 474 Km
Segui pela Panamericana até Puerto Montt tranquilamente, chegando as 12:00 hs. Circulei um pouco pela cidade e pensei: ficar aqui nesta cidade urbana em que já estive diversas vezes ou seguir, cruzar de balsa, rodar um pouco no rípio, enfim, devo entrar agora na maravilhosa curtição da Carretera Austral? Sim, lógico. Saquei uns pesos chilenos no banco e fui à sede da Naviera Austral verificar os trechos de balsa que teria naquele dia e no dia seguinte, que eram 2: de La Arena até Puelche e depois de Hornopirén a Caleta Gonzalo. Informaram que de La Arena a Puelche o embarque é por ordem de chegada e que de Hornopirén a Caleta Gonzalo o transbordador estava lotado mas que, em se tratando de moto, era só chegar ao porto mais cedo que o embarque seria efetuado. Mesmo inseguro com esta situação, não havia o que fazer. Segui para La Arena já pela Carretera Austral, que começa efetivamente em Puerto Montt, em asfalto. Depois de uns 30 Km começa o rípio e aí tem 10 Km muito ruins, sempre em obras... mas é muito bom andar de moto ali. Antes de ingressar no rípio eu baixei a pressão dos pneus. Coloquei 20psi na dianteira e 24psi na traseira. Sempre aconselho todos a fazer isso. A moto ganha em segurança, dirigibilidade, agarre, a trepidação no guidão desaparece, o conforto de pilotagem é excelente.
Ingressei na balsa em La Arena (6.900 pesos chilenos) sem dificuldade e a viagem até Puelche levou 1 hora. Sol forte, visual tremendo. Ao desembarcar em Puelche já acelerei no rípio, me divertindo até Hornopirén, 60 Km à frente, trecho que fiz em 1 hora. O rípio ali é um pouco solto e havia muitas obras de manutenção ou talvez preparo para pavimentação, o que sempre significa desvios, bloqueios que tornam a estrada mais estreita, etc. Mas nenhum perigo a não ser pela poeira extremamente densa que levantava da pista seca com a passagem de outros veículo ou, pior, com o veículo que vai à frente. Cheguei a Hornopirén e fui direto ao porto onde confirmei com o pessoal da Naviera Austral que meu embarque era “quase” certo no dia seguinte, desde que eu chegasse cedo ao porto (a balsa sai todo dias as 10:30hs e depois havia outra as 12:00hs). Ao lado da pequena casinha de madeira onde o pessoal da empresa de navegação se escondia do sol escaldante há uma pousada que fica em uma casa digna de filmes de assombração. Da janela uma senhora me avistou e, após acenar pra mim, desceu até a rua e ofereceu a hospedagem. Acabei aceitando e fiquei ali (Hospedaje El Viajero, frente ao porto – US$ 15,00), no segundo andar, onde quase batia com a cabeça no teto. Pra tomar banho foi um exercício acrobático dado o tamanho e altura do banheiro. Mas por US$ 15,00 tá valendo a pena.
A moto ficou estacionada na frente da pousada, na rua mesmo, com GPS instalado e tudo mais.
Ela estava completamente cinza pela poeira da estrada. Eu estava completamente cinza com a poeira da estrada. Só mesmo aquela pousada mal assombrada para me aceitar como hóspede. Naquela tarde saí para conhecer a cidade que fica em uma região muito bonita. A entrada do mar onde está o porto é fantástica, com fiordes do outro lado da margem. Há vários passeios para se fazer ali, caso a estadia fosse prolongada. No “centro” da cidade, para onde fui a pé, com um sol forte na cabeça, tem supermercado, restaurante (onde comi um delicioso salmão com acompanhamentos por US$ 10,00) e no centro de atendimento ao turista tem wi-fi. Há outras opções de hospedagem por ali; muito legal esta cidadezinha.
A intenção era fazer a Carretera Austral desde seu início em Puerto Montt. Na primeira vez que fui à Carretera Austral eu entrei direto em Chaitén vindo de balsa desde Castro. Na segunda vez eu entrei pelo Paso Futaleufú/Villa Santa Lucia. Esta parte desde Puerto Montt até Chaitén era novidade pra mim e não estava decepcionando.

