RELATO DE VIAGEM DE MOTOCICLETA, PARTINDO DE FLORIANÓPOLIS SC EM 01.05.2003, COM DESTINO AO DESERTO DO ATACAMA, CHILE, COM DURAÇÃO DE 12 DIAS, 7.700 KM RODADOS. MOTOCICLETA UTILIZADA: YAMAHA TDM 850 2001

Após ter realizado algumas longas viagens de motocicleta, o destino traçado para ser vencido no mês de maio de 2003 já era, na verdade, um antigo sonho: cruzar o Deserto do Atacama, na região norte chilena. Área inóspita, de clima traiçoeiro, trechos de "rípio" e muita poeira, porém tinha a certeza de ser recompensado com belíssimas e inesperadas paisagens.

Minha namorada (hoje já esposa) Michelle “Mikka”, companheira de tantas outras aventuras, desta vez não estaria presente, e os meus acompanhantes seriam minha TDM 850, máquina fotográfica e tripé. Eu costumo dizer que um motociclista nunca viaja sozinho, pois por onde quer que passe sempre haverá alguém para oferecer apoio ou para bater um papo. O negócio é partir, aproveitar cada quilômetro rodado e assimilar todas as diferenças culturais, de costumes, da geografia, fazer contato com pessoas e registrar todas as maravilhas desse mundo.

O início da aventura foi no feriado do dia do trabalho, 1º de maio, quando cumpri o primeiro percurso, saindo da Lagoa da Conceição, onde moramos em Florianópolis SC, indo até São Borja RS, em um total de 925 Km embaixo de muita chuva e ainda enfrentando as condições ruins da rodovia no trecho após Passo Fundo. Tive sorte e não entrei em nenhuma daquelas "panelas" gigantes postadas sorrateiramente ao longo da rodovia.

Um pernoite em São Borja e, no dia seguinte, bem cedo, cruzava a fronteira com a Argentina, com os trâmites aduaneiros sendo efetuados rapidamente, indo direto para Corrientes, em um percurso de 430 Km por boa estrada, sem movimento de carros ou caminhões, dia lindo, céu azul. Corrientes fica às margens do Rio Paraná, uma bela cidade com ótimos restaurantes.

No dia seguinte parti em direção a Salta, localizada na região noroeste da Argentina. Seria um percurso de aproximadamente 700 Km, mas, por um descuido no roteiro, acabei desviando indevidamente em uma rotatória, o que me fez dar uma imensa volta, passando por San Miguel de Tucuman, aumentando em quase 400 Km o deslocamento daquele dia. Lição aprendida, é importante ter paciência para parar a motocicleta e checar corretamente o mapa, evitando contratempos como esse. Cheguei em Salta no início da noite, depois de percorridos 1.130 Km.

A única coisa que eu queria era um bom jantar e cama. No hotel em que fiquei havia uma convenção de adestradores de cães. Até ai tudo bem, o problema foi que os animaizinhos estavam também presentes no hotel, então, durma-se com um barulho desses! Mas nada para desanimar, pois seria no dia seguinte que a aventura iria realmente começar, já que entraria no deserto, cruzando a fronteira com o Chile pela Cordilheira dos Andes para chegar à cidade de San Pedro de Atacama, verdadeiro paraíso para aventureiros de todo o mundo.

Para entrar no Chile há dois caminhos: o Paso de Sico e o Paso de Jama. Optei pelo Paso de Jama, mais ao norte, passando pela cidade de San Salvador de Jujuy, pois apresenta vários trechos intercalados de asfalto em meio ao "rípio", enquanto que em Sico o caminho é inteiramente daqueles pedriscos. Mesmo assim foram gastas mais de 7 horas para vencer este terreno, pois o rípio é bastante traiçoeiro e ainda apresenta pequenas ondulações, as "costelas de vaca", que fazem tudo trepidar. A TDM encarou bem, e em alguns trechos conseguia desenvolver boas velocidades (110 Km/h). Participei do meu Paris-Dakar particular, e venci! É necessário levar suprimento de água e comida, pois caso ocorra algum problema você não tem onde se abastecer.

Gasolina não é problema se sua moto tem autonomia superior a 200 Km, pois no meio deste percurso há a cidade de Susques, que tem posto. Porém é prudente, a partir de Susques, levar uma reserva de gasolina na bagagem, pois a partir dai serão quase 300 Km sem qualquer possibilidade de abastecimento de combustível. Vale salientar que neste trecho estamos em grandes altitudes, alcançando por vezes a casa dos 4.000 metros, e com o ar rarefeito o consumo de combustível em motocicletas carburadas aumenta assustadoramente, devendo o viajante reconsiderar sua condição de autonomia.

A paisagem neste trecho é diferente de tudo o que eu havia presenciado até aquele momento. Clima seco, inúmeras esculturas que o vento caprichosamente deixa nas montanhas e pedras, e destaque para o "salar", de um branco ultrabrilhante que se perde no horizonte, com a pista cortando-o bem ao meio. E o silêncio, ah, o silêncio é absoluto. O simples ruído como o das botas arrastando na areia ou o "click" da máquina fotográfica soam como "heavy-metal" para os ouvidos. "Llamas" perdidas correm ao longo da estrada. Fantástico.

