Bolívia, Peru e Atacama 2014
 

RELATO DE VIAGEM REALIZADA À BOLÍVIA, PERU, CHILE E ARGENTINA EM FEVEREIRO DE 2014, 8.919 KM, 22 DIAS, MOTO YAMAHA SUPER TENERE XT1200Z.

 
 

A Informações desencorajadoras sobre a Bolívia foram recolhidas na internet, com amigos e outros viajantes. Porém nada afastou a vontade de voltar pela terceira vez àquele país, agora para cruzá-lo de leste a oeste e, como objetivo principal, percorrer a famosa Ruta de La Muerte – Estrada da Morte.
Na sequência o plano incluía Peru e Atacama.

Com relação à motocicleta, utilizamos a mesma SUPER TENERE das últimas duas viagens. Utilizamos um pneu off-road na dianteira (Continental TKC80) e um de uso misto na traseira (Michelin Anakee 2), o que se mostrou um conjunto muito bom.



Quanto aos custos a conta fechou na média de US$ 165,00/dia. Vale salientar que para esta viagem havíamos decidido frequentar bons restaurantes com o objetivo de experimentar o que de melhor estes países têm na gastronomia. Levando em consideração os rankings do Trip Advisor, frequentamos os restaurantes top, o que elevou o custo da viagem.
O consumo de combustível ficou na casa dos 18 Km/l. Na altitude elevada vale notar que o desempenho da moto melhora muito, atingindo, em alguns pontos, até 25 Km/l, o que é muito bom em se tratando de uma big trail de 1200 cc.

Quanto ao GPS, os mapas gratuitos do Proyecto Mapear para Paraguay, Chile, Argentina e Uruguay não decepcionaram e me deram todas as informações necessárias (www.proyectomapear.com.ar), bem como o Bolirut (www.bolirut.com) com mapas da Bolívia e o Perut (www.perut.org) com mapas do Peru.
Com relação aos documentos: passaporte, documento de propriedade da motocicleta (em nome do condutor, sem restrição), comprovante internacional de vacinação contra febre amarela, seguro Carta-Verde Mercosul, seguro SOAPEX para o Chile (www.magallanes.cl). Os seguros mencionados não são requeridos nas fronteiras, mas podem ser solicitados pela polícia nas estradas; não deixe de contratá-los.

Com relação ao seguro SOAT (Seguro Obrigatório de Acidentes de Trânsito) na Bolívia, não é necessário para veículo estrangeiro que permaneça por até 30 dias no país, conforme Decreto Supremo 25785 – Artigo 4 (http://medios.economiayfinanzas.gob.bo/VPSF/documentos/Normas/DGSF/DS_25785.pdf). Nós não contratamos.
Com relação ao seguro SOAT no Peru, a legislação não é clara (http://www.soat.com.pe/reglamentacion.html), porém nos parece necessário. Contudo, não o contratamos e não tivemos problemas. Lembramos novamente que os seguros não são exigidos nas fronteiras, seja pela polícia de imigração ou pela aduana. Pode vir a ser exigido nas estradas, pelas polícias civil, rodoviária, etc. O SOAT no Peru pode ser contratado em cidades maiores como Puno, por exemplo.
É necessária uma observação específica sobre documentos e trâmites aduaneiros na Bolívia, especificamente na fronteira Corumbá/Puerto Quijarro: com relação à moto, após realizar o procedimento de imigração pessoal, deve-se ir à Aduana para emissão do documento chamado Declaración Jurada de Ingreso y Salida de Vehículos Turísticos. O procedimento foi rápido e o atendimento muito bom. Com a Declaración Jurada emitida, deve-ser ir até o posto da Polícia de Trânsito de Puerto Quijarro, distante cerca de 1 Km da Aduana, para emissão do documento chamado Orden de Traslado. Com estes dois documentos teoricamente estamos prontos para circular pela Bolívia sem preocupação. Muitos viajantes não emitem a Orden de Traslado e depois enfrentam problemas nas barreiras policiais, com provável exigência de propina, etc.

