RELATO DE VIAGEM REALIZADA AO ALASKA, EM JULHO DE 2009, PARTINDO DE LOS ANGELES EUA, PASSANDO PELO CANADÁ E FINALIZADA EM MIAMI. QUILOMETRAGEM TOTAL DE 15.800 KM, 36 DIAS. QUATRO INTEGRANTES ORIGINAIS, COM DUAS BMW R1200GS, UMA BMW F650 E UMA KAWASAKI CONCOURS 1300

 
 

Sempre planejamos uma viagem ao Alaska iniciando no Brasil. Porém, para isso necessitaríamos de pelo menos 90 dias disponíveis (se considerarmos o embarque das motos em transporte aéreo no retorno).

Como dispomos de apenas pouco mais de 30 dias de férias por ano, este planejamento se tornava impossível, teria que ficar para a aposentadoria. Dessa forma, surgiu outra idéia.

Um dos componentes da viagem, Ricardo Cilento, há muitos anos me convidava para esta viagem desde o Brasil, mas eu insistia que não tinha condições. Em um jantar em sua casa, certa vez, surgiu a idéia de embarcar minha moto para Los Angeles, encontrá-lo lá e, a partir dali, seguirmos juntos. Pesquisas junto a empresas de comércio exterior, que seriam responsáveis pelo embarque da moto para os EUA, revelaram um custo exorbitante que tornava inviável a idéia.

Quase desistindo da viagem, resolvi pesquisar por aluguéis de motos e então o projeto voltou a tornar-se possível. Encontrei várias empresas americanas que alugam motos, porém a maioria trabalhava com Harley Davidson, moto que não serviria para nossos planos. Outras tantas que tinham restrições quanto a rodar com a moto em estradas de terra foram também dispensadas. Finalmente encontramos uma empresa em Los Angeles, a WE RENT MTORCYCLES (www.werentmotorcycles.com) que logo no primeiro contato já nos inspirou muita confiança, além de disponibilizar boas motos para nossa viagem. Fechamos negócio. Alugamos 3 motocicletas, 2 BMW R 1200 GS e 1 Kawasaki Concours. Nessa altura do projeto já éramos 4 motociclistas. O Ricardo Cilento permaneceria com seu projeto de viajar desde o Brasil. Quanto ao custo dos aluguéis, sei que haverá muitas perguntas a respeito disso, lá vai: por 35 dias com as motos, incluindo total assistência técnica, troca de óleo, troca de pneus, seguro total e ainda o fato de pegarmos as motos em Los Angeles e devolvermos em Miami, do outro lado dos EUA, cada moto custou US$ 5.200,00, valor muito inferior aos orçamentos que recebemos para enviar nossas próprias motos para os EUA. Era um esforço financeiro que entendíamos valer a pena e então fechamos o negócio. O proprietário da empresa WE RENT MOTORCYCLES, Sr. Jack Raynolds, sempre mostrou confiança e sempre nos atendeu com muito profissionalismo. Se você quiser fazer o mesmo, pode usar meu nome como referência e com certeza terá um ótimo serviço prestado.

Tudo certo, a partida do Ricardo Cilento foi marcada para 12/05/2009. Ele sairia de Florianópolis e cruzaria toda a América do Sul e América Central e nos encontraria em LA em 27/06/2009. Em Los Angeles estariam eu, Ricardo Rauen, meu cunhado parceiro da viagem a Carretera Austral em 2006, Roger Simas e outro amigo, Rohit Khemani (o nome diferente é porque ele é indiano e vive no Brasil). Todos começaram os preparativos para a viagem. Realizamos algumas reuniões conjuntas para estabelecer objetivos, o que levar, definir o trajeto, etc. São sempre momentos muito gostosos e de muita ansiedade pela chegada da data de partida.

O ponto principal da viagem foi estabelecido como Prudhoe Bay, em Deadhorse, nas margens do Oceano Ártico, extremo norte do Alaska e da América do Norte, por terra. Dessa forma, a viagem seria Los Angeles – Prudhoe Bay – Miami. Pelos nossos cálculos daria pouco mais de 15.000 km. Ótimo, perfeito para quem gosta muito de rodar de moto por lugares desconhecidos. A viagem do Ricardo Cilento seria bem mais longa, é claro.

O Ricardo Cilento parte com sua Yamaha XT660 no dia marcado. Tudo era só alegria para nós que ficamos no Brasil. Era como se todo o projeto já estivesse em andamento. No segundo dia de viagem chega um e-mail do Cilento dizendo que estava voltando ao Brasil. Tinha recém ingressado na Argentina quando recebeu mensagens de familiares pedindo que voltasse por conta da crise da gripe suína que se abatia com força nos países latinos. Bastante contrariado e decepcionado, Cilento, que tem esposa e um filho de apenas 7 anos, não teve dúvidas e retornou. Estava temporariamente fora do projeto, para infelicidade de todo o resto do grupo. Por alguns dias o grupo foi reduzido a três.

Alguns dias depois o Cilento resolveu a questão adquirindo uma moto na Califórnia. Estava de volta ao projeto. Dessa forma todos estariam reunidos nos EUA e fariam a principal parte da viagem juntos. Para tirar as curiosidades, ele pagou US$ 6.500,00 por uma BMW F650 ano 2007, com bauletos, faróis de milha, etc. Com certeza depois vai revender essa moto por pelo menos US$ 5.000,00 e a contabilidade ficará muito favorável.

Bom, dados os esclarecimentos iniciais, vamos à viagem. No dia 27/06/2009 eu, Roger e Rohit chegamos a Los Angeles. A entrega das motos estava programada para as 10:30hs da manhã deste dia, um lindo sábado de sol. Na hora marcada chega o caminhão da empresa com as motos. O desembarque das motos foi muito comemorado. Tudo de acordo com o combinado, as motos estavam em perfeito estado, completas para uma viagem longa conforme pretendíamos: bauletos laterais e traseiro, GPS, pneus novos, revisadas, limpas. Não foram entregues documentos das motos, pois o Sr. Jack Raynolds garantiu que tudo estaria dentro dos sistemas informatizados dos EUA e do Canadá, sendo desnecessária a apresentação de documentos das motos.

No mesmo dia 27 já saímos com as motos do hotel, que ficava vizinho ao aeroporto internacional de Los Angeles, e fomos conhecer as atrações locais. Praias de Malibu, Venice Beach, Hollywood, Beverly Hills, etc. A cidade estava agitada pois Mickael Jackson havia morrido havia poucos dias. Muitas homenagens em vários pontos da cidade. Enfim, tudo o que um perfeito turista quer conhecer de LA foi visitado. Apesar de ser uma cidade gigante, circular pelas suas ruas foi muito tranqüilo, pois são em sua maioria avenidas largas e com um grande diferencial com relação ao Brasil: o cidadão respeita as leis de trânsito. Aliás, o respeito às leis é tão grande que às vezes fica até chato demais.