Ao chegar a San Pedro de Atacama leva-se um susto, pois a cidade tem um funcionamento diferente de tudo. Parece que você está em uma cidade do velho oeste. Entretanto, é só prestar atenção que se percebe uma cidade inteiramente voltada para o turismo de aventura, com as agências amontoando-se, oferecendo os mais diversos pacotes de excursão, pois ao redor da cidade são muitas as atrações, com destaque para as que eu visitei, os Gêiseres del Tatio e o Vale de la Luna. Fiquei dois dias por ali e queria ficar mais, já que a vida noturna também é agitada, porém tinha muita estrada pela frente, e a vontade de acelerar na Panamericana era enorme.

Saí de San Pedro e fui direto para Antofagasta, com muito frio. Antofagasta fica no litoral do Pacífico e, ao entrar na cidade, lembrei-me claramente das cenas dos filmes da série Mad Max. A trilha sonora perfeita seria alguma coisa do Sisters of Mercy.

De Antofagasta se pega uma linha reta, que é a Panamericana, em direção ao sul, e pode-se acelerar a vontade, pois não há tráfego intenso de veículos ou patrulhamento. O asfalto é perfeito, então desenvolvia boas velocidades na maior tranquilidade - paguei o preço mais tarde com um desgaste rápido dos pneus. A 70 Km sul de Antofagasta está a famosa escultura Mão do Deserto, parada obrigatória para fotografia para quem por lá passa.

Seguindo na direção sul, a Panamericana vai por vezes margeando o Pacífico, tornando a viagem um belo passeio à beira-mar. Cidades como Chañaral, Copiapó e La Serena são cortadas pela rodovia, o que nos deixa diversas opções de pernoite. Eu passei uma noite em Copiapó antes de seguir a Santiago.

A passagem por Santiago foi mais para dar um trato na motocicleta do que para conhecer a cidade, pois já havia estado ali no ano passado e, ainda, Santiago é uma cidade cara, se comparada aos nossos padrões e ao custo de vida da Argentina, por exemplo. O negócio era se mandar o mais rápido dali e ingressar mais uma vez na Cordilheira dos Andes, no trecho maravilhoso de 365 Km entre Santiago e Mendoza, na Argentina. Gastei 08 horas para vencer este percurso, mas não por más condições da estrada ou problemas na aduana. Foi pura curtição mesmo. Muitas fotografias.

Cada curva que se faz merece uma foto. Parada para um pic-nic e para pensar um pouquinho na vida... Destaque para o Aconcágua, o Cemitério dos Andinistas, Los Penitentes e a Ponte dos Incas. E pensar que toda aquela região, dentro de poucos dias, estaria completamente coberta de neve recebendo esquiadores de todas as partes do mundo.

Em Mendoza vale um passeio pelas principais avenidas e aproveitar os bons restaurantes, que oferecem boa carne e bons vinhos, além de um passeio ao Cerro de la Gloria. Quem aprecia a "parillada", um assado com diversos cortes bovinos, Mendoza é o lugar.

A partir de Mendoza inicia-se o percurso de volta pra casa, a paisagem muda radicalmente, pois é uma área predominantemente agrícola, de pequenas cidades, mas vale um pernoite em Santa-Fé, um passeio pelo seu calçadão, que tem um comércio bastante movimentado, com os argentinos nas ruas até a madrugada. Restaurantes e bares lotados, e, é claro, hora para umas boas cervejinhas geladas, com a satisfação de ter cumprido um objetivo e realizado um sonho.

Ao deixar Santa-Fé deve-se ter muito cuidado com a estrada, pois há controle policial intenso e trechos em péssimo estado de conservação da rodovia. Eu me descuidei e acabei entrando em uma verdadeira cratera, recebendo um grande solavanco. A moto aguentou bem, mas o alforje não, acabou descosturando e incomodando por todo o resto da viagem. O retorno ao Brasil deu-se através de Uruguaiana e rumo a Porto Alegre, pois necessitava urgentemente trocar o pneu traseiro, que já pedia socorro há alguns quilômetros, com a lona já à mostra. Como eu já previa ele não aguentou o tranco e 60Km antes de Porto Alegre estourou. Felizmente estava em baixa velocidade, controlei a motocicleta e consegui levá-la até uma loja de artesanato na beira da estrada, onde obtive ajuda para chamar um reboque da capital para levar-me até a autorizada.

Troca do pneu, almoço em uma churrascaria e 460 Km depois estava em Florianópolis, de alma lavada, abraçando meus familiares e minha namorada, que me esperavam ansiosos.

Foi uma viagem realizada em 12 dias, rodando um total de 7.700 km, consumindo aproximadamente 600 litros de combustível, e tudo isso agora está traduzido em centenas de fotografias, muitas estórias para contar e um eterno sorriso estampado no rosto.

É uma viagem fantástica. Há dificuldades, sim, mas todas nos ensinam muito e nos preparam para cada vez ir mais longe e conhecer mais coisas que talvez nem sonhemos que existam. Estes obstáculos apenas nos fortalecem, com reflexos claros e imediatos em nossas vidas cotidianas. Por isso, continuaremos viajando de motocicleta enquanto puder, e já iniciamos planejamento para nova aventura a ser implementada em dezembro de 2003: Ushuaia – Terra do Fogo, o "fim do mundo"!