Abaixo segue relato dia a dia.
1º DIA – 07/02/2014 – Florianópolis SC – Maringá PR – 768 Km
Minha parceira de viagem Michelle tinha compromissos em Florianópolis no dia seguinte ao da partida. Dessa forma eu realizei os 2 primeiros dias de viagem sozinho, indo até Corumbá para encontrá-la no aeroporto.

De Florianópolis até Maringá foi uma viagem tumultuada, com muitos pedágios no Paraná, estradas em sua maioria de pista simples, calor e bastante trânsito. Cheguei ao destino por volta das 21:00 hs e fui direto para o Hotel Íbis. Havia ficado bastante tempo sem rodar de moto e então, logo no primeiro dia, fazer 768 Km foi um pouco dolorido, mas a adrenalina de iniciar uma nova viagem compensa tudo. Sabia que já no dia seguinte o ritmo estaria estabelecido sem problemas.

2º DIA – 08/02/2014 – Maringá PR – Aquidauana MS – 723 Km
Moto na estrada logo cedo. Sol se levantando nas minhas costas e a estrada toda pela frente. Sensação maravilhosa. As estradas naquela região não estão tão ruins, foi um dia muito bom neste sentido. Paisagens verdes e calor me acompanharam o dia inteiro.

Aquidauana se intitula Portal do Pantanal. A umidade se faz presente e aumenta a sensação de calor. Mas a paisagem e o ambiente pantaneiro alegra o dia. Cheguei a Aquidauana por volta das 16:00hs e o sol queimava sem dó. Hospedei-me no Hotel Portal Pantaneiro e estacionei a moto embaixo das árvores no pátio atrás do hotel, junto à piscina. Ali fiquei tomando umas cervejas, atualizando informações na internet e virando sopa dentro da piscina, pois a água estava muito quente, chegando a ser desagradável ao banho. Diversos sons da fauna pantaneira se juntam numa orquestra natural e bem divertida. Pequenos macacos aparecem nas árvores.



3º DIA – 09/02/2014 – Aquidauana MS – Corumbá MS – 320 Km
Percurso todo com a paisagem do Pantanal. Jacarés, gado, tuiuiús, veados, vegetação densa, tudo isso me acompanhou no trajeto até Corumbá. Uma quantidade enorme de radares está colocada naquela rodovia, fazendo com que a velocidade não superasse os 80 Km/h.



A ansiedade era pelo encontro com a Michelle. Ela tinha três voos a pegar desde Florianópolis até chegar a Corumbá. Caso um destes voos atrasasse nosso plano inicial iria por água abaixo. Mas deu tudo certo, todos os voos (Florianópolis/Campinas – Campinas/Campo Grande – Campo Grande/Corumbá) foram pontuais, chegando inclusive com 10 minutos de antecedência ao previsto em Corumbá. Obrigado Azul.

Com eu havia chegado mais cedo em Corumbá, todo o trâmite de minha imigração e a papelada da moto eu já havia feito na fronteira. Fiz todos os trâmites e entrei novamente no Brasil, sem problemas, passando direto pela fronteira, e fui até o aeroporto de Corumbá. Com a Michelle incorporada ao time, só restava o processo de imigração dela, realizado rapidamente.
Nossa primeira noite na Bolívia foi em Puerto Suarez. Cidade pequena, suja, empoeirada, com pequena estrutura de hotéis e restaurantes. Encontramos um restaurante “menos suspeito” ao redor da praça e jantamos pollo assado. Como detalhe, o nome do restaurante: CHIC. O Hotel Casa Real é a melhor opção de hospedagem na cidade, apesar de ser muito ruim. Talvez o melhor naquela fronteira seja fazer todos os trâmites, voltar a Corumbá e dormir/comer em Corumbá. No dia seguinte simplesmente passar pela fronteira, direto, sem apresentar qualquer documento.

4º DIA – 10/02/2014 – Puerto Suarez – Santa Cruz de La Sierra - 666 Km
Expectativa grande para o primeiro dia de viagem pela Bolívia. Longo trecho até Santa Cruz de La Sierra.
A paisagem continua no estilo pantaneiro. Muitos animais na pista. Calor. Estrada deserta. O sol escondia-se atrás das nuvens, o que era muito bom, amenizando o calor. A estrada (Ruta 4) estava muito boa, pavimentação em perfeito estado por quase 600 Km. Nas proximidades de Santa Cruz o asfalto está bem danificado, muitos buracos, poças, muito movimento de vans, pedestres e a típica sujeira da Bolívia. Em Pailon o bicho pega, a bagunça e a sujeira mostram sua força. Felizmente isso já nos 60 quilômetros finais do dia.