DIA 13 – 23/01/2013 – Hornopirén – Chaitén – 70 Km
Às 9:30hs estacionei a moto na frente da Naviera Austral e rapidamente comprei as passagens para a balsa (7.500 pesos chilenos para a moto e 5.000 para o piloto). Ali encontrei outros motociclistas, sendo 2 chilenos e 1 casal canadense. Um dos chilenos, chamado Antonio, acabou virando meu amigo e viajamos alguns dias juntos. Estava de BMW 650 e era sua primeira viagem de moto. Havia levado um tombo no dia anterior e estava preocupado com a pilotagem no rípio. Dei a ele algumas dicas de pilotagem e, segundo me relatou mais tarde, tudo melhorou e conseguiu, dali pra frente, andar no rípio sem maiores sustos e mais rápido.
A balsa zarpou às 10:30hs para um percurso de 4 horas até Leptepu. Neste trecho fiquei junto da moto, no sol forte, apreciando as montanhas nevadas que cercavam aquela parte de mar. Na balsa tem sanduíches e refrigerantes. Comi um sanduíche e também alguns biscoitos que levava na bagagem. Conversei muito com os chilenos e com os canadenses. A moto dos canadenses, uma DL 650 V-Strom, estava impecável e, quando perguntei ao piloto como podia manter a moto daquele jeito, muito limpa, a resposta foi “sou fanático”. Essa informação será importante para o relato mais adiante...
Em Leptepu a balsa descarrega todos os passageiros e veículos. Todos tem que seguir 10 Km de rípio até Fiordo Largo e embarcar direto em nova balsa que vai, em um percurso de 1 hora, até Caleta Gonzalo, destino final. Este trecho está incluído naquela passagem comprada lá em Hornopirén. Chegando em Caleta Gonzalo, há ainda um percurso de 60 Km até Chaitén, todo em rípio, às vezes um pouco solto por causa das obras e com desvios. Combinamos de esperar todos os carros seguirem na frente com o objetivo de evitar a poeira que estava cegando completamente quem anda muito próximo dos veículos. Ficamos ali no porto de Caleta Gonzalo, por 15 minutos, batendo papo e aguardando os carros abrirem vantagem. Todos menos o casal canadense, que desembarcou e seguiu direto, em meio aos carros e caminhões.
Partimos no rípio andando muito rápido. Eu fazia uma média de 70 Km/h, muito boa em minha opinião dadas as condições da estrada. Logo encontrei os canadenses e ultrapassei. Cheguei em Chaitén e já me esperava um dos chilenos, que andava de KTM 990 e de chinelo ! Aguardamos pelos outros motociclistas em frente à casinha de informações turísticas, aproveitando para colher algumas informações sobre a cidade. Quase 40 minutos depois estávamos preocupados. Pensamos em retornar um pouco pela estrada ver se os outros tinham problemas mas resolvemos esperar. Alguns minutos mais e aparece o chileno de BMW, tudo bem com ele, mas já tirou o capacete relatando que o casal canadense tinha ido ao chão. E lá vêm eles, com a V-Strom danificada na sua lateral direita, piscas pendurados, bauleto lateral torto, pára-brisa bem arranhado. Ao tirar o capacete, o canadense olhou pra mim e disse “... not so clean anymore ! ” ou algo como “agora não está tão limpa”. Como era de se esperar, eles estavam bem desanimados, com a moral baixa; foram para o hotel que fica bem na frente da casa de informações e se acomodaram. Não os encontrei mais.
Meu plano naquele dia era seguir até La Junta, o que daria ainda uns 150 Km, sendo 102 de rípio. Mas eu estava surpreso com a condição de Chaitén. Esperava encontrá-la ainda sob efeito das cinzas do vulcão que praticamente a soterrou em 2008, mas o que vi foi uma cidade que se recuperou e funciona completamente. Várias opções de hospedagem e alimentação estão disponíveis, inclusive o posto de gasolina Copec. Resolvi ficar ali e me hospedei na Hosteria Llanos pelo equivalente a US$ 20,00. A noite fomos ao pub Rincón Bohemio e bebemos/comemos, um ambiente bem legal que vale a pena conhecer.

