aguanegra
 

RELATO DE VIAGEM REALIZADA AO PASO AGUA NEGRA E CARRETERA INTEROCEANICA EM DEZEMBRO DE 2010, 11.276 KM, 18 DIAS, MOTO SUZUKI DL 1000 V-STROM.

 
 

A Em abril de 2010 tentei cruzar o Paso Agua Negra, porém sem sucesso pois a época era inapropriada por conta das precipitações de neve que já são fortes e bloqueiam completamente o Paso (vejam relato na viagem Atacama 2010). Seguro de que em dezembro o Paso estaria aberto, resolvi tentar novamente e ainda juntar no roteiro a Carretera Interoceanica, no Peru.

O Paso Agua Negra é um cruzamento de fronteira entre Argentina e Chile, sobre a Cordilheira dos Andes. A estrada parte da cidade de Las Flores (Provincia de San Juan – Argentina) e chega em Vicuña (Chile). É completamente de terra e pedriscos, muito sinuosa, estreita e íngreme e chega a 4.780 metros de altitude em seu cume.

A Carretera Interoceanica, mais conhecida no Brasil como Estrada do Pacífico, é uma estrada que tem como objetivo unir o Oceano Atlântico ao Pacífico para servir de rota de comércio para os dois países. O trecho que me interessava era o que parte de Cusco e vai até Rio Branco, no Acre, passando por um longa extensão da Floresta Amazônica peruana. Este trecho tem 1.090 Km.

Os preparativos para a viagem foram os de sempre. Nada especial. Revisão completa na moto. Corrente/Coroa/Pinhão novos (DID/Vaz). Pneus novos (Michellin Anakee 2). Usei os mesmos equipamentos de pilotagem de outras tantas viagens, já bem surrados, velhos mesmo, mas que eu tinha certeza que não me desapontariam. A novidade foi o uso de um GPS (Garmin Zumo 660), instrumento que relutei muito em aderir, mas que se revelou uma ótima aquisição.

Até tentei encontrar um parceiro para esta viagem (minha esposa Michelle não poderia me acompanhar), mas não foi possível, por varios motivos. Para alguns não havia tempo disponível; para outros, a junção de Paso Água Negra e Interoceanica causaram calafrios. Como em outras vezes, sem qualquer problema ou relutância, arrumei tudo para curtir sozinho esta viagem maravilhosa.

Muitos visitantes do site acham que eu devo colocar nos textos mais informações a respeito da moto. Acho que estas informações devem ser colhidas em sites especializados, revistas especializadas ou com pessoas especializadas.
Eu não tenho conhecimento técnico suficiente para avaliar o comportamento da moto em números, siglas, etc. Eu gosto é de viajar. Se a moto não apresenta problemas, vai e volta, me dá o mínimo de conforto e segurança, para mim é a moto ideal. Nada contra, também, àqueles que se aventuram em motos pequenas demais, grandes demais, inapropriadas demais, tentando talvez provar algo que eu não sei exatamente o que é. Assim, neste texto poucos serão os comentários a respeito do comportamento da moto, a não quando realmente indispendável. Eu tenho viajado, já há algum tempo, com uma V-Strom.
Porém já viajei de Honda Shadow e também de Yamaha TDM 850. Todas elas cumpriram o seu papel com dignidade. Sempre consegui completar minhas viagens. Nunca cheguei em casa rebocado, até este momento. Nunca deixei de seguir por uma estrada de terra ou por um caminho desconhecido, fora do roteiro original, por causa da moto (exceção feita à Shadow, por razões óbvias). É claro que mesmo as chamadas Big-trails têm as suas limitações quando comparadas às leves motos trails de menor cilindrada.
Mais específicamente sobre a V-Strom: tem mostrado segurança na mecânica. Tem se mostrado capaz de encarar estradas de terra, se o piloto tiver paciência em alguns trechos. Sua autonomia é suficiente para andar na maioria das estradas sul-americanas (algumas pouquíssimas exceções na Patagônia, mas isso se resolve com gasolina reserva na bagagem). Tem excelente capacidade de carga (bagagens). Fornece a piloto e garupa o conforto necessário para rodar acima de 1.000 Km/dia. Para mim, isso é o suficiente. Não sou fã da moto ou recebo alguma coisa da fabricante por isso, mas tem sido minha companheira nos últimos 6 anos (já tive 2).