Necessário comentar sobre o abastecimento de combustível para estrangeiros na Bolívia: o preço da gasolina e outros combustíveis são tabelados pelo governo. É o mesmo preço em todo o país. Foi estabelecido um preço diferenciado para abastecimento de veículos estrangeiros. Estes preços podem ser consultados em http://www.anh.gob.bo/index.php?N=dre. O problema é que os postos não estão preparados tecnologicamente para alterar o preço do produto na bomba e emitir a respectiva fatura. Dessa forma, a fim de evitar sanções fiscais, a solução encontrada pelos postos foi simples: não abastecer veículos estrangeiros.



Tudo isso já era de nosso conhecimento. Ainda no Brasil nos equipamos com garrafas pet e já as levamos amarradas na bagagem. No primeiro abastecimento, em Roboré, adotamos a seguinte estratégia: chegamos como quem não sabe de nada, paramos a moto junto à bomba, abrimos o tanque e ficamos aguardando, com cara de paisagem, tolos mesmo. Em segundos um militar (nos postos de gasolina do interior da Bolívia é comum ter dois militares de plantão) se aproximou e cochichou no meu ouvido o seguinte: “... não podemos abastecer veículo estrangeiro, mas podemos te vender até 20 litros... coloque a moto fora do posto, fora do alcance das câmeras filmadoras...”. Tudo acontecendo conforme prevíamos. Estacionei a moto ao lado do posto, peguei as garrafas pet que no total tinham capacidade para apenas 6 litros e, em 3 cargas, abasteci o tanque e ainda levei um pouco de reserva. Paguei o preço de gasolina normal dos bolivianos (B$ 3,74/l, o que significa algo em torno de US$ 0,50/litro). Esta sistemática de estacionar a moto fora do posto e abastecer via garrafas pet (ou bidón se você tiver um) se repetiu em todos os postos de gasolina que frequentamos na Bolívia. E assim fomos viajando por aquele país. Apenas um posto, nos arredores de La Paz, recusou-se terminantemente a abastecer, mesmo no esquema das garrafas pet. Mas estávamos com meio tanque e não houve problemas.



Chegamos a Santa Cruz e encaramos o trânsito infernal comum nas grandes cidades da Bolívia. O GPS nos levou sem erro ao Apart Hotel Premium Suítes (S 17 45.381 W 63 12.002). Em seguida fomos a uma região da cidade onde se concentram bares e restaurantes e ali bebemos a primeira cerveja na Bolívia, uma Huari bem gelada.

5º DIA – 11/02/2014 – Santa Cruz de La Sierra – Cochabamba – 483 Km
Apesar da curta distância, este trajeto foi bastante complicado para cumprir.
O pavimento da Ruta 4 nos 160 Kms finais antes de Cochabamba está em estado muito ruim, com vários trechos em pedra (apesar de fixas, são muito escorregadias), buracos e um movimento descomunal de caminhões pesados. Houve trechos da pista em que tivemos que andar em primeira marcha, escolhendo onde passar com a moto. Junto a isso está o trecho em subida da serra até 3.600 metros de altitude e depois a descida até Cochabamba que está a 2.800 metros de altitude. Não sendo suficiente toda essa situação, a chuva nos acompanhou praticamente durante todo o dia e, ainda, o motorista boliviano, agressivo ao extremo: qualquer metro de pista que ele consiga ganhar de você ele vai brigar, não há cortesia no trânsito com os estrangeiros, é uma guerra pela conquista de espaço.
Novamente o GPS colaborou e nos deixou na frente do Apart Hotel Violettas (S 17 23.262 W 66 9.249), que recomendamos, em ótima localização em Cochabamba. Jantamos no Restaurante Páprika, também recomendado. Antes de sairmos para jantar, penduramos todas as nossas roupas espalhadas pelo apartamento, pois estavam encharcadas e muito sujas.