DIA 14 – 24/01/2013 – Chaitén – Coihaique – 438 Km
Após o café da manhã na Hosteria Llanos, seguimos pela Carretera Austral, eu e Antonio. Há 47 Km de asfalto e depois é rípio até o entroncamento para Puerto Cisnes o que totaliza, no dia, 232 Km de rípio de boa qualidade, na maior parte bem firme. Muita poeira, é certo, pois o clima continuava seco, sol forte, céu azul. Sempre tenho sorte na Carretera Austral, nunca peguei chuva forte por lá, o que é uma raridade.
Apreciando a paisagem, tirando muitas fotos, seguimos viagem, eu na frente e o chileno bem mais atrás, mas nos encontrávamos nas paradas.
Em La Junta abastecemos as motos e almoçamos no Mi Casa de Té, menu completo por 7.500 pesos chilenos, muito justo. Descansamos um pouco à sombra na frente do restaurante. Seguimos até Puyuhuapi onde me despedi do Antonio, que ficou ali pra realizar alguns passeios. O Antonio virou uma daquelas pessoas das quais guardamos muito carinho e que, como sempre, há promessas de visitar um ao outro em suas respectivas cidades/países.
Subi o Parque Queulat, com suas curvas bem fechadas e lá em cima saquei algumas fotos, apesar da briga com os mosquitos gigantes que não davam trégua.
Desci o Queulat e lá embaixo, depois da última descida muito íngreme, começou o asfalto que vai até Coihaique e também até Cerro Castillo.
Pilotei até Coihaique muito rápido; o sol começava a se pôr e a vontade de chegar a uma pousada era grande. A poeira cobria a moto e a mim, completamente. A coisa estava feia.
Em Coihaique me hospedei no Hostal Lincarayen pelo equivalente a US$ 50,00. À noite fui ao Piele Roja Pub para tomar umas cervejas e jantar.

DIA 15 – 25/01/2013 – Coihaique – Puerto Tranquilo – 210 Km
Até Cerro Castillo a estrada está asfaltada. Passei direto por aquele vilarejo (desta vez não parei para comer no ônibus-restaurante) e entrei novamente no rípio indo até Puerto Tranquilo.
Esta parte da Carretera Austral é belíssima o que aumenta o número de paradas para apreciar a paisagem, sacar fotos e filmar.
Em Puerto Tranquilo fui direto almoçar no Restaurante El Lago onde falei com o pessoal no Brasil pelo Skype e depois pensei no que fazer. Eram ainda 2 horas da tarde e o sol estava muito forte. A preguiça de pilotar bateu então fui para o Hostal Costanera (US$ 45,00). Esperei o sol baixar um pouco lendo meu livro companheiro de momentos ociosos.
No final da tarde saí para perambular pela cidade, apreciar o lago General Carrera com o pessoal indo e voltando de barco para visitar as Capillas de Mármol. Ao seguir para tomar um café,  encontrei um casal de brasileiros de Curitiba (Mauro e Rosiane) que estavam viajando de carro. Ele já conhecia muito bem a região então conversamos bastante, inclusive sobre sua aventura de Land Rover ao Alaska.

