RELATO DE VIAGEM REALIZADA Á CARRETERA AUSTRAL – SUL CHILENO, EM FEVEREIRO DE 2006, EM UM TOTAL DE 22 DIAS, 9.600 KM
 
 

Chegada a hora de mais uma viagem de moto. Destino escolhido: Carretera Austral – sul chileno.

A Carretera Austral é uma rodovia que inicia em Puerto Montt e se estende por 1.240 km até a cidade Villa O’Higgins. Quase que completamente em rípio, é considerada por muitos como a mais bela estrada da América do Sul.

Iniciada em 1976, a estrada teve seu último trecho terminado apenas em 2001. O objetivo da complicada rodovia (só de explosivos foram necessárias 500 toneladas) era firmar a soberania nacional em um território pouquíssimo explorado, evitando que a vizinha Argentina crescesse os olhos para a região. Uma preocupação tipicamente militar, nota-se. O nome oficial da estrada, aliás, deixa isso bem claro: Camino Longetudinal Austral Presidente Augusto Pinochet Ugarte.

Alguns a confundem com a Ruta Panamericana, que corta quase todos os países da América Latina, ou ainda com a Ruta 40, na Argentina. São três estradas diferentes, cada uma com suas características e belezas singulares.

Vou começar este relato com algumas informações a respeito da estrada, do clima, das áreas de abastecimento, etc...

As primeiras informações colhidas a respeito do trajeto fizeram com que nos preparássemos para rodar abaixo de muita chuva e frio, tudo isso somado à lama que se forma com o rípio. A posição geográfica da estrada somada à Cordilheira dos Andes faz com que a região seja extremamente úmida e ventosa. Neste aspecto tivemos nossa primeira grande e grata surpresa: nos vários dias em que percorremos a estrada não choveu uma única vez e não fez frio. Muito pelo contrário, foram dias ensolarados e de calor. Conversando com os nativos da região, eles mesmos diziam que éramos abençoados por estarmos circulando por ali justamente naquela época – era quase um milagre. De acordo com eles, os melhores meses para viajar para a Carretera são dezembro e fevereiro – não há uma explicação científica para isso, é assim e pronto.

Outro ponto que nos preocupava eram os quase 1.000 km de rípio que íamos enfrentar. Ao termos o primeiro contato com aquele piso sentimos alguma dificuldade. Porém, percorridos alguns quilômetros já estávamos familiarizados com o terreno e desenvolvíamos boas velocidades, por vezes na casa dos 130 km/h. As motos utilizadas na viagem, uma Suzuki DL 1000 V-Strom e uma BMW GS 1150 Adventure, mostraram-se ótimas para o trajeto, vencendo com muita facilidade as pedras, buracos, subidas e descidas da Carretera. Em minha opinião, o “pulo-do-gato” para o motociclista enfrentar o rípio é acelerar. Mais rápido é mais seguro. Não tão rápido, mas o suficiente para que a roda dianteira não se enterre nas pedras soltas. Deixe a moto sempre em alta rotação para que, no caso de você sentir que perdeu o controle, com uma forte acelerada ela retorne à posição normal de segurança. Creio que não devemos temer o rípio, mas, por outro lado, não podemos perder o respeito por aquele terreno que pode nos levar ao chão em um piscar de olhos.

A Carretera Austral não é uma estrada para se viajar rápido. Suas incontáveis belezas naturais nos forçam a realizar centenas de paradas apenas para fotografar, filmar e apreciar tudo em nossa volta, afinal ela corta de norte a sul a Patagônia Chilena. Nosso projeto inicial previa rodar em média 200 km por dia, a fim de permitir que aproveitássemos todos os encantos da região.

Uma moto com autonomia de 250 km se sai bem na questão da gasolina. Nós não precisamos levar gasolina de reserva em nenhum momento. Mesmo abastecendo às vezes na casa dos nativos, sempre há combustível.

O povo que habita as cidades da região é um povo humilde. Vivem da agricultura e da pecuária e mais recentemente começam a voltar-se também para o turismo. Mostram-se um pouco tímidos, mas aos poucos se revelam ótimas e simpáticas pessoas, diferentemente dos habitantes dos grandes centros chilenos, em sua maioria.

Nem todas as cidades têm condições de abrigar os viajantes. Houve dias em que passamos fome pois não havia o que comer e não tínhamos previsto isso. Na questão de alojamento, as cidades um pouco maiores dispõem de pousadas ou casas residenciais, todas muito simples e também muito baratas. Resumindo, com um simples planejamento prévio, não há necessidade de levar barraca. Embora estivéssemos carregando uma, não a usamos.

A Michelle, minha fiel companheira de viagem, desta vez não estaria presente por compromisso profissionais. Em seu lugar estava meu cunhado Roger (em outra moto, é claro). Partimos de Florianópolis no dia 28 de janeiro de 2006 com destino ao Uruguai. Nossas esposas nos acompanharam até Buenos Aires. De lá elas retornaram ao Brasil e nós seguimos viagem em direção á Cordilheira dos Andes. Partimos de Buenos Aires no dia 04 de fevereiro e cruzamos a Argentina em dois dias, passando por Santa Rosa, General Acha, Neuquen e chegando em San Martin de los Andes. Por já estar relatado em outras viagens, deixarei de descrever o roteiro no interior da Argentina (retas e retas de calor intenso sem qualquer atração).