6º DIA – 12/02/2014 – Cochabamba – La Paz – 380 Km
Os 380 Km em direção a La Paz começam com uma bela subida de serra, até chegar ao altiplano, onde a altitude mínima de 4.000 km será permanente. Esta subida é por uma paisagem bonita, bom asfalto, muitas curvas e algum movimento de caminhões. Se respeitarmos a sinalização de proibido ultrapassar é certo que teremos várias horas de viagem. Mas no trecho não encontramos policiamento então fomos ultrapassando os caminhões tranquilamente. Chuva e frio no alto da serra. No Altiplano a estrada continua boa, com mais retas. Nos últimos quilômetros antes de La Paz, na rodovia La Paz – Oruro, vários desvios por causa da obra de duplicação da estrada.



Chegamos nos arredores de La Paz, em El Alto, com movimento intenso de vans e automóveis, uma loucura. Novamente o trabalho de manobrar a moto, grande, pesada com toda a carga e garupa, no meio daquela confusão. Quando o motor reclamou e esquentou pela décima vez, inventamos um atalho fora do trajeto recomendado pelo GPS e acabamos nos saindo bem, na estrada que desce de El Alto até La Paz. Dali se tem uma visão completa do buraco que é La Paz. Uma grande panela com milhares de construções sem reboco, tijolo aparente, uma cidade alaranjada até o horizonte.



Chegar até o Hotel Sagarnaga (S 16 29.840 W 68 8.294) foi uma aventura à parte. Depois de nos embrenharmos no centro de La Paz, atendendo o direcionamento do GPS, começamos a descer a Rua Sagarnaga, onde fica o hotel, uma ladeira estreita, mão única e muito íngreme. Acabei passando da entrada da garagem do hotel e, uma fez feito isso, ficou impossível voltar, dada a inclinação da rua. A disposição para dar uma nova volta na quadra era zero. Decidi fazer uma manobra de retorno e subida na contramão da Sagarnaga. Pena não termos fotos ou filmagem da manobra, creio que ninguém tenha feito isso antes. A situação foi tensa, porém ao mesmo tempo hilária. Subi com a moto pelo canto da rua, com um pé na calçada dando apoio. No meu lado direito desciam carros e vans, todos sem entender o que se passava.

A Rua Sagarnaga fica bem no centro turístico da cidade, então uma vez colocada a moto na “garagem” do hotel e instalados no quarto (que deixa a desejar) saímos para uma caminhada pela cidade, visitar seu comércio, o Mercado das Bruxas, etc... Naquela região há várias opções de alimentação e compras de artesanato.
Durante a madrugada choveu muito. A expectativa pelo dia seguinte era grande, pois estava planejado percorrer a Ruta de La Muerte (Estada da Morte) e, com a chuva, ficava a dúvida quanto ao estado da estrada.

7º DIA – 13/02/2014 – La Paz – Coroico – Estrada da Morte – Copacabana – 360 Km
Partimos cedo de La Paz em direção a Coroico, distante cerca de 100 Km da capital Boliviana. Como La Paz não dispõe de anéis rodoviários, temos que circular por dentro da cidade, já com intenso trânsito de veículos e pedestres nas ruas, até a saída para Coroico.

Não chovia, mas o céu nublado anunciava a possibilidade de um dia molhado.
Ao sair de La Paz o que encontramos foi uma estrada linda, de asfalto perfeito, com um visual maravilhoso entre montanhas nevadas. Um belo passeio desde La Paz até a entrada para Coroico, com altitude máxima de 4.600 metros em La Cumbre. No final deste trecho a estrada apresentava alguns defeitos e com a chuva da noite anterior algumas partes estavam com bastante lama sobre a pista defeituosa, mas nada que impedisse a passagem de veículos. Alguns desmoronamentos de terra também ocorreram durante a noite, mas já havia trabalhadores limpando a pista.