DIA 16 – 26/01/2013 – Puerto Tranquilo – Chile Chico – 170 Km.
Parti junto com o casal de Curitiba e fomos nos encontrando na estrada nas paradas para fotografias ou bloqueios nas obras de manutenção. Meu plano era ir até Caleta Tortel mas, na noite anterior, conversando com habitantes do local e com o Mauro sobre o trajeto até lá, concluí que não valia a pena. O ideal seria haver uma saída habilitada para a Argentina lá em Villa O’Higgins. Não havendo, é necessário ir e voltar pelo mesmo trajeto, cerca de 400 Km no total em rípio bem ruim.
Parei no entroncamento que indica à esquerda Chile Chico e à direita Cochrane (onde estive em 2008). Tomei o rumo da esquerda e segui bordeando o Lago General Carrera pela maior parte do tempo. Tudo rípio, de diversas dificuldades, mas nada perigoso. A poeira era o maior inimigo, pois ao encontrar outro veículo a visibilidade era muito baixa. Esta estrada que segue pelo lago é maravilhosa, favorece o visual completo do lago azul intenso (assim como o céu), que é cercado por montanhas nevadas. A estrada sobe e desce, muitas vezes com pendentes fortes; é necessário atenção ao percorrê-la.
Cheguei a Chile Chico às 15:00hs e o sol havia deixado a cidade deserta. Ninguém na rua a não ser uns ciclistas que me pararam pedindo informações sobre o trecho que eu havia acabado de vencer.
Fui pra o Hotel Austral (US$ 50,00) e lá esperei o sol baixar para depois dar uma volta pela cidade, comer alguma coisa e relaxar na margem do lago.

DIA 17 – 27/01/2013 – Chile Chico – Esquel – 620 Km
Parti para a aduana chilena que abre às 8:00hs. Fui o primeiro a ser atendido. Poucos quilômetros depois fiz os trâmites da Argentina, onde o pessoal da aduana resolveu dar uma geral no meu equipamento. Ali a paisagem já muda e como em um passe de mágica o deserto da Patagônia aparece e com ele o vento miserável e insistente.
Segui pela rodovia asfaltada e entrei à esquerda para Rio Mayo. O vento me açoitava pela esquerda. Adaptei a pilotagem, utilizei minha reserva de paciência e segui ali, completamente sozinho naquela imensidão da Patagônia. Nenhum veículo cruzou por mim. As coisas pioraram um pouco quando acabou o asfalto, pois os 39 Km finais para chegar a Rio Mayo ainda estão em obras para um futuro (incerto) asfaltamento. E era rípio muito ruim. Às vezes muito solto e às vezes muito duro, com pedras pontudas ameaçadoras. E ainda o vento lateral, muito chato. Fui avançando devagar por ali. Por vezes fui para a nova pista que estão construindo do lado da original pois lá estava, em alguns trechos, “menos ruim”. A Ruta 40 é isso aí, lá no sul, rípio e vento.
Chequei em Rio Mayo e parei no posto de gasolina. Abasteci a moto, estacionei estrategicamente para que o vento não a derrubasse e entrei na loja de conveniência para comer um tostado (mixto-quente) com refrigerante. A notícia na TV era a tragédia de Santa Maria, na boate Kiss. A velhinha que estava no caixa olhava a televisão com olhos arregalados.
Como os principais trechos de rípio haviam sido deixados pra trás, ali no posto utilizei o meu mini compressor e devolvi as 36 e 40 libras aos meus pneus dianteiro e traseiro, respectivamente.
Seguia apanhando do vento e solitário no imenso deserto. Cheguei a Governador Costa onde almocei e abasteci a moto depois de enfrentar longa fila no YPF. Mais alguns safanões do vento e parei em Tecka para tomar alguma coisa e aliviar a dor no pescoço. Cheguei no final da tarde em Esquel, uma linda paisagem com sol forte, e fui direto para o Hotel Sur Sur (390 pesos argentinos, aproximadamente US$ 80,00 quarto duplo).
O dono do hotel é o Sr. Hugo, que também é viajante de moto. Sua BMW RT está estacionada na recepção do hotel. Na sala do café da manhã se pode apreciar muitas fotografias de suas viagens.