Desta vez procurei um “Paso Internacional” diferente do utilizado nas outras vezes que estive por ali. O escolhido foi o Paso Mamuil-Malal, que parte de Junin de los Andes e chega em Pucón, no Chile. É um trajeto muito bonito, em rípio (está sendo asfaltado), que passa bem aos pés do vulcão Lanin (3.776 metros de altura). Viajamos por um longo trecho tendo o vulcão à nossa esquerda. O céu azul em contraste com o vulcão nevado mereceu uma carga de fotografias.

Pucón é aquela festa. Um dos principais balneários chilenos, com o vulcão Villarrica e o lago de mesmo nome compondo o cenário. Queríamos subir o vulcão. Pagamos a agência de turismo de aventura, experimentamos os equipamentos de escalada, mas, na hora marcada para a saída, o clima não ajudou e o chefe da expedição resolveu cancelar por motivo de segurança. Decepcionados (foi minha terceira vez em Pucón e ainda não consegui subir o vulcão), pegamos as motos e viajamos até Puerto Montt, fazendo um pequeno desvio da Panamericana para uma aproximação ao vulcão Osorno.

Estabelecidos em Puerto Montt, fomos ao porto da cidade reservar espaço no transbordador que nos levaria, no dia seguinte, de Castro (Ilha de Chiloé) para Chaitén (na Carretera). O percurso interessante iria começar.

Ingressamos na Ilha de Chiloé através de um ferry-boat desde a cidade de Pargua até Chacao. Alguns quilômetros mais e estávamos em Ancud. Os boatos que ouvíamos sobre o problema de alcoolismo que atinge grande parte da população das Ilhas de Chiloé já se tornaram realidade no primeiro momento que paramos as motos em Ancud. Alguns bêbados já rodearam a moto e falavam algumas coisas que, apesar de nosso esforço, não entendíamos nada. O Roger começa a falar em alemão e o povo se afasta um pouco assustado. Partimos de Ancud em direção à Castro.

A Ilha de Chiloé é de geografia plana, muito verde e tranqüila fora das cidades maiores. Bom asfalto, rapidamente chegamos em Castro. Almoçamos nos restaurantes “palafitos” que ficam na beira do mar, no aguardo do transbordador que nos levaria a Chaitén.

Foram várias horas de espera por conta do atraso na atracação do barco. Um calor insuportável nos fez consumir litros de água enquanto aguardávamos na fila do porto. Acomodamos as motos no barco e as amarramos bem, com o auxílio do staff do barco. É aconselhável checar várias vezes se a moto está bem amarrada pois o mar que se atravessa até Chaitén está quase sempre muito revolto. O barco balança muito e a água do mar chega a lavar as motos dentro dele. Ficamos bem preocupados com a situação mas afinal, depois de oito (isso mesmo, oito) horas dentro da pequena cabine do barco, desembarcamos em Chaitén à 01:00 h da madrugada. Já no porto fomos abordados por uma senhora que nos levou para sua casa e por lá nos hospedamos – dormimos com as roupas de pilotagem...

Grande dia: partir de Chaitén em direção sul, colocando as motos, enfim, na Carretera Austral. A partir de Chaitén há um trecho de 20 km asfaltado e a partir daí, só rípio, beleza!

A rotina do acelera, pára, sobe, desce, tira luva, põe luva, tira foto, filma, desliga a moto, liga novamente, começa imediatamente, pois os lugares interessantes estão ali, nas margens da rodovia. A viagem para a Carretera se faz realmente na estrada. Ali estão as atrações, não nas cidades.

Pouco mais a frente paramos as motos e caminhamos por cerca de uma hora e meia dentro do bosque para chegar bem perto do Ventisqueiro Yelcho, uma geleira que desce das montanhas. Vale a pena esta saída da estrada para conhecer este pedaço de gelo.

Neste primeiro dia, após nos acostumarmos com a pilotagem off-road, rodamos até a cidade de La Junta, um pequeno povoado. Logo na entrada encontramos um bom hotel e ali nos hospedamos (todos os locais de acomodação que utilizamos na viagem estão descritos no link “HOTÉIS” no menu à direita). Passamos a noite no bar do hotel contabilizando o dia, relembrando as belas imagens que vimos e a pilotagem no rípio. Tudo regado a uma boa cerveja e a um papo descontraído com o proprietário do hotel.

Pela manhã estávamos ansiosos para continuar nosso descobrimento da Carretera. Completamente cobertos de poeira, nós e as motos, reassumimos a viagem e aceleramos forte na belíssima paisagem que rodeia todo o lugar.