Nós optamos por subir a Estrada da Morte, então fomos até o seu “final”, 10 Km antes de Coroico (não é necessário ir até Coroico. No desvio para aquela cidade, 10 Km antes, pode-se seguir reto e dentro de uns 3 Km já se encontra a Estrada da Morte). A opção por subir a estrada foi por dois motivos principais. O primeiro é que penso que subindo temos mais controle da moto e não precisamos ficar segurando no freio todo o tempo.  O segundo é que na Estrada da Morte se adota a mão inglesa, ou seja, ao subir devemos manter a esquerda, que é o lado do paredão. Quem desce deve seguir pelo lado direito da pista, sob nosso ponto de vista, que é o lado dos penhascos.

A Estrada da Morte é curta. São apenas 35 Km aproximadamente. Apesar de exigir cuidados na pilotagem, atualmente não oferece um risco real de “morte” como era no passado, quando o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID - a batizou dessa forma. Com a abertura da nova pista asfaltada, a Estrada da Morte atualmente é utilizada apenas por aventureiros, turistas, motociclistas e também para prática de moutain bike. Assim, o movimento de veículos é pouco, pode-se passear por ali à vontade, parar para fotos, etc.


Logo no início da estrada já havia diversos trechos inundados, lamacentos e também corredeiras com grandes pedras soltas. Pilotando com cuidado foi bem tranqüilo passar por estes obstáculos. Em alguns momentos medimos a profundidade das corredeiras antes de entrar com a moto, evitando qualquer surpresa. Fomos seguindo por aquela estrada maravilhosa, muito bonita mesmo, em plena selva amazônica, muito verde. Nas curvas mais fechadas chegávamos buzinando para alertar eventual veículo descendo no sentido contrário. Há trechos da estrada em que fica bem estreito, passando apenas um veículo por vez e negociado, e o penhasco aguardando no lado direito. Encontramos muitos ciclistas descendo a estrada, um passeio que pode ser contratado em La Paz.

A chuva da noite anterior proporcionou um espetáculo à parte, com muitas quedas d’água de grandes alturas, que davam uma chuveirada bem em cima da estrada. Passamos várias vezes com a moto por dentro destas quedas d’água, muito legal mesmo. É como um banho de cachoeira junto com a moto. Nos sétimos literalmente dentro de uma floresta.



Ao chegarmos ao final da Estrada da Morte, com a sensação de objetivo alcançado com total segurança, ficou um gostinho de “quero mais”. Se tivéssemos tempo, valeria a pena descer e subir novamente, sinceramente. Foi um grande passeio, recomendado para quem não tem problemas em andar no off-road.



Seguimos imediatamente em direção à Copacabana, que fica na margem do Lago Titicaca, já na fronteira com o Peru. Tivemos que passar novamente por dentro de La Paz, com grande trânsito. Pouco antes de Copacabana tem uma balsa para atravessar parte do Lago Titicaca. As balsas são bem precárias sendo necessário bastante cuidado ao embarcar e desembarcar a moto. A travessia dura em torno de 20 minutos. A moto é colocada e retirada da balsa “no braço”. Após o desembarque, o caminho que leva a Copacabana é muito bonito, com uma visão completa do Titicaca até o horizonte. Neste dia não chovia.


Chegamos a Copacabana e fomos para o Hotel Brisas Del Titicaca, um dos piores hotéis em que já nos hospedamos em todas as viagens já realizadas. Copacabana concentra na Rua 6 de Agosto uma séria de pousadas, cafés e restaurantes. É nesta rua que tudo acontece.
8º DIA – 14/02/2014 – Copacabana – Puno – Juliaca - Cusco – 532 Km
Partimos do hotel em direção à fronteira Bolívia/Peru, distante apenas 8 Km do centro de Copacabana. Uma rápida chuva de granizo desabou exatamente quando estávamos tirando a moto do estacionamento do hotel.
Os trâmites bolivianos foram rápidos. Trocamos ali mesmo o que restou de moeda boliviana por soles peruanos e fomos para a imigração no lado peruano, também com os trâmites rápidos e tranquilos.



Logo estávamos circulando em solo peruano, nas margens do Lago Titicaca, em direção a Cusco.
Era a quarta vez que estávamos de moto naquela região. Fazia frio e de vez em quando uma chuva caia repentinamente.
Agora não havia mais problemas no abastecimento. Dispensamos as garrafas pet e com tranquilidade o abastecimento de combustível era feito diretamente no tanque da moto. Os postos de gasolina no peru estão bem melhores se comparados com as outras viagens que já realizamos por lá. Alguns agora até contam com pequenas lojas de conveniência, o que torna a viagem muito mais confortável. O que parece não ter jeito é a condição de limpeza dos banheiros. Realmente são horríveis, difícil encontrar um banheiro decente. Muito ruim para as mulheres...