Los Angeles é muito bonita, legal, etc, mas estávamos ansiosos para colocar as motos na estrada e finalmente começar efetivamente a viagem em direção ao Alaska. Fomos dormir cedo naquele dia, após arrumar toda a bagunça do quarto do hotel, onde todas as nossas coisas estavam espalhadas por todos os cantos. Conseguimos colocar tudo dentro dos bauletos e fomos dormir com a expectativa do dia seguinte, para o primeiro trecho até São Francisco, cerca de 700 km ao norte, com uma passada por La Honda onde encontraríamos o Cilento para então estarmos com o time completo.

A partir de agora faremos o relato dia a dia.

28/06/2009: Los Angeles a Carmel – California – 550 Km

Acordamos cedo e logo após o café da manhã partimos com as motos em direção à PCH 1, rodovia que vai costeando o Oceano Pacífico. A moto do Roger, uma das GS, já apresenta um problema que vai se repetir durante a viagem nas BMW: perda de parafusos. Desta vez foi o parafuso que sustenta o suporte para o bauleto traseiro. Porém, nos Estados Unidos você encontra tudo o que precisa em grandes lojas de ferragens e artigos diversos. Para repor o parafuso perdido fomos a uma loja da Home Depot, gigante cadeia de lojas.

Seguimos viagem e ainda na saída de Los Angeles eu cometi um erro que serve de lição para qualquer moto-viajante: nunca deixe nada solto em cima dos bauletos ou do banco traseiro da moto. Em uma parada em Camarillo para fotos em cima de uma das montanhas, deixei minha pochete em cima do bauleto traseiro e na saída não percebi. Resultado: três quilômetros depois dei falta. Aí a situação se complicou, pois estávamos em uma rodovia de 4 pistas de alta velocidade, sem espaço para paradas e havia acabado de descer a montanha. Na minha pochete estava o passaporte e boa parte do dinheiro da viagem, além da minha carteira com cartões de crédito, etc. Comecei a achar que a viagem acabaria ali mesmo, no primeiro dia, rodados apenas pouco mais de 50 Km. Sem alternativa, parei a moto no acostamento e em disparada comecei a subir a montanha. Carros passavam por mim a toda velocidade. O calor era insuportável com a roupa de pilotagem e o sol a pino. Subi os três quilômetros com o coração na boca e com pensamentos sobre a burrice que tinha cometido. Rezava para que a pochete estivesse ainda jogada no chão, onde tínhamos parado. Enquanto subia eu ia checando a rodovia pois a pochete poderia estar ali, atropelada pelos carros. Chequei ao cume da montanha acho que uns 30 minutos depois, completamente exausto. A pochete estava ali. Comecei a descer, com mais calma porém com o coração em disparada. Cheguei na moto e fui em busca dos parceiros, que nem sabiam o que estava se passando pois tinham saído na frente. Uns 5 quilômetros depois os encontro e paro a moto para descansar e contar o ocorrido. Estava tão exausto, suado, fazia tanto calor e ainda com todo o nervosismo da situação, meu corpo pediu ajuda e vomitei todo o café da manhã na beira da estrada. Desculpem relatar esta situação mas o objetivo é passar a mensagem de termos o máximo de cuidado com nossos pertences, fazer uma verificação completa antes de partir.

A estrada segue plana, asfalto perfeito e no mínimo duas pistas, beirando o pacífico com belíssimas paisagens. Milhares de motocicletas passam por nós, posso dizer que 95% eram Harley Davidson. Todos se cumprimentam, sempre. A camaradagem do motociclista está presente por lá também. Já aproveito para dizer que Estados Unidos é lugar de Harley Davidson. São muitas. Todos têm uma HD parada na garagem, desde o empregado mais simples até o alto executivo. É realmente impressionante. Para fãs dessa moto, o lugar é Estados Unidos. Nas concessionárias da marca a quantidade de acessórios é de assustar. Paramos para almoço no píer de Santa Bárbara, famoso em filmes e por ser também a cidade da Neverland do Michael Jackson. Comemos um caranguejo gigante (crab), prato típico do local. O bicho devia ter quase um metro se esticadas as suas patas.

Continuamos pela PCH 1 que em alguns trechos fica em pista simples e com um precipício do lado do mar. A velocidade máxima permitida para o local varia de 80 a 110 km/h e todos respeitam. As leis são seguidas à risca. Muita neblina prejudicava a apreciação do panorama do oceano e a umidade embaçava o capacete. Começou a esfriar e esse seria o maior frio de toda a viagem, cerca de 10C. Neste trecho da PCH 1 já tivemos contato com o tratamento da polícia. O Rohit, com pouca experiência de pilotagem, em uma curva invade a pista contrária bem no momento em que vinha um carro da polícia. Não deu outra. Os policiais deram um cavalo de pau no acostamento e vieram parar a gente. Ao perceber que éramos estrangeiros, apenas nos chamaram a atenção e deram conselhos de segurança. Esse foi o tratamento dos policias em toda a viagem: cortês, gentil e sempre com o objetivo educacional. Chegamos em Carmel por volta das 21:00 hs e nos hospedamos no Normandy Inn, bem na rua central, por US$ 100,00 em quarto duplo. Estamos em alta temporada de turismo nos EUA e esse foi um dos hotéis mais caros de toda a viagem, mas não tínhamos opção, pois não havia camping na cidade e já estava completamente escuro. Nesta cidade também tivemos o primeiro contato com um fato que deve ser levado em consideração por quem viaja por aqui e também no Canadá: os restaurantes fecham muito cedo. Eram 22:00hs quando saímos do hotel para jantar e as cozinhas de todos os restaurantes da cidade já estavam fechadas. Apenas serviam bebidas. O jantar acabou sendo uma dúzia de cervejas. Essa situação iria se repetir várias vezes durante a viagem.

29/06/2009 – Carmel a Bodegas Bay – 352 Km

Neste dia fomos encontrar o Ricardo Cilento em La Honda, cidade que fica a aproximadamente 80 Km de San Francisco. Encontramos o quarto componente da viagem no lugar marcado e seguimos para San Francisco, onde paramos por alguma horas para conhecer um pouco da grande e bela cidade americana. Lugares mais populares como a Lombard Street e a Golden Gate foram visitados, sem deixar de fazer o passeio de bonde pelo centro da cidade, num sobre e desce de suas íngremes ladeiras.

Saímos de San Francisco pela ponte Golden Gate e seguimos a norte pela US 101 e depois pela PCH 1 ainda margeando o Oceano Pacífico. Rochedos gigantes pontuam o mar, dando um visual incrível. Após cerca de 200 km rodados passamos e procurar por um lugar para hospedagem. Ali em Doran Beach – Bodegas Bay, resolvemos fazer nosso primeiro camping, pelo qual pagamos US$ 22,00 para colocar as quatro barracas. Jantamos fish and chips (peixe frito e batatas fritas) em um boteco próximo, compramos cervejas e ficarmos no escuro da noite, ao redor das barracas, em um bate papo muito gostoso. As motos estacionadas ao lado das barracas, o mar a nossa frente.

Sobre a questão de camping vale uma informação: nos Estados Unidos e Canadá é muito comum acampar. Porém a maioria dos espaços é reservadas para os R.V. (recreational vehicles) que são traillers e motor-homes gigantes. Os americanos e os canadenses realmente gostam disso e há milhares deles circulando. É impressionante a quantidade, são inúmeros os lugares reservados só para este tipo de turismo. Onde há lugar para R.V., há lugar para uma barraquinha.