DIA 18 e DIA 19 – 28 e 29/01/2013 - Esquel – 0 Km
Esquel é uma cidade relativamente bem estruturada naquela região. Tem todos os serviços e bons restaurantes, bares, etc. E tem também um aeroporto que recebe voos diários de Buenos Aires. Foi ali que eu e Michelle combinamos de nos encontrar no dia 29/01/2013.
Passei 2 dias passeando pela cidade. Apesar de não gostar muito, mandei lavar a moto pois não havia condições da Michelle dividir espaço com toda aquela poeira. Foram dias de descanso, leitura, cerveja e comida.
No dia 29 às 15:15 hs pontualmente o avião da Austral Líneas Aereas pousou trazendo a Michelle. Embarcamos na moto e voltamos ao hotel em Esquel onde passamos mais uma noite.

DIA 20 – 30/01/2013 – Esquel – El Bolsón – 170 Km
Tínhamos alguns dias ainda livres para viajarmos tranquilamente pela Patagônia Argentina. Viajamos sem pressa por aquela região muito bonita, junto a montanhas, lagos, parques nacionais, vales verdes, etc.
Partimos de Esquel e, creio que depois de uns 40 Km no sentido norte da Ruta 40, havia um motociclista no acostamento, tomando água. Cumprimentei ao passar e, ao olhar com mais cuidado, percebi que era o Antonio, aquele chileno que me acompanhou na Carretera Austral alguns dias atrás. Foi muito legal encontrá-lo ali. Viajamos até El Bolsón juntos e almoçamos por lá. Ele seguiu a Villa la Angostura, onde combinamos de nos encontrar no dia seguinte. Eu e Michelle ficamos em El Bolsón, passeando pela cidade, fomos na cervejaria Otto Tipp, etc. Hospedamo-nos na Pousada Hamelin (US$ 55,00), que podemos indicar pois é bem localizada, tranquila, e a decoração do quarto que ficamos nos remeteu à idade média, no tempo das tavernas.

DIA 21 – 31/01/2013 - El Bolsón – Vila la Angostura – 214 Km
Seguimos viagem pela bela estrada que vai até Bariloche. Entramos na cidade pois queríamos almoçar no El Patacón, um restaurante que tínhamos já visitado em 2004, quando da nossa primeira viagem a Ushuaia e tínhamos gostado muito, apesar do preço, mas tem uma culinária patagônica especial. Antes do restaurante fomos à cafeteria giratória do Cerro Otto (informação inútil: uma volta completa da cafeteria leva 18m40s).
Margeando o Lago Nahuel Huapi fomos para Villa la Angostura e, por indicação do centro de informações turísticas da cidade, nos hospedamos na Pousada Belvedere (US$ 75,00), em um quarto maravilhoso com vista completa do lago. Apesar de ficar cerca de 3 Km do centro da cidade, esta pousada vale muito a pena pois o preço é razoável (dadas as atuais condições econômicas da Argentina, onde a inflação tem elevado exageradamente os preços, fazendo com que uma hospedagem de US$ 75,00/casal/café da manhã seja um ótimo achado), o atendimento é excelente, a vista é maravilhosa e um táxi até o centro custa quase nada.
No centro de Villa la Angostura encontramos com o Antonio. Jantamos juntos, tomamos algumas cervejas no Café Nueve Lunas, conversamos bastante e por fim, mais uma vez, nos despedimos, agora em definitivo.
Villa la Angostura foi uma grata surpresa pois está quase que completamente recuperada dos efeitos das cinzas vulcânicas que causaram um grande estrago por lá em 2010.

DIA 22 – 01/02/2013 - Villa la Angostura – San Martin de los Andes – 112 Km.
A Ruta dos Sete Lagos, que vai de Villa la Angostura até San Martin de los Andes, dispensa comentário sobre sua beleza. Continua de rípio em sua maior parte, mas o asfaltamento está avançando. O rípio ali é muito tranqüilo, sem qualquer susto. Como caía uma chuva fina, foram poucas as paradas para fotografias naquele bonito trecho de estrada.
Sobre as estradas, eu gostaria de registrar que me parece que resolveram batizar tudo de Ruta 40. Até este trecho que une Villa la Angostura a San Martin de los Andes agora é Ruta Nacional 40 (RN 40). E isso eu já havia percebido em outros locais desde Esquel. Apesar da estrada se bifurcar em diversos momentos, ambos os caminhos, apesar de seguirem direções diferentes, agora se chamam Ruta 40. Não busquei explicação pra isso.
Em San Martin fomos direto para a Pousada La Posta del Cazador (US$ 100,00). Era alta temporada e San Martin estava lotada e os preços elevados. Nesta pousada, que podemos recomendar, procurem pelo proprietário Nacho. É uma pessoa extraordinária que lhes dará um tratamento muito especial se comentarem que estão ali por minha recomendação. Além disso, fica muito bem localizada, a uma quadra do Lago Lacar e a três quadras dos principais restaurantes, bares, etc.