O que faço com minha moto é sempre uma revisão geral em concessionária (antes e logo depois da viagem). Troco todas a peças desgastadas por originais. Uso alguns componentes importantes de marcas consagradas, como por exemplo a corrente DID ou Regina. Sempre (com exceção da viagem Atacama 2010) protejo a moto contra arranhões com "papel contact" em suas peças de plástico como carenagem, bolha, laterais, etc. Pode-se usar isso sem problema (não use secador de cabelo para conseguir maior aderência). A moto fica feia, mas fica perfeita para viajar sem se preocupar. Com estes cuidados básicos, minha segunda V-Strom, que hoje está com 70.000 Km, parece 0 Km (ou quase).

26/11/2010 – Criciuma SC a Porto Alegre RS – 305 Km
No primeiro dia de viagem fiz um trecho curto de Criciuma SC (onde estava residindo naquela época) até Porto Alegre RS, distante apenas 305 Km. Aproveitei para adiantar uns kms após o expediente de trabalho na sexta-feira. Fui pela BR 101, depois Free-way já no Rio Grande do Sul. Fiquei hospedado na casa de um amigo em Porto Alegre. Tomamos umas cervejas para descontrair e fui dormir cedo.

27/11/2010 – Porto Alegre RS a Cerrito AR – 1.080 Km
O dia começou estranho. Fui dar carona para o meu amigo até o outro lado da cidade. O cara é grande, pesado. Quando ele apoiou seu peso na pedaleira para subir na moto, automaticamente fomos ao chão. Nada aconteceu pois a moto ficou apoiada no bauleto lateral, mas já foi um sinal para tomar mais cuidado, afinal de contas era apenas o segundo dia de viagem e eu não estava disposto a ter que levantar outras vezes os quase 300 Km da moto com bagagem…

Parti de Porto Alegre no sábado pela manhã, não muito cedo (08:00 hs) e meu destino seria Uruguaiana, já na fronteira com a Argentina. Deslizei com facilidade pela BR 290, apreciando as plantações, parando em postos de gasolina que pareciam abandonados, refrescando-me quando necessário. Cheguei em Uruguaiana as 15:00 hs e quase fui direto para um hotel mas o dia estava ótimo, eu estava 100% disposto e fazia bastante calor. Pensei no que faria em Uruguaiana o resto do dia… Decidi tocar em frente. Fiz os trâmites de ingresso na Argentina e segui para o interior do país, em direção a Santa Fé. Ao completar 1.080 Km eu estava em Cerrito (uns 70 kms antes de Santa Fé), quanto começou a chover forte, o asfalto começou a ficar bem escorregadio. Eu já não estava tão inteiro assim e percebi isso quando a moto deu uma forte jogada com a roda dianteira em uma poça d`agua, quase me derrubando. Com o coração acelerado pelo susto, resolvi dormir em Cerrito. Encontrei um hostel muito bom e barato (Hostel Cerrito, US$ 20,00). Não parou de chover aquela noite inteira. A decisão de dormir ali foi acertada. Evitei a chuva e também a incomodação de entrar em Santa Fé à procura de um hotel. Jantei no restaurante La Sede, modesto mas limpo e muito barato. Já sentia o clima do interior da Argentina e saboreava as boas carnes.

28/11/2010 – Cerrito AR a Villa Carlos Paz AR – 480 Km
A manhã seguinte me ofereceu um belo sol, pista seca, temperatura amena. Ótimo para viajar de moto! Cruzei Santa Fé, segui em direção a Córdoba por boas estradas e fui dormir em Villa Carlos Paz, pouco depois de Córdoba. É uma cidade interessante, turística. O hotel, que havia achado pela internet, foi uma decepção (Hotal Jocar, na Calle Gray), porém era barato (US$ 22,00), então valeu a pena.