30/06/2009 – Bodegas Bay a Klamath – 496 Km

Acordamos cedo e após desmontarmos as barracas e arrumarmos toda a tralha na moto, seguimos pela US 101, passando por Point Arena e Fort Bragg e pelo Redwwok National Park, onde a estrada fica bem sinuosa no meio de imensas sequóias e outras árvores de troncos de diâmetros muito grandes. Saímos à esquerda da US 101 para conhecer a Chandelier Tree, ou também conhecida como Drive Thru Tree, que é uma árvore de 2400 anos, com mais de 100 metros de altura e cujo tronco, de 6 metros de diâmetro, foi perfurado e pode-se passar de carro dentro da árvore. Ali mesmo na sombra da árvore almoçamos um cachorro quente. Seguimos até Klamath na beira do Pacífico onde nos hospedamos no Motel Trees a US$ 110,00 em um quarto para 4 pessoas. Motel nos Estados Unidos e Canadá são a melhor opção de hospedagem pois são baratos e as motos ficam estacionadas na porta dos quartos, facilitando bastante o manuseio das bagagens. Um jantar no próprio motel e cama.

01/07/2009 – Klamath a Raymond/Oregon – 693 Km

Na estrada, pela US 101, sentido norte, almoçamos em Crescent City e entramos logo depois no estado do Oregon. A estrada sempre margeando o Pacífico e com aqueles grandes rochedos pela praia. Harley Davidsons por toda a parte. Nas paradas sempre um papo com os motociclistas, sempre simpáticos e com dicas de viagem. Passamos por Astoria, cruzamos a imensa ponte que divide a cidade e, quase sem gasolina, chegamos a Raymond, onde nos hospedamos no Golden Lion Inn a US$ 80,00 em quarto duplo, um dos poucos motéis da cidade que é muito pequena. Em frente do motel tem o Top Notch Tavern, um boteco muito divertido com mesa de sinuca. A proprietária, de 80 anos de idade, desafiava os clientes em partidas de bilhar. Por se tratar de uma cidade pequena, nossa presença virou atração. Todos no boteco querem conversar, perguntar sobre a viagem e sobre o Brasil.

Aqui faço um comentário. Viajando pela América do Sul, as pessoas têm curiosidade para saber principalmente de onde somos, a potência e o valor da moto. Nos Estados Unidos e no Canadá as perguntas são sobre onde fica o Brasil e qual nossa atividade profissional. Daí o papo deriva para questões econômicas, sociais, etc. Não há perguntas sobre a motocicleta, embora as BMW sempre chamem a atenção pois há realmente poucas circulando em território americano e canadense. O negócio aqui é Harley Davidson.

02/07/2009 – Raymond a Hope/Canadá – 472 Km

Deixamos Raymond logo cedo e partimos em direção a fronteira com o Canadá. Passamos por Seattle, imensa cidade americana, moderna, edifícios belíssimos, pontes, estádios e com rodovias de até 6 pistas que a circundam. Nos arredores de grandes cidades americanas é bom ficar muito atendo ao mapa, às placas ou ao GPS, pois é um emaranhado de sinalizações que fica muito fácil errar uma das entradas ou saídas de rodovia. Nosso objetivo era passar a fronteira com o Canadá, em Abbotsford. Fizemos os trâmites aduaneiros com muita facilidade e entramos no Canadá logo parando em um grande centro de serviços e alimentação, onde almoçamos e trocamos dólares americanos por dólares canadenses. O dólar americano não é aceito no Canadá, em nenhum lugar que pesquisamos. Rodamos pelas belas estradas canadenses até uma cidade muito simpática chamada Hope, onde localizamos um excelente lugar para camping, o Camping Testel. Na beira de um grande rio, rodeado por montanhas cobertas de pinheiros verdes. Acampamos embaixo de árvores. Novamente o agradável ambiente do camping: barraca montada, moto na porta, janta e cerveja na mesa colocada embaixo das árvores. Muito papo e gargalhadas na turma de viajantes. Todos já montam suas barracas com facilidade, quem quer tomar banho vai, quem não quer vai atrás de comida e bebida. A noite caiu mas já começamos a sentir os sinais de que estávamos avançando bastante em direção norte, pois não chegou a ficar a escuridão total.

03/07/2009 – Hope a Williams Lake – 392 Km

Estamos no estado de British Columbia.  A rodovia Transcanadá, HWY 1, nos leva por baixas montanhas e sempre acompanhando o Fraser River até Cache Creek, onde almoçamos. No trajeto até Willians Lake paramos em Clinton. Fazia muito calor e tivemos que nos refrescar em um boteco (Jake´s Pub) jogando sinuca em plena tarde de sexta-feira. Em Willians Lake nos hospedamos no Motel Stampeder a Can$ 75,00 em quarto duplo. É dirigido por uma família de chineses muito engraçados. Ao lado do motel estava o melhor boteco da cidade, então lá foi nosso jantar e nossa cerveja do dia. Encontramos um canadense francês que viajava com sua Kawasaki KLR 600 e com ele pegamos várias dicas de viagem.

04/07/2009 – Williams Lake a New Hazelton – 698 Km

De Willians Lake partimos direção norte pela rodovia 97 e em Prince George pegamos a esquerda pela 16. Passamos por várias pequenas e charmosas cidades, todas com belas placas talhadas em madeira em suas entradas, dando boas vindas aos viajantes. É o caso de Vanderhoof, Burns Lake e Houston. Ótima estrada. Em Smithers paramos para apreciar o Gulch Glaciar e seguimos até New Hazelton, onde nos hospedamos no Buckley Valley Motel a Can$ 79,00 em quarto duplo.

05/07/2009 – New Hazelton a Watson Lake – 799 Km

Na encruzilhada da rodovia 16 com a Cassiar Highway vimos pela primeira vez o nome Alaska escrito em uma placa. A Cassiar Highway é pouco usada pelos viajantes e este foi o motivo de termos escolhido este trajeto. Passa por inúmeros lagos e floresta densa. Muitas paradas para fotografia. As estradas canadenses são ótimas mas são vários os pontos onde há obras de manutenção. Assim, há vários trechos de terra. Como o Rohit estava com moto inapropriada e também não tinha experiência de pilotagem neste tipo de terreno, eu ia à frente de todos para testar o solo e, em caso de algum perigo maior eu voltava e avisava o pessoal. Mas não tinha nada demais e o percurso foi uma grande diversão, apesar da grande distância e dos poucos pontos de descanso. O fim da Cassiar Highway se dá na Alaska Highway, lendária rodovia que nos levará ao Alaska. No final da Cassiar Highway também está a fronteira com o Território do Yukon. Na interseção rodamos aproximadamente 25 Km a leste para nos hospedarmos em Watson Lake. Na Alaska Highway já fica mais difícil encontrar alojamento. Em Watson Lake acampamos no Watson Lake Campground por Can$ 6,00, embaixo de árvores e com mosquitos que são enormes e aparecem aos milhares. Aliás, desde a Cassiar Highway já é indispensável o uso de repelentes. É espantosa a quantidade e o tamanho dos mosquitos nesta região e isso vai nos acompanhar por todo o Alaska. Chegamos em Watson Lake por volta das 20:00hs e, conforme já comentado neste relato, os restaurantes já estavam todos fechados assim como as lojas de conveniência e pequenos mercados. Comemos um hambúrguer feito por um escocês no único lugar ainda aberto e fomos para o camping. Aqui já não escurece mais. Começam nossos dias sem ver a escuridão da noite. A claridade reina durante 24 horas. Eu já podia ler meus livros, dentro da barraca, às 2 horas da manhã, sem necessidade de acionar a iluminação interna da barraca. Experiência bem diferente para nós brasileiros.