Nosso destino era Coyhaique, capital da região, maior cidade da Patagônia Chilena. Este trecho exige um pouco mais de piloto e máquina, pois há elevações nas montanhas em caracol, 100% rípio solto. Alguns trechos em obras nos obrigaram a rodar com os pés no chão, servindo de apoio contra eventuais sustos no caminho. Passamos por Puyuhuapi,  Puerto Cisnes e Villa Amengual. Em uma curva bem fechada em subida, meu parceiro de viagem não seguiu meus conselhos e resolveu fazer a curva por dentro: perdeu tração, apoio e deitou a moto no rípio poeirento da Carretera. Após perguntar se estava tudo bem, uma foto obrigatória foi tirada e fui ajudá-lo a levantar a GS. O bom humor e disposição eram componentes sempre presentes na viagem, por isso o fato não abalou em nada a continuidade da aventura.

Fomos até Puerto Aisén e de lá resolvemos ainda rodar até Coyhaique. Pouco antes, mais ou menos em Manihuales, começa um trecho de asfalto, que vai até além de Coyhaique. Confesso que, rodando pelo asfalto, sentia saudades dos caminhos enripiados.

Coyhaique é uma cidade grande e com boa estrutura. Serve como importante base militar chilena, e como capital oferece boa gama de serviços.

Nosso roteiro seguiu para o sul ainda por asfalto, que acaba em Villa Cerro Castillo. Decidimos contornar o Lago General Carrera pelo rípio e não cortar o lago através do transbordador de Puerto Ibanez. Foram mais 140 km de rípio passando por visuais inesquecíveis. Há trechos da estrada que estão cobertos pelas cinzas do vulcão Hudson, o que torna o pavimento extremamente sólido e compacto, favorecendo uma pilotagem muito emocionante e rápida. Passamos por Puerto Murta, conhecendo lugares como o Bosque Muerto, um grande campo de árvores secas, um visual para lá de sombrio. Passamos também pela Laguna Verde, incrível sensação. Este trecho entre Villa Cerro Castillo e Puerto Tranqüilo é imperdível para quem gosta de rodar de moto no meio do nada, apenas com a natureza como companheira.

Foi difícil encontrar hospedagem em Puerto Tranqüilo, mas enfim acabamos em um Residencial, dividindo as acomodações com um grupo de israelitas e os donos da casa. Nosso interesse em Puerto Tranqüilo era visitar as Capillas de Mármol, interessantíssimas formações de mármore dentro do Lago General Carrera. O passeio até lá foi feito no dia seguinte usando barcos de moradores da região. Fantásticas as rochas e a coloração do lago. Obrigatório para quem está em Puerto Tranqüilo.

Por indicação de um policial da cidade, após o passeio pelo lago equipamos as motos e de Puerto Tranqüilo seguimos 55 km de rípio em direção oeste, para dentro do bosque, com destino ao Campo de Gelo Norte, para conhecer o Glacial Los Exploradores. Grande paisagem, passando pelo Lago Tranqüilo e pelo Lago Bayo. Depois de uma subida a pé de aproximadamente 20 minutos, avistamos o glacial, esparramando-se no terreno em nossa frente, grande, imponente e com o tradicional azul do gelo.

Retornamos os 55 Km até Puerto Tranqüilo. Dali decidimos seguir adiante pela Carretera e no entroncamento de El Maitén seguimos para Chile Chico. Este trecho da estrada – já não é mais a Carretera Austral – é maravilhoso, porém cansativo e perigoso. Segundo informações dos policiais locais, é a estrada que custou mais caro aos cofres chilenos, por conta das toneladas de explosivos utilizados para abrir caminho nas rochas que bordeiam o Lago General Carrera. Seguimos por muitos quilômetros margeando o lago, incrivelmente azul e com as montanhas nevadas ao fundo. Era nossa despedida da Carretera Austral e daquela região singular da América do Sul.

De Chile Chico ingressamos novamente na Argentina e rodamos centenas de quilômetros em terreno árido e isolado, apanhando do vento e do sol forte. Dormimos em Comodoro Rivadávia e no dia seguinte saímos da Ruta 3 e depois de 105 Km de rípio chegamos a Punta Tombo, um santuário com milhares de pingüins no Oceano Pacífico. O sol queimava forte e o rípio estava bem solto e poeirento, mas valeu a pena o contato com os pingüins em seu habitat natural. Mais 100 Km de rípio e chegamos em Puerto Madryn onde dormimos. A viagem então segue por estradas em perfeito estado do interior da Argentina. O sufoco diário das longas retas e o sol escaldante, tudo sem atrativos, torna os dias muito massacrantes. Estávamos voltando para casa e queríamos sair daquela região o mais rápido possível. Pernoitamos em Cel. Pringles e depois em Salto, no Uruguai, onde conhecemos as Termas de Dayman.

Depois de Salto, em dois dias chegamos a Florianópolis.

A Carretera Austral é um lugar que deixa saudades. Essa viagem é muito marcante. Tudo deu certo, nenhum contratempo importante. Indicamos esta viagem para todos os que gostam de um contato intenso com a natureza e gostam de estradas isoladas para rodar de moto ou outro tipo de veículo qualquer. Difícil é não se apaixonar pela Carretera Austral!