29/11/2010 – Villa Carlos Paz a Las Flores – 750 Km
Boas estradas e o início da desertificação são o cenário predominante deste trecho. Porém, na saída de Carlos Paz há uma boa subida, sinuosa, com bonitos cenários do horizonte. No topo da montanha há um parador chamado Parador Del Condor, onde vale a pena tomar um bom café com umas tostadas (espécie de mixto quente). Fazia um pouco de frio mas não quis colocar os forros das roupas pois sabia que logo iria descer e o calor seria forte. Passei por San Juan e fui a norte em direçao a Las Flores. Cerca de 150 Km de Las Flores já estou em um terreno desértico, com as montanhas da cordilheira fazendo uma barreira ao fundo, um visual muito legal. Por indicação de um amigo viajante (Augusto "Quebramar" do Rio de Janeiro) fiquei hospedado no Hostel Las Flores por US$ 10,00, dividindo o quarto com um arquiteto argentino que estava por ali para construir a escola municipal. O dono do hostel (Sérgio) é uma figura, esquisita, por certo, mas acabamos fazendo uma parrillada nos fundos do hostel, com uma deliciosa carne e cerveja gelada (estranho foi o fato de todos compartilharem o mesmo copo de cerveja… me pareceu normal para eles, embora eu nunca tenha visto tal coisa em outras tantas viagens pela Argentina. Enfim…).

30/11/2010 – Las Flores AR a Vicuña CH – 255 Km
Dia especial da viagem. Finalmente iria novamente tentar o Paso Agua Negra. Após colocar tudo na moto, despedi-me do Sérgio. Acelerei a moto, já abastecida de gasolina no dia anterior (tem um posto YPF em Las Flores), até a aduana da Argentina, um pouco depois da saída de Las Flores. Ninguém no local além dos oficiais. Apesar de saber que inúmeros motociclistas já fizeram este trecho, ainda assim os guardas e funcionários da aduana ficam espantados quando aparece mais um. Rapidamente estava liberado. Me deram um papel para que eu entregasse em um posto de fiscalização cerca de 40 Km adiante. O Paso Agua Negra é considerado perigoso pelas autoridades argentinas e chilenas. Funciona mais ou menos assim: eles têm controle de quem entrou no Paso e trocam informações entre si. O lado argentino com o chileno estão em constante contato. Eles estimam em aproximadamente de 4 a 5 horas o tempo necessário para a travessia. Caso alguém que deu entrada não apareça do outro lado, eles mandam uma viatura procurar pelo viajante perdido. Na teoria é assim. Não sei de relato alguém que tenha necessitado deste resgate, mas é algum conforto para os mais inseguros.

Lá fui eu. Depois da aduana tem ainda uns 30 Kms de asfalto. Você já vai visualizando as montanhas no horizonte, muito emocionante. De repente acaba o asfalto e começa um rípio muito solto, com pedras grandes. Penso que aquele trecho inicial estava particularmente difícil por obras de asfaltamento em curso. Estava bastante complicado levar a moto adiante, mas era bem cedo pela manhã, tempo aberto de céu azul e boa temperatura. Com o terreno ruim, só me restava ter paciência e colocar o pé no chão sempre que necessário (quase todo o tempo…). Fui seguindo devagar, sozinho, ouvindo apenas minha respiração dentro do capacete (desliguei o MP3 do GPS pois não gosto de pilotagem minuciosa com muito barulho). Curvas muito fechadas e estrada estreita, eu ia buzinando nas para avisar alguém da minha presença, mas não passou ninguém por ali. De repente começou aquilo que parecia ser o fim da minha viagem. Passei a ouvir um barulho metálico, pausado, vindo da minha roda traseira. Parei a moto, com dificuldade consegui apoiá-la em uma pedra um pouco maior. Ao verificar o pneu traseiro, meu coração quase saiu pela boca. Um parafuso de 10 cm havia transpassado todo o pneu (vejam foto do desgraçado encravado no pneu na seção de fotografias). Só dava para ver a cabeça e o seu final, como um alfinete gigante destruidor de sonhos. Não tinha outra alternativa a não ser retornar imediatamente para Las Flores e verificar melhor o que podia ser feito. Cheguei a de volta à aduana e tive que fazer todos os trâmites de ingresso na Argentina. Os guardas estranharam, por certo pensaram que eu havia "amarelado". Mostrei o parafuso gigante e eles franziram as testas… mau sinal. Mesmo de má vontade me deram os carimbos e papéis necessários para voltar para o território argentino. Fui direto ao hostel do Sérgio e pedi sua ajuda. Aquele cara gigante subiu na garupa da moto, que sofreu de imediato, e fomos circulando pela cidade atrás de um borracheiro. Todos estavam fechados, ninguém trabalhando. Andar com aqueles 120 Km extras na garupa pelas estradinhas de Las Flores foi péssimo – tanto para moto quanto para o meu moral… Decidi que tinha que comprar um pneu novo. Fomos ao posto de gasolina e por telefone o Sérgio achou um pneu em San Juan, distante mais de 220 Km. Teria que voltar pelo deserto até San Juan e trocar o pneu. Eu não gosto, nunca, de retroceder. Para mim aquilo era horrível, mas até então era a única saída.