06/07/2009 – Watson Lake a Whitehorse – 452 Km

Whitehorse é a capital do Território do Yukon. O percurso é todo feito pela Alaska Highway. Vários trechos em obras porém sempre com ótima sinalização e apoio por parte dos operários da estrada. Muitos motociclistas. Vários modelos e adaptações de Harley Davidson. É bastante comum as Harleys com reboque. Encontramos também várias Honda Gold Wing com side-car, ou seja, um carrinho acoplado na lateral da moto onde um terceiro componente pode ir alojado. Eu particularmente acho aquilo muito esquisito, talvez seja melhor ir de carro, então. Whitehorse é uma cidade pequena mas é a principal da região. Encontra-se de tudo por lá. Fazia muito calor e a procura por alojamento tornou-se massacrante. Encontramos várias opções, porém muito caras, cerca de Can$ 100,00 em quarto duplo. No visitor centre da cidade recebemos a dica de um local para backpackers, ou seja, onde os mochileiros ficam. Por Can$ 52,00 em duplo, ficamos no Beez Knees Backpackers, próximo ao Yukon River. O local era muito diferente. Um dos “quartos” era uma Kombi estacionada no quintal, onde podiam ficar 2 pessoas. Meu quarto foi um rancho de madeira com um beliche que dividi com o Ricardo Cilento. Na hospedagem estavam pessoas de todas as partes do mundo e de todas as idades e culturas. O Roger e o Rohit resolvemos fazer um barbecue, ou seja, um churrasco para todo o pessoal. Foi uma grande confraternização. O clima era tão amigável e agradável que o Cilento nos brindou com um show de ópera, cantada em um italiano perfeito. Alemães, ingleses, australianos, israelenses, canadenses, todos trocando idéias, comendo e bebendo até altas horas da noite (noite que não chega, pois fomos dormir às 2 da manhã com claridade total).

07/07/2009 – Whitehorse – Fronteira do Alaska – 480 Km

Compramos comida em uma loja de Whitehorse e seguimos viagem pela Alaska Highway. No primeiro local de descanso paramos e fizemos um pic-nic como café da manhã. Apesar da idade média do grupo ficar nos 40 anos, estávamos nos sentindo como crianças nessa viagem: acampamentos, pic-nics, encontro com jovens do mundo inteiro, todos os dias sobre nossas motos, realmente ótimos momentos sendo vividos por nós.

Viajando pela Alaska Highway, paramos para abastecer e logo depois estaria a Haines Junction, uma bifurcação da Alaska Highway. Combinamos de tirar fotos na placa indicativa do Alaska na Haines Junction. Eu fui o primeiro a chegar então me coloquei em posição para tirar fotos dos demais. O primeiro foi o Cilento. Ele tirou a foto sem desligar a moto e seguiu adiante. Por conta disso acabou não seguindo a Alaska Highway (que vira à esquerda), e foi reto. Na verdade ninguém percebeu que ele tinha tomado a direção errada, então continuamos a tirar fotos, com muita tranqüilidade. Retomamos a viagem e cerca de 100 Km adiante começamos a sentir falta do Cilento. As teorias do que poderia ter acontecido foram colocadas e a conclusão era uma só: ele foi em direção a Haines. Imaginamos que ele iria perceber logo o engano e viria atrás de nós. Enfim, no final do dia ele foi nos encontrar somente no Alaska. Acabou rodando 360 Km a mais que o necessário, uma grande pena, mas fica aqui o conselho para sempre prestar muita atenção em importantes bifurcações da estrada.

Eu, Roger e Rohit, depois das fotos em Haines Junction, seguimos pela Alaska Highway em direção à fronteira com o Alaska. Íamos deixando recados para o Cilento em todos os postos de gasolina onde parávamos e no restaurante em Destruction Bay,. Ficamos esperando por ele mais de uma hora em Destruction Bay, mas nada.

A fronteira Canadá/Estados Unidos foi muito tranqüila. As perguntas que se tornariam padrão: qual seu destino nos EUA, quantos dias permanecerão no país, se estamos levando armas ou drogas ou mesmo mercadorias com valor comercial. Sempre trâmites muito rápidos e geralmente com muita gentileza por parte dos policiais.

Logo após a fronteira paramos para as fotos na placa “Bem vindos ao Alaska”. Era uma importante etapa da viagem sendo cumprida. Cerca de 20 Km depois paramos no camping do Boarder City Lounge, um posto de gasolina com local para estacionamento dos R.V. onde também é possível armar barracas por US$ 12,00, com direito a banho quente porém sem proteção contra os ursos, o que fez com que o Roger não pregasse o olho durante a noite. A questão dos ursos nesta região realmente é muito séria. Inúmeros avisos em todos os lugares alertam os viajantes para os cuidados com os animais, sendo que o mais perigoso é o urso. Já havíamos avistado vários ursos nas estradas. Uma vez paramos para tirar fotos, porém com o motor da moto ligado, prontos para zarpar rapidamente em caso de ataque. Outros animais que se avistam com facilidade por lá são os alces, búfalos, veados e principalmente esquilos, que cruzam a estrada a todo momento.

Já com nossas barracas montadas e de banho tomado, chega o Cilento, exausto. Tínhamos deixado nossas motos na beira da estrada para sinalizar nossa presença.

Neste camping encontramos o Tom, um americano de 72 anos de idade, ex-piloto de guerra e também de voos comerciais. Viaja sozinho com sua Harley edição especial para veteranos do exército americano. Uma ótima conversa e muita informação trocada.

08/07/2009 – Fronteira do Alaska a Fairbanks – 471 km

Seguimos para Fairbanks, principal cidade do interior do Alaska e ponto estratégico de acomodação para nosso trecho mais importante em direção ao Oceano Ártico, em Prudhoe Bay. Longas retas, velocidade média de 130 km/h pela Alaska Highway. Em Delta Junction está a placa sinalizando o final da Alaska Highway. A chegada em Fairbanks me surpreendeu, pois imaginava uma cidade pequena, interiorana, mas é uma cidade grande, com largas avenidas, comércio forte, etc.

Procuramos logo pela concessionária da BMW da cidade. Com alguma dificuldade a localizamos e acabamos nos hospedando em um motel bem em frente, o Golden North Hotel, por US$ 97,00 para duas pessoas.