Viajamos com frio durante todo o dia, mesmo usando todo o aparato térmico e impermeável. O trecho até Cusco é muito bonito, principalmente depois de Juliaca (que continua uma bagunça lamacenta total).
Chegamos em Cusco no final da tarde com uma chuva torrencial. Enfrentamos um grande engarrafamento dentro da cidade e a chuva não dava trégua. Ao chegarmos na praça principal de Cusco havia uma forte corredeira que cobria metade da roda da moto. Pena que não estávamos com a GoPro ligada, seria uma imagem muito interessante. Se repararmos bem, a praça de Cusco é em desnível, o que forma um “funil” em uma de suas esquinas, bem aonde chegamos com a moto. Acertamos em cheio o pior lugar para chegar na praça.
Fomos ao Hotel Casa Grande que já conhecíamos de outras viagens, mas estava lotado. Sem paciência para procurar hospedagem com a tempestade que caía, fomos ao hotel ao lado, Emperador Plaza, e, ensopados, deixamos o saguão de entrada imundo sob o olhar de reprovação da recepcionista.

Recuperados, logo em seguida saímos do hotel para uma caminhada pela cidade, sempre agradável.
Fomos ao restaurante Uchu Peruvian Steakhouse, cuja especialidade é carne servida sobre pedra vulcânica. Um ótimo ambiente e ótima refeição.
9º DIA – 15/02/2014 – Cusco
Ficamos passeando por Cusco, andando por suas ruas, analisando os muros de pedra, etc. Fizemos um City Tour após negociar o preço com o motorista do ônibus double deck.
Subimos as ladeiras atrás da igreja e fomos ao bairro San Blas e visitamos diversas lojas de artesanato e souvenirs.
Nesta noite voltamos ao bairro San Blas, uma curta caminhada desde o centro. O objetivo era jantar no Restaurante Pachapappa. Experimentei ali o Cuy, um prato típico peruano. Delicioso.
10 º DIA – 16/02/2014 – Cusco – Vale Sagrado – Cusco – 172 Km
Fomos de moto percorrer todo o Vale Sagrado. Passamos pelas principais ruínas e cidades, indo até Ollantaytambo, ponto final da estrada. De Ollantaytambo só é possível prosseguir de trem até Águas Calientes e Machu Picchu.
Foi um dia belíssimo, com um visual maravilhoso dos verdes vales.