Eu desconfiava que o parafuso não havia efetivamente furado o pneu e que ele havia pego apenas a borracha de fora, não chegando a provocar saída de ar. Mas eu não tinha, ainda, coragem de tirá-lo de lá. Ao sairmos da loja de conveniência do posto encontrei três argentinos que haviam feito o Paso no dia anterior, 2 com com Honda Transalp e 1 com Honda Falcon. Muitos cumprimentos, fotos, etc. Contaram maravilhas sobre o Paso, paisagens, etc. Minha adrenalina estava a mil: eu tinha que conseguir. Mostrei-lhes o parafuso e um deles, que me parecía ser o "líder", diagnosticou o que eu imaginava. Resolvemos tirar o parafuso e ver no que ia dar. Peguei um alicate na minha bagagem e, com quatro braços puxando, retiramos aquele pedaço de metal do pneu. O argentino se antecipou e lascou uma boa dose de saliva no pneu. Nenhum sinal de ar escapulindo. Parecia que nada havia se passado com o pneu. Agradeci muito os caras. Nessa brincadeira de ir e voltar eu já havia consumido gasolina equivalente a mais de 70 km. Minha autonomia estava prejudicada e já eram quase 11:00 hs da manhã. Eu não tinha nenhum peso argentino para abastecer. Decidi tocar assim mesmo. Tudo iria dar certo, tinha certeza. Subi na moto e acelerei forte para recuperar o tempo perdido. Na aduana foi outra piada… tudo de novo, novos carimbos, novos papéis, deixei os caras para trás e voltei pro rípio. Nos 40 km entreguei o papel de controle para o fiscal e definitivamente comecei a travessia do Paso Agua Negra. Foi sensacional. A estrada é sempre muito estreita, sinuosa e em subida. Extensas formações de gelo (Los Penitentes), similares as que encontrei no Paso San Francisco porém muito maiores, me acompanhavam na beira da estrada nos pontos mais altos. Foram muitas paradas para fotografias. Completamente sozinho todo o tempo, eu era o dono do local. No topo atingi os mais de 4.700 metros de altitude. Ventava bastante mas parei ali um bom tempo para curtir o local e tirar mais fotos. A respiração era bastante difícil, mas tudo bem. Comecei o trecho em descida, o qual acho muito mais difícil que subir. Por indicação do Sérgio, de Las Flores, no trecho de descida eu fui pelas "variantes", que são caminos alternativos destinados a veículos leves. Há outro caminho que é utilizado pelos caminhões. Não sei se fiz a escolha adequada pois estas variantes são muito íngremes. Foi complicado segurar o peso da moto, deslizando no rípio solto, naquelas verdadeiras rampas. O braço ficou cansado rápido e os dedos endureceram em cima dos manetes do freio e da embreagem. Assim fui, apressando o máximo que podia, pois acreditava que, naquele ponto, todas as belezas do Paso já haviam sido aproveitadas, a não ser pelo grande e belo lago verde que bordeei logo em seguida. O negócio agora era chegar ainda com a luz do dia até a aduana chilena e, principalmente, com a gasolina que me restava.

Cheguei a aduana chilena com a moto andando só no cheiro da gasolina. Certamente não daria para chegar ao próximo posto, somente em Vicuña, mais de 90 Km a frente. Mas no meu livro de 2005 eu escrevi que para as pessoas de bem sempre há uma solução. Eis que o oficial que me atende é o mesmo que me recebeu em abril de 2010, na tentativa frustrada de travessia do Paso. Era o Marco Veiga Silva… Em abril nós havíamos conversado muito e eu havia prometido a ele que voltaria. Pois bem, ali estava eu. Imediatamente ele perguntou sobre a Michelle e então expliquei a ele da impossibilidade de ela estar presente. Foi uma festa. Rapidamente fiz os trâmites de entrada no Chile. Comentei sobre meu problema de gasolina e ele, sem questionar, me deu 5 litros! Ele me explicou que eles sempre guardam um pouco de gasolina para casos como o meu. Atendendo seu pedido, tirei uma foto dele perto da moto e depois mandei para ele por e-mail. Tenho um amigo na Junta de Toros, Paso Agua Negra, Chile.