No serviço de locação das motos estava incluída a troca de óleo e de pneus. Como partimos de Los Angeles como pneus novos, eu imaginava que não seria necessário trocá-los aqui, afinal tínhamos rodado pouco mais de 5.800 Kms, mas surpreendentemente o traseiro mostrava-se careca, sem condições de encarar os quase 1600 km de terra pela frente. Assim, acabamos trocando os pneus ali mesmo e optamos por um modelo off-road, o Continental TKC80, que não está disponível no Brasil. As motos receberam uma revisão, troca de óleo e uma lavação, tudo incluído no serviço prestado pela empresa que alugou as motos.

Na concessionária, que na verdade é da HD, porém fazem serviço autorizado em BMWs também, os funcionários e alguns viajantes que ali estavam só nos davam péssimas notícias sobre o trajeto da Dalton Highway, que é a estrada de terra que nos levaria até Prudhoe Bay. Chamavam a estrada de “destruidora de motos” e que estavam cansados de atender acidentados que viajavam para lá. Eu já tinha passado por isso antes. Pessoas dando todo o tipo de más notícias a respeito de um trajeto. Procurei não dar ouvidos e, ao consultar o grupo, foi decidido que os planos seriam mantidos conforme o original.

Neste dia tivemos uma baixa no grupo. O Rohit, por problemas a resolver no Brasil com seu trabalho, iria embarcar sua moto de volta a Los Angeles e seguiria de avião a Miami e dali para o Brasil. Tudo bem, uma pena pois sua companhia era muito importante, mas não tínhamos o que fazer, vamos seguir adiante, eu, Cilento e Roger.

09/07/2009 – Fairbanks – 0 Km

Tiramos o dia para descansar enquanto as motos eram reparadas na oficina. Circulamos pelo centro de Fairbanks, compramos recordações.

No final da tarde as motos ficaram prontas. Preparamos um churrasco na porta do quarto do hotel, com direito a mignon e salmão. Motociclistas ingleses e americanos que estavam hospedados no mesmo hotel se juntaram a nós e foi uma grande confraternização.

10/07/2009 – Fairbanks a Coldfoot – 418 Km

A despedida do Rohit foi rápida logo pela manhã. Seu avião partiu para Miami e nós começamos a preparar nossas motos para o principal objetivo da viagem: alcançar o Oceano Ártico, em Prudhoe Bay/Deadhorse.

Deixamos os bauletos laterais no hotel. Partimos apenas com o equipamento de camping e algumas roupas no bauleto traseiro. Não era necessário carregar todo o peso neste trecho. Os primeiros quilômetros são de ótimo asfalto, até pouco depois de Livengood. Ali começa a Dalton Highway. Fotos na placa. Deixei um adesivo do Rauen Moto Viagem colado nela. Últimos conselhos a respeito da estrada de terra foram repassados. O importante é chegar ao destino, não importava sermos rápidos. Nosso plano era fazer a viagem até o Oceano Ártico em duas etapas, com uma parada em Coldfoot. Começa a estrada de terra e o trecho que encontramos estava ótimo, seco e firme. Rodamos com facilidade, apesar da poeira forte que levantava dos imensos caminhões que vinham em sentido contrário. O movimento de caminhões na Dalton Highway é intenso e eles têm a preferência. Assim, nenhum truck driver  alivia a velocidade por causa de motocicletas em sentido contrário. No percurso até Coldfoot passamos pela ponte sobre o Yukon River, o maior da região. Paramos para almoço no Yukon River Camp e ali abastecemos as motos. Pouco depois paramos no Hot Spot, um local para alimentação muito louco, com uma decoração inusitada. Muitas fotos e mais um adesivo do Rauen Moto Viagem deixado no local. Falando em decoração, desde que entramos no Território do Yukon é muito comum vermos chifres de alces na frente das casas, restaurantes e bares, assim como peles de diversos animais, inclusive de ursos e lobos. Quando estávamos deixando o Hot Spot, a proprietária veio até nós e disse: “Take care. Don´t let me be the last face you see”. Ou seja, “tomem cuidado, não deixe que eu seja a útlima pessoa que vocês encontram”, fazendo direta referência ao perigo de rodar nestas estradas, de moto. Eu achei aquilo mais um dos exageros de quem não entende que viajamos com total segurança, com equipamentos apropriados e cientes de que temos que ter cuidado. Valeu o aviso, mas vamos adiante.

Após o Hot Spot a viagem segue pela estrada de terra e areia solta, com muita poeira. Nossa próxima atração foi a linha imaginária do Círculo Polar Ártico. Paramos para diversas fotos. No local há muita informação a respeito do círculo polar, posição solar, etc. Grande parte dos viajantes que vêm para esta região retornam daqui. Nós fomos em frente. Chegamos em Coldfoot por volta das 19:00 hs. Coldfoot nada mais é que quatro bombas de gasolina, um bar/restaurante, alguma representação do exército americano e alguns “hotéis”. Os hotéis são bem rústicos, porém cobram a diária de US$ 199,00 por pessoa. Fora da cidade há um recentemente instalado visitor center, onde toda a informação é prestada aos viajantes. É uma instalação que destoa de todo o resto da cidade, pois é muita modernidade para estar ali, no meio do nada. Em Coldfoot está a última opção de abastecimento de combustível. Há uma placa alertando os viajantes de que a próxima chance de encontrar gasolina é apenas em Prudhoe Bay, 384 Km adiante. Logo na chegada já enchemos os tanques e providenciamos gasolina de reserva. Cada um levou aproximadamente 10 litros a mais.

Como os hotéis tinham preços além do nosso orçamento, perguntamos no restaurante que opção teríamos. Quem nos atendeu disse: “podem acampar onde quiserem, em qualquer lugar, sem qualquer custo”. Ok, ótimo, é isso que vamos fazer. Fui incumbido de circular pelo local à procura de um bom lugar para acampar. Rodei por todo o vilarejo e acabamos optando por ficar bem ao lado do restaurante, em um lugar cheio de pedras, mas ao menos era abrigado dos ventos. Estávamos acabando de montar as barracas quando um nativo da cidade vem ao nosso encontro com seu ATV (espécie de motocicleta de quatro rodas, muito comum por lá) e diz: “por que não acampam no quintal de minha casa, na beira do rio, é um lugar maravilhoso, muito melhor que isso aí”. Já tínhamos montado as barracas e então não íamos nos mudar agora. Mas estava prevista outra noite nesta cidade no nosso caminho de volta, então o Roger seguiu o homem até sua casa para conhecer o lugar e deixar “reservado” para dois dias depois. O Roger voltou de lá maravilhado com o lugar e com a casa do cara. Era um trabalhador do petróleo e caçador. Sua casa era uma casebre de madeira, com o característico chifre de alce na porta. Dentro, muitas armas e troféus de caça, peles de urso, lobo, etc. Estava decidido, na volta, ficaríamos acampados por lá, e o que é melhor, de graça.