No mirante do Vale de Corao, convencemos uma campesina peruana a subir na moto para algumas fotos e filmagens. Um tanto sem jeito eu a ajudei a se posicionar na moto. Muito legal. O almoço foi na praça de Ollantaytambo. Encontramos ali almoçando o Denis Cunha, do Rio de Janeiro, também motociclista, que havia, infelizmente, sofrido uma queda dias antes e sua namorada teve que retornar de avião ao Brasil para cuidados médicos.
Retornamos a Cusco chegando ao final da tarde. Para relaxar fomos tomar umas cervejas no Norton Pub, na praça de Cusco.
O jantar deste dia foi no Restaurante Marcelo Batata, talvez o melhor restaurante de toda a viagem.
11º, 12º e 13º DIAS – 17, 18 E 19/02/2014 – Cusco – Lima – trecho aéreo
O nosso planejamento inicial desta viagem incluía o trecho de Cusco a Lima passando por Ayacucho e Huancayo. Infelizmente a temporada de fortes chuvas no Peru acabou inviabilizando este trecho, pois as notícias de queda de barreiras e interdição da estrada surgiram. Decidimos que iríamos a Lima de avião.
Deixamos a moto no Hotel Emperador Plaza em Cusco e, pela Peruvian Airlines, fomos a Lima, chegando no meio da tarde, e de táxi chegamos no Friends Hostel, em Miraflores.
Muito interessante o voo sobre a Cordilheira dos Andes. Avistamos diversas estradas subindo e descendo as montanhas, serpenteando com dificuldade, e calcular o quão difícil é construir e manter boas estradas em um relevo tão agressivo com o peruano.
Gastamos os dias 17, 18 e 19/02/2014 passeando pela cidade, conhecendo vários pontos (centro histórico, Larcomar, Malecón, Huaca Pallanca, Museu Larco, Museu Gastronômico, etc.).
Frequentamos alguns bons restaurantes com destaque para o Mangos, que fica no Larcomar, onde comemos ótimos ceviches com o visual do pôr do sol no Pacífico, ao final da tarde.
No Centro histórico fomos ao Bar Cordano, o mais antigo da cidade. Provamos ali a Chicha Morada, uma bebida típica peruana feita de milho roxo.
Lima nos impressionou e surpreendeu bastante, notadamente o bairro Miraflores. Extremamente limpo, jardins bem cuidados, passeio à beiramar impecável.
14º DIA – 20/02/2014 – Lima – Cusco – trecho aéreo
Retornamos ao hotel Emperador Plaza e reencontramos a motocicleta em perfeita ordem.
Continuamos a passear por Cusco e no jantar repetimos o Restaurante Marcelo Batata.
15º DIA – 21/02/2014 – Cusco – Juliaca - Arequipa – 630 Km
Sem chuva durante todo o dia, percorremos o trajeto de 630 Km de Cusco a Arequipa com tranquilidade. Depois de Juliaca a estrada fica ainda melhor com trechos sinuosos em belas paisagens. Em Crucero Alto chega-se a mais de 4.500 metros de altitude.


A chegada em Arequipa é marcante pois a parte final do trecho já é percorrida em área de deserto, com aquele visual de terra devastada.
O GPS nos deixou na praça central de Arequipa, no hotel Maison Plaza. Seguindo nosso objetivo de frequentar bons restaurantes, fomos no Zig Zag, que fica a apenas 2 quadras da praça, e comemos a especialidade da casa que é carne servida na pedra (um pouco constrangedor são os “babadores” que as garçonetes fazem a gente vestir).
16º DIA – 22/02/2014 – Arequipa – Moquegua – Tacna - Arica – 430 Km
Saída complicada da cidade, com bastante trânsito de veículos e desvios devido às obras de melhorias das estradas. Mas em pouco tempo estamos rodando no deserto, em direção à Moquegua e Tacna.
O visual do deserto é incrível, nós sempre gostamos muito. O dia ensolarado trouxe uma boa dose de calor. Após Moquegua um vento lateral muito chato passou a soprar, mas nada perigoso.

Os trâmites de saída do Peru foram um pouco complicados, mas com paciência cumprimos todo o roteiro burocrático. Havia muito movimento naquela fronteira. Logo após a aduana peruana, a papelada chilena foi mais rápida.
Chegamos a Arica, na margem do Pacífico, e fomos direto ao Hotel Plaza Colon, bem no centro da cidade, próximo de restaurantes e bares. Passeamos um pouco pelo calçadão, jantamos e fomos dormir cedo, pois no dia seguinte tínhamos mais de 700 Km para rodar.
17º DIA – 23/02/2014 – Arica – San Pedro de Atacama – 712 Km
Às 6 horas da manhã partimos de Arica. Somente nós rodando pelo centro de Arica e depois subindo a serra que sai da cidade em direção ao sul. Sensação muito boa de acompanhar o amanhecer no deserto.
Neste trecho de Arica a San Pedro de Atacama, seguindo direto pela Panamericana (Ruta 5), é necessário cuidado com o combustível pois só encontramos posto de gasolina em Pozo Almonte (distante 265 Km de Arica) e depois somente em Chuquicamata (mais 350 Km).