Em resumo, levei 5 horas para percorrer o Paso. São 130 Km de rípio no total. Nenhum outro veículo passou por mim durante todo o dia.

O trecho entre a aduana e Vicuña é muito bonito e na sua maioria pode-se acelerar a vontade pois é um asfalto perfeito com curvas deliciosas. Fui apreciando as plantações de uva que sobem as montanhas de areia. Cheguei na cidade no final da tarde, feliz da vida, realizado. Fui a um posto de gasolina, completei o tanque, lubrifiquei a corrente e já deixei a moto pronta para o dia seguinte. Saquei pesos chilenos no banco junto à praça e hospedei-me no mesmo hotel, Hotel Halley (US$ 60,00 – precinho "camarada" no Chile). Jantei cabrito assado no restaurante Halley, na mesma rua do hotel. Nos fundos do hotel, em uma área verde, atualizei os dados no computador, enviei mensagens para casa e para os amigos. Tomei algumas cervejas (perdi a conta) e fui dormir.

01/12/2010 – Vicuña CH a Taltal CH – 715 Km
Pela manhã parti em direção a La Serena, dobrei à direita na Panamericana e acelerei para o norte. Viajava fácil pela Ruta 5. Deixava os Kms para trás tranquilamente. Peguei um novo anel viário em Copiapó, assim não precisei entrar na cidade (a pesar de minha vontade de ver algum monumento em homenagem aos "33 mineiros"), e segui para Caldera, onde se passa a viajar acompanhado pelo Oceano Pacífico. Passei por Chañaral, despedi-me do Pacífico por um tempo e cheguei em Taltal no meio da tarde. Peguei um hotel mais barato (Residencial Panaral – US$ 35,00) e fui comer um sanduiche no Café del Tren. Comprei umas cervejas no supermercado e fui tomar no quarto do hotel, enquanto navegava na internet. Vale mencionar aqui que em todos os lugares em que fiquei havia internet wireless de graça, até nas maiores espeluncas, menos no Brasil, é claro…

02/12/2010 – Taltal CH a Iquique CH – 678 Km
Deixei Taltal para trás e continuei a norte, em direção a Antofagasta. Fui por Paposo (Ruta Semi-costanera) e só encontrei novamente a Panamericana a 60 Km de Antofagasta, próximo da Mão do Deserto, que desta vez eu não visitei pois teria que retroceder 18 km. Como já estive lá por outras 3 vezes, deixei passar. Cruzei Antofagasta, parei para comer alguma coisa na La Portada e segui viagem. Cruzei por Tocopilla e segui viagem. Cheguei em Iquique (sempre viajando pela Ruta 1) e fui direto para o Backpackers Iquique, na Amunategui (US$ 22,00), um hostel internacional muito bom, com viajantes do mundo todo. Pratiquei meu inglês, italiano, etc. Fui a zona franca de Iquique mas não comprei nada. Voltei para o hostel para curtir aquela atmosfera maravilhosa entre os viajantes. Encontrei um casal de Fairbanks, Alaska! Elas viram um adesivo da Alaska Highway na minha moto e vieram conversar. Contei-lhes sobre a viagem de 2009, tomamos umas cervejas e fui dormir.

03/12/2010 – Iquique CH a Putre CH – 473 Km
Saí de Iquique com destino ao Peru. Viajei sozinho pela Panamericana em trechos onde parece que o mundo vai acabar, devido ao desenho das estradas e das montanhas de areia e rochas que são cortadas pelas estradas. Alguns visuais chegam a ser macabros, eu acho.
Cheguei em Arica, comi um cachorro quente no Punto no posto da Copec na entrada da cidade enquanto pensava na vida e no prosseguimento da viagem. Queria algo mais. Não estava satisfeito em simplesmente entrar no Peru e passar novamente por Tacna, Moquegua, etc. Decidi quebrar o roteiro e entrar pela Bolívia. Fui ao centro de Arica, troquei dólares por bolívares (moeda boliviana) e então saí de Arica e pouco depois virei à esquerda na Ruta 11, em direção a Putre. Estrada muito interessante, porém com muito movimento de caminhões bolivianos, velhos e mal-cheirosos com a fumaça negra que soltavam. Cheguei a Putre, um vilarejo muito acolhedor já na entrada do altiplano. Ali estava a mais de 3.000 metros de altitude. Fiquei hospedado no Residencial La Paloma por US$ 22,00. É um vilarejo típico andino. Casinhas de pedra, mercearias, um boteco… muito frio e a falta de ar da altitude. Ali percebi que estava sem o farol baixo na moto e também sem gasolina. Não há posto, é claro. A gasolina é comprada na mercearia. E deve-se encher o tanque pois o próximo ponto de abastecimento é somente já no interior da Bolívia, quase 300 Km adiante.