11/07/2009 – Coldtoof a Prudhoe Bay – 384 Km

Na manhã seguinte partimos para o trecho tido como o mais difícil da viagem. De Coldfoot até Prudhoe Bay seriam 384 Km de estradas de terra, sem qualquer estrutura de apoio no percurso. Os primeiros 180 Km foram tranqüilos, sem qualquer problema. Em uma parada para tomar água, encontramos um casal que viajava em R.V.  que nos alertaram: “a estrada está horrível até Prudhoe Bay, tomem cuidado. Como suas motos ainda estão limpas?”. E continuou dizendo que a estrada em frente estava muito úmida, com uma lama cinzenta, funda, coisa ruim mesmo. Era verdade, pois seu R.V. estava completamente tomado de lama em camadas grossas.  Seguimos em frente e chegamos ao Atigun Pass, a montanha mais alta da região. Ali a coisa começou a merecer maiores cuidados. A estrada passou a mostrar sua face mais complicada. Úmida, lamacenta e escorregadia. Fomos seguindo e a coisa piorou. A pista ficou completamente intransitável. Não havia buracos, o problema era a umidade. Duas coisas fizeram com que a pista ficasse daquele jeito: a chuva da noite anterior e, principalmente, um produto químico que caminhões jogam na pista para que propositalmente ela fique úmida, evitando a poeira, o que melhora a circulação dos caminhões, que, como já relatamos, têm preferência. Logo após o produto químico espalhado na pista, vem o trator fazendo o trabalho de terraplanagem. A coisa fica realmente difícil para as motos. Passamos a rodar com velocidade de 20 a 30 km/h. A lama começou a impregnar em toda a moto. A roda traseira já não podia ser vista, assim como a placa e a bandeira do Brasil que eu trazia presa no bauleto traseiro. Caminhões e pick-ups vinham atrás de nós colocando pressão em nosso ritmo. Saíamos da pista para que passassem. Foram quase 200 Km deste tipo de terreno. O céu escuro, mas não chovia. E vamos em frente. Em Happy Valley, nome muito apropriado, pegamos 20 Km de asfalto e foi só. Retornamos à lama e ao suplício. Mas nosso destino estava perto, logo ali, não iríamos desistir. Com muito cuidado e paciência chegamos a Prudhoe Bay, exaustos, sem forças para nada, apenas procurando por descanso. As motos estavam em estado lastimável, completamente cobertas pela lama cinzenta. O problema desta lama é que ela pode bloquear locais de resfriamento do motor e simplesmente fundi-lo. Foi o que aconteceu com uma BMW GS de um inglês que encontramos em Prudhoe Bay. O cara teve que mandar a moto de caminhão para Fairbanks. Nossas motos, apesar de imundas, estavam Ok.

Em Prudhoe Bay não é possível acampar. O local é um campo de trabalhos petrolíferos e é lama por todo o lado, além do vento constante. Quem vem pra cá tem que se sujeitar a ficar em um dos hotéis (acho que são apenas 2) cuja diária é de US$ 150,00, por um quarto de 6m² com banheiro compartilhado. Toda a comida é fornecida pela instalação, incluída no preço da diária. Na verdade estamos em uma hospedagem para os trabalhadores do local. Como sobram vagas, às vezes, elas são disponibilizadas para os turistas. Assim, acabamos hospedados no Prudhoe Bay Hotel. Dormir era tudo que queríamos.

12/07/2009 – Prudhoe Bay – Coldfoot – 384 Km

Acordamos cedo para a visita guiada até o Oceano Ártico, pois não é permitido ir de moto até o local. Por US$ 40,00 embarcamos em um ônibus que nos levou até lá. Assistimos a um vídeo sobre o local e soubemos de sua importância para os EUA.  Quase 40% de todo o petróleo usado pelos americanos sai de Prudhoe Bay. Já no Oceano Ártico, eu fui o único que teve coragem de colocar os pés no mar. Foi incrível. Em apenas alguns segundos com os pés na água, eu tive a nítida sensação de que meus pés iriam congelar e quebrar como peça de gelo. Enfim, havíamos chegado ao final do continente americano ao norte. Ushuaia ao sul, Prudhoe Bay ao norte, missão cumprida. Vamos voltar encarando novamente os 200 Km de lama do dia anterior.

Uma grata surpresa nos aguardava. Como no dia anterior não tinha chovido e o sol fez seu trabalho de secar um pouco a estrada, todo aquele lamaçal não estava mais lá, incrível. O que encontramos foi a pista ainda úmida porém estava firme. Milhares de buracos, mas tudo bem. Aproveitamos esta situação e aceleramos forte. Rodamos a 100, até 130 km/h na estrada que no dia anterior andar a 40 km/h era um ato de extrema habilidade. Por conta disso, o dia acabou sendo uma grande diversão. Rodamos até Coldfoot sem qualquer problema. Muitas paradas para fotos e filmagens, lanche, etc. Fica um aviso aos que querem ir pra lá: a pista muda muito. Em um dia pode estar péssima e no outro dia tudo está Ok. Você pode receber comentários de alguém que achou tudo um inferno como pode, também, receber informações que tudo foi um grande passeio de moto off-road. Foi muito divertido nosso retorno à Coldfoot. Chegamos também exaustos, claro, mas muito satisfeitos por não termos desistido com os comentários em Fairbanks.

Em Coldfoot fomos direto abastecer as motos e procurar pelo Mike, aquele cara que tinha oferecido seu quintal como camping. Não demorou a aparecer e lá fomos nós. Acampamos nossas barracas na beiro do riacho, em um lugar paradisíaco. Filmamos sua casa, seus pertences, suas armas, seus troféus de caça, seu snow-mobile, enfim, estivemos com um nativo do Alaska por várias horas e aprendemos muito. O Mike já tinha deixado muita cerveja gelando a nossa espera.

13/07/2009 – Coldfoot a Fairbanks – 418 Km

A estrada até Fairbanks estava ainda melhor. Foi o momento de treinarmos nossas habilidades off-road, pois chegamos a andar a 150 km/h naquelas estradas de terra. Muito divertido e com um visual magnífico. Muitas paradas para fotos e filmagens.

Ficamos hospedados novamente no Golden North Hotel. Objetivo principal alcançado, estávamos todos satisfeitos. Seguiríamos o caminho de volta, sentido sul.

14/07/2009 – Fairbanks a fronteira do Alaska/Canadá – 471 Km

Trajeto tranqüilo, pelo mesmo caminho que fizemos na vinda. Com a alma lavada de termos chegado ao Oceano Ártico, viajamos calmamente. Música no MP3 a todo volume! Acampamos novamente em Boarder City Lounge.

15/07/2009 – Fronteira do Alaska a Skagway – 538 Km

Cruzamos a fronteira do Alaska com o Canadá embaixo de muita chuva. Paramos em Beaver Creek para esperar a tormenta passar mas não adiantou. Continuava chovendo forte. Sem opção, seguimos assim mesmo. Em Haines Junction nos separamos. O Cilento seguiu direto a Whitehorse e eu e Roger fomos conhecer Haines e Skagway. Marcamos de nos encontrar no dia seguinte em Liard River. Fomos então pela Haines Highway em direção a Haines. Uma estrada belíssima, cercada por montanhas nevadas e gelo nas margens da pista. Novamente tivemos que fazer aduana Canadá/EUA, com tranqüilidade, e chegamos em Haines, uma simpática cidade na margem dos canais do Pacífico. Circulamos pela cidade, jantamos em um pub e pegamos o ferry-boat que nos levou até Skagway naquela mesma noite. No percurso do barco avistamos montanhas nevadas, cascatas de neve em degelo, três navios de cruzeiros enormes. A chegada em Skagway foi às 22:00 hs. Começamos a circular pela cidade à procura de hotel e acabamos ficando no Westmark Inn, ao preço elevado de US$ 115,00 em quarto duplo, pois não havia outra opção. Como já passava das 22:00 hs, todos as cozinhas já estavam fechadas, a cidade parecia fantasma. Novamente o jantar foi cerveja nos bares ainda abertos, com destaque para o Red Onion Saloon.