DIA 23 – 02/02/2013 – San Martin de los Andes – 0 Km
Ficamos pela cidade passeando, comprando artesanato, comendo e bebendo.

DIA 24 – 03/02/2013 – San Martin de los Andes – Villa Regina – 535 Km
Primeira parte do trecho de cruzamento do interior da Argentina. Muito calor, nenhum atrativo especial na estrada. Villa Regina também não oferece nada de interessante, apenas um ponto de parada para seguir viagem no dia seguinte.

DIA 25 – 04/02/2013 – Villa Regina – Azul – 853 Km
Muito vento a partir de Rio Colorado, tornando a viagem cansativa. Paramos em Bahia Blanca no posto Petrobras (já tradicional em nossas viagens), almoçamos ali e seguimos pela Ruta 3 até Azul, sempre com bastante vendo vindo do norte, batendo no lado esquerdo da moto.
Em Azul nos hospedamos novamente no Hotel Roma (US$ 50,00).

DIA 26 – 05/02/2013 – Azul – Punta del Este – 640 Km
Partimos bem cedo de Azul e pela Ruta 3 chegamos a Buenos Aires, diretamente na estação do Buquebus. Esperando pelo nosso barco, encontramos um motociclista de Florianópolis, o Ney, que estava com sua companheira e uma BMW GS1200. Estavam retornando de uma longa viagem pelo Chile.
Desembarcamos em Colonia del Sacramento e seguimos direto para Punta del Este. Hospedamo-nos no Hotel Milano por US$ 115,00, e isso é uma das opções mais baratas de hospedagem na cidade. Ficamos 2 noites em Punta del Este apenas descansando, passeando a pé, etc. A cidade estava lotada de turistas, trânsito intenso, restaurantes lotados.

DIA 27 – 06/02/2013 – Punta del Este – 0 Km

DIA 28 – 07/02/2013 – Punta del Este – Porto Alegre – 760 Km.
Foram 27 dias de viagem até aqui e nada de chuva. Já se iam quase 11.000 Km e apenas algumas gotas caíram na Cuesta del Lipán (depois de Purmamarca) e na Ruta dos Sete Lagos. Pois uma vez mais o incrível acontece. Bastou fazermos os trâmites de saída do Uruguay e rodarmos os primeiros quilômetros em terra brasileira e a chuva caiu forte, ensopando tudo. E essa chuva nos perseguiu até a porta da nossa casa em Florianópolis no dia seguinte...
Em Porto Alegre evitamos entrar na cidade. Dessa forma fomos direto para o Hotel Ibis que fica junto ao aeroporto (R$ 199,00).  

DIA 29 – 08/02/2013 – Porto Alegre – Florianópolis – 470 Km

BR 101 congestionada, era sexta-feira de carnaval. Seguimos pelo acostamento vários quilômetros. Somente assim para avançar um pouco naquele mundo de carros parados. Sob chuva vínhamos nos aproximando. Em Imbituba o temporal apertou mais ainda o que nos forçou a parar em um posto de gasolina. Como percebemos que não haveria trégua, subimos na moto e fizemos os últimos quilômetros debaixo de muita chuva.
Acabou a viagem. Iniciou o trabalho de secagem dos equipamentos, lavação da moto, um bom banho quente e um filme na TV com uma imensa bacia de pipoca... a chuva continuava regando o quintal, deixando um clima ótimo para um aconchego em nossa casa.

.