04/12/2010 – Putre CH a Puno PE – 625 Km
Este trecho foi formidável. Parti de Putre e segui em direção à aduana chilena e depois para a boliviana. Fazia muito frio naquela manhã. No percurso, um grande vulcão (Chacuyo) na beira da estrada. Passada a aduana da Bolívia – Tambo Quemado - (sim, muito bagunçada, muito movimento, serviço precário e US$ 5,00 de propina), avista-se maravilhosa paisagem composta por um campo verde, muitas lhamas e o Nevado Sajama ao fundo. Coisa de cartão postal. Já estava em pleno altiplano. Desde a aduana boliviana a altitude não baixa de 4.000 metros. Segui pelas estradas bolivianas (boas em sua maioria nesta parte do país), passei por fora de La Paz e segui para a aduana peruana, em Desaguadero. Pela segunda vez não consegui pegar Tiwanaku aberto à visitação.
A aduana peruana é aquela festa da bagunça, mas acaba dando tudo certo. Troquei dólares por soles (moeda peruana) me livrei dos últimos bolívares e acelerei em direção a Puno, curtindo o visual do Lago Titicaca à direita. Chequei em Puno no final da tarde e fiquei no Plaza Hotel (US$ 45,00), bem no centro da cidade, ao lado da praça. Jantei um delicioso ceviche acompanhado de uma cerveja Cusqueña. Fiz um rápido passeio pelo centro comercial e fui dormir.

05/12/2010 – Puno PE a Cusco PE – 410 Km
Viagem tranquila até Cusco, pasaando por várias plantações com os campesinos (principalmente mulheres) trabalhando, vários pequenos vilarejos, Abra la Raya, e entrei no Vale Sagrado.
Cusco é sempre muito bom. Parei na praça central, tirei umas fotos da chegada, procurei no GPS um hotel e fui para o Casa Grande Lodging, na rua Santa Catalina Ancha 353, onde fiquei por 2 dias por US$ 25,00 a diária. Este hotel é bom para motocilistas pois é distante apenas uma quadra da praça e há um local interno para guardar muitas motos em segurança, coisa difícil em Cusco. Passei 2 noites em Cusco descansando, lendo um livro, comendo e bebendo.

Com relação ao problema da luz baixa, fui a uma loja e comprei lâmpadas novas. Troquei e o problema persistiu. Resolvi deixar essa questão para resolver no Brasil e continuei viajando apenas com a luz alta. A esse respeito recebi muitas dicas dos parceiros motociclistas no Brasil, sempre dispostos a ajudar, principalmente do Grupo V-Strom e do Grupo Big Trails.

Não fui a Machu Picchu pois lá estive com a Michelle no reveillón de 2004. Resolvi deixar aquele momento como único.

Estava ansioso para percorrer a Interoceanica. Muito tempo pensando nesta estrada e estava a poucos dias de conhecê-la pessoalmente. Tinha muitas notícias sobre seu estado. Uns diziam que estava quase pronta. Outros diziam que ainda havia muito a ser feito. Enfim, queria ter a minha própria experiência.