16/07/2009 – Skagway a Liard River – 712 Km

Incrivelmente a cidade havia se transformado: estava lotada de turistas que saíram do gigantesco navio ancorado no porto. Compramos algumas recordações e apreciamos um pouco da cidade, que é muito bonita e organizada, parece uma cidade do velho oeste, muito conservada. Aqui encontramos muitos totens, que são esculturas em troncos de árvores pintadas de diversas cores, característico da região.

Partimos de Skagway por volta do meio dia sob fina chuva. Passamos novamente a fronteira para o Canadá e chegamos à Alaska Highway. Rodamos forte pela Alaska highway, com “tiros” de 240 Km, até chegarmos, por volta das 23:00 hs, em Liard River, onde reencontramos o Cilento. A escolha de Liard River como ponto de encontro foi por conta das águas termais do lugar. Assim, após armarmos nossas barracas, fomos tomar banho. Era meia-noite, céu claro, e estávamos mergulhados em águas de aproximadamente 40°. Muito relaxante, apesar dos enormes e numerosos mosquitos que ainda nos perseguiam, tanto no Alaska como no Yukon e também aqui no norte da British Columbia. Dá-lhe repelente. A água quente nos fez dormir facilmente, apesar de estarmos acampados em cima do cimento de um abrigo disponível no local. Uma experiência muito interessante. Acampado conosco estavam uns americanos. Um deles viajava com sua BMW 1969, que ele comprou 0 Km. Imaginem, eu nem havia nascido e o cara já tinha aquela moto.

17/07/2009 – Liard River a Fort Nelson – 316 Km

Rodamos apenas 316 Km pois havia muitos trechos em obras na estrada, o que nos levou a perder várias horas. Rodamos em volta de vários lagos. Aliás, o Canadá é o país com o maior número de lagos do mundo. Por todos os trajetos que fizemos nas estradas canadenses, sempre tinha um lago ao lado da pista, com magníficos panoramas para muitas paradas para contemplação. Chegamos em Fort Nelson completamente empoeirados. Hospedamo-nos no Blue Bell Inn por Can$ 118,00 para o quarto triplo. Em frente ao motel estava o melhor pub da cidade. Para lá fomos, jogar sinuca, jantar, beber alguma coisa, bater papo. Na sinuca acabamos apostando a dinheiro e o Cilento, com muita categoria, ganhou todas.

18/07/2009 – Fort Nelson a Grande Prairie – 581 Km

Seguimos pela Alaska highway até Dawson Creek. Esta cidade marca o começo (para nós o final) da Alaska Highway. Tiramos fotos na placa e logo depois houve a segunda separação do grupo. O Cilento, como havia comprado a moto em San Francisco, achou melhor deixá-la por lá para revender. Assim, dali ele seguiu sozinho para a costa oeste e eu e o Roger seguimos para leste. Agora nosso grupo consistia de apenas duas motos, as duas BMW R1200GS. De Dawson Creek fomos em direção à Grande Prairie. Muita chuva e frio. Paramos em um posto de gasolina e o dono nos alertou que havia uma forte chuva de granizo à frente. Fizemos bem em parar por algum tempo ali. Cerca de uma hora depois decidimos seguir viagem, mesmo com chuva. Fomos até Beaverlodge, onde há uma estátua gigante de um castor e batemos foto. Seguimos na chuva até Grade Prairie, uma grande cidade no meio de uma enorme planície. Ficamos hospedados no Parkside Inn, logo na entrada da cidade, por Can$ 77,00 em quarto duplo. Chovia muito. Sujamos bastante o quarto do hotel com nossas botas. Nossas roupas estavam encharcadas.

Jantamos e nos divertimos no pub em frente ao hotel, do outro lado da rodovia.

19/07/2009 – Grande Prairie a Edmonton – 448 Km

Largas rodovias nos levaram até Edmonton, grande cidade capital do estado de Alberta, Canadá. Edmonton é muito bonita, porém era domingo e o comércio estava todo fechado. Na praça da cidade uma boa banda de rock tocava para o público. Ficamos hospedados no Alberta Place por Can$ 120,00 em quarto duplo.

20/07/2009 – Edmonton a Saskatoon/Dundurn – 562 Km

Saímos de Edmonton em direção a Saskatoon, capital do estado de Saskatchewan, no Canadá. Rodamos por longas e largas estradas com pouco movimento. Ao chegar em Saskatoon e vendo tratar-se também de uma enorme cidade, o que significa complicações de trânsito e hospedagem mais cara, decidimos sair da cidade e então paramos em Dundurn, no motel Kathy´s por Can$ 43,00 em quarto duplo. Ali mesmo no motel tinha restaurante e o papo rolou até a madrugada, na porta do quarto, com as motos paradas bem em frente.

21/07/2009 – Dundurn a Harvey USA – 725 Km

Saímos de Dundurn no ritmo de uma parada a cada tanque quase vazio. Assim fizemos tiros de 290 Km até chegar à fronteira com os EUA, logo após Estevan. Esta passagem de fronteira foi a única que nos deu problemas. Pediram que saíssemos da moto (até aqui, em todas as fronteiras, nem tivemos que sair da moto para fazer os trâmites, com exceção de Abbotsford). Deram uma geral nas bagagens, muitas perguntas realizadas em salas isoladas, como se quisessem confrontar minhas respostas com as do Roger. Entretanto, tudo com muita gentileza e cordialidade. Fomos liberados e seguimos viagem novamente em território americano. O clima estava bom, ótimas estradas, então decidimos seguir viagem até onde fosse possível, pois nosso plano original era pernoitar em Estevan, ainda no Canadá. Fomos seguindo até chegar a Harvey, no estado de North Dakota. Uma pequena cidade mas com boa hospedagem, que foi no RR Motel a US$ 55,00 em quarto duplo. Fomos no pub ao lado do motel e jogamos  sinuca, ouvimos boa música tocada pela jukebox enquanto os nativos curtiam uma pacata noite de bingo. Uma situação surreal mas muito interessante. Uma das mulheres do local (Harvey não deve ter mais de 1000 habitantes) vai até a máquina de música (juke-box), coloca US$ 2,00 e programa suas 5 músicas – só heavy metal. A animação toma conta e o sinuca fica muito mais agradável.

22/07/2009 – Harvey a Sioux Falls – 693 Km

Grandes retas e campos de agricultura sem fim dominam a paisagem. Rodamos rapidamente pelas rodovias 52 e 29, passando por Fargo. Paradas só com o tanque no final e em postos de gasolina com estrutura para tomar alguma coisa e talvez comer. Belíssimas paisagens que podem ser curtidas mesmo dentro do capacete. Música no MP3 e vamos adiante. Chegamos em Siuox Falls, no estado da South Dakota, por volta das 19:00 hs.