A viagem é tranquila neste trecho, momento propício para colocar uma boa música e deixar a moto avançar nas longas retas negras que cortam a areia do Atacama. Lembro que em um dos retões a música que tocava era “En el muelle de San Blás” do Maná. Foi um momento para nunca mais esquecer, confesso que meus olhos umedeceram.
Chegamos em San Pedro às 15:00 hs e fomos para o Hostal Puritama, onde já havíamos nos hospedado em 2006 (http://www.hostalpuritama.cl/). Pegamos uma cabana e descansamos um pouco. O sol estava forte. Em São Pedro não dá pra ficar perambulando pela cidade no meio da tarde. Comprei algumas cervejas e coloquei na geladeira comunitária da pousada. Aos poucos tomei minhas Austral embaixo das árvores do pátio da pousada, feliz por estar tudo tranquilo na nossa viagem.
À noite fomos jantar no Adobe Café, sempre uma boa escolha e ótima comida.
18º DIA – 24/02/2014 – San Pedro de Atacama
Dia livre na cidade, dormimos um pouco mais. No meio da manhã fomos dar uma volta com a moto para sacar algumas fotos das redondezas. À tarde fomos até a Laguna Cejar para um banho refrescante. Nesta laguna, por causa da alta quantidade de sal, seu corpo não afunda, gerando diversas brincadeiras descontraídas.

À noite jantamos no La Estaka, já nos despedindo de San Pedro.
19 DIA – 25/02/2014 – San Pedro de Atacama – Paso Jama - Purmamarca – 430 Km.
Sem pressa, partimos de San Pedro em direção ao Paso Jama. Os serviços de imigração e aduana chilena, que eram realizados em San Pedro, agora estão sendo feitos junto à aduana argentina.

Dessa forma seguimos subindo a montanha ao lado do vulcão Licancabur. Depois rodamos tranquilamente pelas paisagens do deserto, salar de Tara, 4.800 metros de altitude.

Chegamos no complexo fronteiriço e encontramos diversos motociclistas brasileiros. Feitos os trâmites fomos ao posto de gasolina, porém o caminhão tanque estava em pleno serviço. Como o descarregamento do caminhão levaria quase 1 hora, fizemos umas contas e decidimos arriscar o abastecimento em Susques, já que por outras vezes passamos por aquela cidade e não havia gasolina no posto. Mas seguimos assim mesmo.
A moto neste trecho, sempre em altitudes acima de 3.500 metros, mostrou o melhor rendimento, chegando a 25 Km/l mesmo com velocidades acima de 120 km/h.
Chegamos em Susques e tranquilamente abastecemos, inclusive pagando com dólares pois não tínhamos nenhum tostão em moeda argentina.
A viagem segue muito bonita passando pelas Salinas Grandes e pela Cuesta Del Lipán. Chegamos bem em Purmamarca e nos hospedamos no Terrazas de La Posta (http://terrazasdelaposta.com.ar). Jantar no Rincón de Claudia Vilte, com música regional ao vivo. Muito bom.
20º DIA – 26/02/2014 – Purmamarca – Presidência Roque Sáenz Peña – 775 Km
Cedo partimos de Purmamarca para enfrentar a RN 16. Sempre uma surpresa essa rodovia. Em outras oportunidades já a encontramos muito deteriorada, outras vezes em ótimo estado.



Desta vez, que era a 8ª vez que passávamos por ela, estava bem ruim no trecho até a Pampa del Inferno. Muitos buracos e animais na estrada.
Cumprimos os 775 Km deste trecho sem atrativos. Em Roque Sáenz Peña ficamos novamente no Hotel Presidente.
21º DIA – 27/02/2014 – Roque Sáenz Peña - São Borja - Passo Fundo – 1.008 Km
Viajamos rapidamente e chegamos depois de 600 Km à fronteira Argentina / Brasil em São Borja. Depois, por uma BR 285 muito ruim (uma vergonha o estado daquela estrada), rodamos mais 408 Km e chegamos a Passo Fundo, direto no Hotel Maytá.
22º DIA – 28/02/2014 – Passo Fundo – Florianópolis – 532 Km
A viagem estava acabando, 500 Km finais até em casa em Florianópolis.
Chegamos numa sexta-feira de carnaval. Tudo bem, tranquilo, deixamos a moto na garagem de casa e lentamente, em silêncio, fomos desfazendo toda a bagagem, limpando as roupas, guardando os equipamentos.
Fica a lembrança de momentos incríveis e de mais uma viagem realizada com total êxito.

Nenhum tombo, nenhum susto, nenhuma pressão policial, nenhuma propina paga, nenhum problema com a moto. Dá pra dizer que a viagem foi um sucesso.