07/12/2010 – Cusco PE a Puerto Maldonado PE – 495 Km
Naquela manhã chovia muito, o que quase me fez adiar a partida. Mas resolvi encarar assim mesmo. Coloquei todo o meu aparato de frio e ainda roupa de chuva. Saí de Cusco às 07:00 hs. Já tinha forte trânsito na cidade. Fui até o início da Interoceanica, onde há uma placa indicando distâncias, tirei umas fotos e comecei a subir a montanha, em uma estrada de asfalto muito novo e com muitas curvas. Cruzei por inúmeros vilarejos, vi muitos campesinos, pessoas sofridas pelo trabalho árduo nas plantações. O asfalto seguia perfeito. A estada subiu bastante. Cheguei a mais de 4.700 metros de altitude em uma área cercada por montanhas nevadas. Visual fantástico. Estava todo o tempo sozinho na estrada. Raramente um carro cruzava no sentido oposto. A chuva havia parado. Fazia muito frio na altura. Muitas fotos. Começo a descer muito rápido. A estrada continua muito sinuosa. De repente o único desvio na estrada: 3 km de terra em Marcapata. Parada para abastecimento em Quincemil (uma mercearia vende gasolina). Tinha um acidente com um caminhão que me atrasou um pouco, mas nada de mais. A estrada segue boa, agora com um calor insuportável, e eu ainda com todo o aparato de frio, inclusive com a roupa de chuva.

Pouco depois de Quincemil parei no primeiro posto de gasolina que encontrei. O calor era tanto que fiquei só de cueca e me refresquei em uma torneira. Estendi as roupas em cima da moto e em cima da bomba de gasolina, pelo chão, etc… Não havia ninguém na região a não ser o frentista. Sem problemas.

Segui pela floresta até Puerto Maldonado. Um inferno de cidade. Fui direto para o único hotel recomendado (Cabaña Quinta – US$ 40,00) e fiquei me refrescando no chuveiro por muito tempo. Jantei no próprio hotel e fui dormir. Até tentei dar uma volta na cidade mas o calor era tão grande que em poucos minutos já estava ensopado de suor.

Eu estava satisfeito com a beleza da estrada até ali, porém esperava ter encontrado mais trechos de terra, desvios, rios, etc… Já antecipando o final da Interoceanica, informo que ela estava 99,9% pronta, com exceção da ponte sobre o rio em Puerto Maldonado, cuja travessia ainda era feita em pequenas balsas. Qualquer tipo de moto pode viajar por ela sem problemas.

08/12/2010 – Puerto Maldonado PE a Rio Branco AC Brasil – 595 Km
A travessia do rio em Puerto Maldonado é tranquila. Apenas temos que acomodar a moto corretamente na balsa. É uma travessia de apenas 10 minutos e custa 10 soles para uma moto grande (cerca de US$ 4,00).

Chegando na outra margem o negócio é tocar em frente. O cenário até a fronteira com o Brasil é de Floresta Amazônica bem fechada. Em dezembro fazia muito calor. Ao contrário de todas as previsões, não choveu nem um pingo sequer. O asfalto é bom, porém há muitas lombadas, muitas mesmo. Na beira da estrada várias comunidades muito pobres, sujas, vivem como podem por ali. É um cenário triste de uma parte carente do Peru e que se encontra em toda a sua parte norte, tanto a leste, no lado da floresta, como a oeste, no árido deserto.

A fronteira com o Brasil é na cidade de Assis Brasil. A aduana peruana é uma casinha sem qualquer placa indicativa. Se bobear, passa-se sem fazer os trâmites. Na fronteira brasileira tudo foi muito rápido. Entrei na cidade para me livrar dos últimos soles que ainda possuía e segui viagem pela parte brasileira da Estrada do Pacífico (como é chamada no Brasil), a BR 317. Como não podia deixar de ser, é uma rodovia completamente danificada, cheia de buracos, remendos, acostamento inexistente. Mais uma vez eu digo: as estradas de todos os países da América do Sul (com exceção das Guianas e Suriname, que eu ainda não conheço), quando pavimentadas, dão um show nas brasileiras. E essa condição ruim de estrada iria me acompanhar por quase todo o território brasileiro pelo qual viajei.
Cheguei a Rio Branco e fui na concessionária Suzuki (Novesa Motos, Av. Nações Unidas, 651) resolver o problema da luz baixa. Em segundos o pessoal detectou problema no chicote da frente. Passaram um limpa contato, deram uma geral e pronto, tudo certo. Parece que a turma da concessionária não estava acostumada a ver uma moto equipada para viagem. Foi uma festa a minha parada naquele local, fotos e tudo mais.