Chegamos em Siuox Falls e ficamos hospedados no Sioux Falls Inn, bem na entrada da cidade, por US$ 60,00 em quarto duplo.

23/07/2009 – Sioux Falls a Kansas City – 640 Km

Para chegar a Kansas City, capital do estado de Kansas, passamos pelo estado de Iowa, Nebraska e Missouri, pelo menos por alguns quilômetros. Cada estado americano tem suas leis próprias, por isso é importante ficar ligado nas placas de sinalização. Tudo pode mudar de um estado para o outro. Paramos em Omaha, no estado do Nebraska, para trocar o pneu traseiro na concessionária da BMW daquela cidade. Os Continental TKC80, com 7.300 Km, já davam adeus. Acho até que foram longe demais, em se tratando de pneus off-road. Colocamos Michelin Anakee por US$ 200,00 (custeado pela empresa que alugou as motos). Em Kansas City, uma enorme cidade, moderna e com edifícios belíssimos, ficamos hospedados no Econolodge, por US$ 90,00 em quarto duplo. Na noite, participamos de uma festa aberta ao público onde uma banda country tocava a todo vapor. A limpeza das cidades americanas chama a atenção. Tudo é muito organizado. Não se vê sujeira na rua, em nenhum lugar.

24/07/2009 – Kansas City a Nashville – 896 Km

Este trecho foi difícil. Apesar das ótimas estradas, obras de manutenção em alguns trechos formaram longas filas. Um sol escaldante torrava nossas cabeças dentro do capacete. Muita água para hidratar e bastante paciência. Além da grande quilometragem programada para o dia, ainda esses congestionamentos. Mas tudo bem, só alegria, afinal estávamos indo para Nashville, no Tennessee, a “cidade da música” dos Estados Unidos (assim é como ela mesma se vende). Passamos por St. Louis e seguimos em direção a Highway 24. Em um dos abastecimentos perdemos o cartão de crédito do Roger. Só fomos descobrir cerca de 200 km adiante, em uma nova parada. Telefonemas para a operadora do cartão para resolver o problema. Já era noite, nossa primeira pilotagem no escuro durante toda a viagem, mas queríamos muito chegar em Nashville. Seguindo viagem, de repente um veado ameaça entrar na estrada. Nós estávamos a 140 Km/h, o susto foi muito grande. Dali pra frente dirigimos com maior prudência e vigiando as laterais da estrada. Avistamos Nashville ao longe. Enorme cidade, edifícios altos onde se destaca a torre da AT&T. Estávamos na rodovia de  4 pistas, com várias entradas para a cidade e no escuro. Quando decidimos entrar em uma delas, demos uma grande sorte, pois ela nos jogou direto no centro da cidade, onde tudo acontece. Paramos na Broadway e pedimos informação sobre hotéis. Logo nos hospedamos no Best Western Convention Center, apenas 3 quadras distante da Broadway, a US$ 112,00 em quarto duplo. Já eram 23:00hs daquela sexta-feira. Descarregamos as bagagens no quarto, tomamos um banho e fomos para os bares da cidade, que são inúmeros, a maioria com música ao vivo de todos os tipos.

Nashville é uma grande festa. Centenas de pessoas nas ruas, curtindo música, de bar em bar. Entramos na onda e ouvimos boas bandas a noite toda.

25/07/2009 – Nashville – 0 Km

Este seria o segundo dia, em toda a viagem, que não rodaríamos com a moto. Escolhemos ficar em Nashville e aproveitar a atmosfera da cidade. Ao meio-dia muitos bares já apresentam boas bandas ao vivo, e a festa segue até a madrugada. Ficamos de bar em bar durante todo aquele sábado.

26/07/2009 – Nashville a Atlanta – 455 Km

Partimos cedo de Nashville e, sempre por ótimas estradas, seguimos até a cidade de Lynchburg, Tennessee, que é onde fica a única destilaria do famoso whiskey Jack Daniels. Fizemos uma visita guiada no local e aprendemos bastante sobre a história do Sr. Jack e da fabricação da bebida.

Com relação às estradas americanas e canadenses, vale comentar: dos quase 16.000 km que rodamos, pelo menos 13.000 foi em asfalto perfeito. Eu não lembro de ter encontrado buracos. Vale lembrar que não pagamos nenhum pedágio em toda a viagem.

Seguimos para Atlanta pela rodovia 75. A chegada em Atlanta é por um emaranhado de estradas com até 5 pistas. Muitas placas, várias saídas, etc. O GPS deu uma força e, dessa forma, conseguimos sair da rodovia no ponto certo e logo encontramos um hotel, o Quality Inn, no centro de Atlanta, por US$ 120,00 em quarto duplo. O jantar foi em uma lanchonete do Hooters, aquela cadeia famosa de fast food americana onde as meninas nos atendem em roupas mínimas. Apesar disso, o local é freqüentado por famílias. Achamos o centro de Atlanta um tanto perigoso, então não ficamos circulando por ali. Ficamos no restaurante até fechar e fomos dormir.

27/07/2009 – Atlanta a Daytona Beach – 752 Km

Originalmente íamos dormir em Savannah, mas a viagem estava muito boa então tocamos pra Jacksonville e seguimos para conhecer Daytona Beach, cidade que abriga um dos maiores encontros de motociclistas do mundo. Fica na beira do Oceano Atlântico, então isso marcou nosso cruzamento total da América do Norte. Daytona Beach é uma cidade de edifícios baixos e tudo acontece na praia. Há também o famoso autódromo onde acontecem importantes competições de velocidade. Ficamos hospedados no Mayan Inn, a US$ 99,00 em quarto duplo.

28/07/2009 – Daytona Beach a Miami – 432 Km

Seguimos pela rodovia 95 até Miami. Chegamos ao ponto final da viagem. A chegada em Miami foi muito comemorada por mim e pelo Roger. Logo entramos na imensa cidade, muito bonita e com um astral elevado. Fomos direto para Miami Beach onde logo reconhecemos vários cenários de filmes. Ficamos hospedados no Hotel Eva, na Collins Ave., por US$ 95,00 o quarto duplo.

29, 30 e 31/07/2009 – Miami – 0 Km

Ficamos três dias curtindo a cidade, fazendo vários passeios e tomando banho de mar. Até um passeio na Thriller, uma lancha que se diz a mais rápida lancha de passeio (chega a 80 km/h), nós fizemos. Com esta lancha passamos por muitos lugares maravilhosos de Miami e avistamos as caríssimas casas de muita gente famosa. Aproveitamos também para comprar alguns eletrônicos e equipamentos de motociclismo, pois os preços são imperdíveis.

No dia 31/07/2009, às 10:00hs o Sr. Jack Raynolds parou seu caminhão na frente do Hotel Eva e, com muita tristeza entre nós, foi embarcando as motos. Demos adeus as nossas companheiras e ali sentimos que a viagem tinha realmente acabado. Naquele mesmo dia pegamos o avião de volta ao Brasil.