Hospedei-me no Guapindaia Hotel Centro pelo equivalente a US$ 35,00. No hotel, uma ligação telefônica de 4 minutos para Florianópolis me custou R$ 38,00. Em qualquer outro país que passei essa ligação não chegaria a R$ 6,00. Como eu escutei de um caminhoneiro no interior do Mato Grosso, "viajar pelo Brasil é coisa de rico"…

09/12/2010 – Rio Branco AC a Ji-Paraná RO – 908 Km
Um dos atrativos deste trecho é a travessia de balsa pelo Rio Madeira. Custa R$ 3,50 para a moto e leva cerca de 20 minutos. Também há o canteiro de obras da famosa Hidrelétrica de Jirau. Fez calor, choveu, muitos buracos na estrada. Passei por fora de Porto Velho e tomei rumo sul pela BR 364 chegando em Ji-Paraná no final da tarde. Parei na concessionária Suzuki para dar um trato profissional na corrente que estava fazendo um barulho infernal, tipo escola de samba Grupo C. Fui para o Hotel Plaza (US$ 35,00), jantei um cachorro quente no carrinho parado em frente e fui dormir.

10/12/2010 – Ji-Paraná a Cáceres MT – 900 Km
Viagem relativamente tranquila, apesar do intenso movimento de caminhões até Pimenta Bueno. Em Cáceres fiquei no Portobello Hotel por US$ 40,00, muito bom, na margem da BR 174. Ao anoitecer decidi que ia experimentar a carne de Jacaré, prato típico desta região. Provei o bicho no Kaskata Restaurante Flutuante, que fica sobre o Rio Paraguai. Comi no espeto, muito bom. Preço do táxi do hotel até o restaurante: R$ 20,00. Distância: 4 Km. Taxímetro? Não. Considerando que no Chile, por exemplo, na maioria das cidades a corrida de táxi tem preço único de 2.000 pesos (R$ 7,00), mais um sinal que viajar no Brasil é realmente pra rico.

11/12/2010 – Cáceres MT a Coxim MS – 757 Km
De Cáceres fui em direção a Cuiabá pela BR 070. Desviei da capital para ir à Chapada dos Guimarães. Vale a pena passar pela Chapada, porém o ideal seria ficar por ali uns dias para fazer algumas caminhadas. Fui na praça central, tomei um café apreciando o movimento dos turistas e prossegui viagem, que se tornou um inferno por conta de uma forte chuva, que me ensopou em segundos. Depois, por um movimento de caminhões que eu nunca tinha tido o desprazer de enfrentar. Ao me aproximar de Rondonópolis a coisa ficou feia. Achei que a moto ia explodir embaixo de minhas pernas, tão intenso o calor do ambiente e do motor. Não tinha como escapar. Com certeza o pior trecho de toda a viagem. Logo em seguida melhorou bastante e a viagem seguiu tranquila até Coxim, já no Mato Grosso do Sul. Fiquei no Hotel Coxim por US$ 40,00 e jantei no próprio hotel, muito bom.

12/12/2010 – Coxim MS a Santo Antônio da Platina PR – 970 KM
No Mato Grosso do Sul as estradas são melhores, pode-se viajar com tranquilidade apesar do calor sempre presente. Muitas plantações que se perdem no horizonte dos dois lados da estrada. Esse trajeto eu fiz pela BR 163, passando por Campo Grande e depois pela BR 267, pasando por Bataguassu e na sequência pela SP 270 (Raposo Tavares) até Ourinhos SP. Entrei no Paraná pela PR 092 e segui até Santo Antônio da Platina. Fui para o Hotel Kanoa e por US$ 35,00 tive uma boa noite de sono.

13/12/2010 – Santo Antônio da Platina PR a Criciuma SC – 880 Km
Último dia de viagem. Muita vontade de chegar em casa. Saí de Santo Antônio da Platina ainda de madrugada, cerca de 05:00 hs. As estradas são boas, bem sinalizadas, tranquilo. Ao me aproximar de Curitiba o mundo veio abaixo. Uma chuva incrível me fazia perder completamente a visibilidade. Parei em um posto de gasolina e esperei passar, o que não aconteceu. Deveria ter rodado até Curitiba e ficado por lá, mas a vontade de chegar em casa era maior. Resumindo, viajei praticamente 700 Km embaixo de uma chuva torrencial, sem precedentes em minhas viagens de moto.

Cheguei em Criciuma às 18:00 hs. Parei a moto na garagem, retirei as bagagens e subi para o apartamento sujando tudo por onde passava. Viagem cumprida, mais uma vez.